Mostrando postagens com marcador Museu da Imagem e do Som. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Museu da Imagem e do Som. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de abril de 2011

Discurso de doação do Acervo HBC

Meus amigos,

Não gosto de discursos, mas rabisquei um agradecimento formal a todos que trabalharam na construção do saite Acervo HBC. Deu-me canseira, confesso. Fiz, refiz, rasurei, detonei alguns tópicos e eis que me deparo com a própria essência desse trabalho: a descoberta, hoje, de uma pasta chamada “Empório da Magia”.

Isso foi em 1997, façam as contas. Lembro que, para tocar o projeto adiante, coloquei Chico Buarque num estúdio para narrar um texto descritivo daquilo que, no futuro, seria o saite que ora vos contempla.
Volto a dizer: a essência do trabalho está aí, na surpresa da (re)descoberta de um registro sonoro (às vezes, ocasional) de visitas ilustres à minha casa. Como Valzinho, Silas de Oliveira ou eu mesmo visitando Tom Jobim na companhia de Aracy de Almeida. Muita coisa se perdeu, mas a essência do acervo foi preservada: poder encontrar o que considerávamos na lata do lixo da tal memória.

Transcrevo o discurso que, olha só!, prefiro antecipar em nosso saite – porque na hora agá ficarei olhando pro chão, orando para que ele se abra e me engula. Nessas horas, fico parecendo a redução mais perfeita e completa do 3 em 1, ou seja, a dos Três Patetas. Este vosso amigo torna-se a versão mais perfeita do imperfeito e do desastrado palhaço que, às vezes, faz a tal platéia gargalhar – como já se ouviu naquele samba do Nelson Cavaquinho.
Hermínio Bello de Carvalho


01. A doação de meu acervo ao Museu da Imagem e do Som, que hoje está sendo oficializada, tem uma característica: dos presumíveis 50 mil itens que fazem parte desse conjunto, 10 dez mil já estão disponibilizados no saite Acervo HBC.


02. Esse trabalho de construção do saite deve-se a uma equipe de jovens e talentosos operários culturais, aqui representada por Luiz Boal, da produtora Olhar Brasileiro. Quero citá-los, um a um: o jornalista Alexandre Pavan, o músico e parceiro Luiz Ribeiro, Jacira Berlinck e Tatiana Maciel. Devo acrescentar que uma primeira tentativa de organizar esse acervo foi feita em 1997, sob a coordenação do produtor João Carlos Carino, e com apoio financeiro do empresário Paulo Amorim.

03. Devo um agradecimento especial ao meu irmão e companheiro Prof. Luis Sergio Bilheri Nogueira, que há mais de quatro décadas acompanha o meu trajeto na área da cultura. Esteve ao meu lado, e de Albino Pinheiro, no projeto “Seis e Meia” – do qual resultou um macro programa que levei para a Funarte. Falo do Projeto Pixinguinha, cuja ampliação a nível nacional também se deve a ele.

04. Pedi à presidenta do MIS que convidasse um grupo de amigos que fazem parte de meu acervo afetivo: Áurea Martins, que aqui representa Elizeth Cardoso e Zezé Gonzaga, cantoras que estiveram presentes em nossas vidas, e que deram vida às canções que compus com meus parceiros.

05. Pedi que à esta cerimônia não estivesse ausente um amigo que há quase meio século está ao meu lado. Estive, com Ismael Silva, na cerimônia de seu casamento com Magali. Vi seus filhos crescerem: Serginho, Mauricio, Claudinha. Estou me referindo ao amigo Sergio Cabral, que me inspirou na doação de meu acervo ao MIS. Somos, de alguma forma, discípulos do velho Henrique Foreis, o Almirante, e com ele e Jacob do Bandolim aprendemos o quanto é importante registrar, documentar, preservar e fazer circular os bens culturais que chegaram às nossas mãos.

06. Pedi ainda que não faltasse à esta cerimônia uma pessoa com quem aprendi a melhor compreender a natureza e a importância de sua preservação. Ele é Zé Luiz do Manguezal, da Colônia Z-10 de Pescadores, da Ilha doGovernador, que navega num barquinho chamado Chico Bello – e não me perguntem o porquê desse nome.

07. Pedi também que a presidenta Rosa Maria Araújo convocasse um representante da Escola Portátil de Música, a quem doarei outra parte de meu acervo, constituído de centenas de livros, inclusive a coleção Mário de Andrade. Parte desse acervo áudio-visual já integra a midiateca que tem meu nome, e que está em pleno funcionamento naquela Escola. Classifico como doação partilhada, essa que farei, porque alimento a esperança de que conseguiremos recuperar a integralidade dos programas culturais que produzi para a Rádio MEC, na década de 1950, e também para a TVE, hoje TV Brasil. A transferência dessa outra parte do acervo será entregue à Escola Portátil, tão logo ela ocupe o prédio que lhe foi destinado como sede, na velha rua da Carioca. Louve-se o Sr. Governador do Estado Sergio Cabral e a Secretária de Cultura Adriana Rattes por esse olhar atencioso para uma instituição que atende a mais de novecentos alunos no Rio de Janeiro. Como o próprio nome indica, a Escola é Portátil, podendo circular, como já circula, por todo o Brasil. Adriana é bastante paciente com o “buzinaço” que faço, conclamando a volta do projeto de Albino Pinheiro à Praça Tiradentes. Sábia também vejo que é a escolha de Antonio Grassi para presidir a Funarte. Não deixa de ser uma sinalização de que, em breve, estará novamente circulando por todo o Brasil o Projeto Pixinguinha. É um indicativo de que instituição está sendo recolocada condignamente no organograma do Ministério da Cultura, cuja titular, Ana de Hollanda, foi até pouco tempo vice-presidente desta Casa.

Finalizando, um agradecimento à presidência, à vice-presidência, às diretorias do Museu da Imagem e do Som – e a todos seus funcionários que devem estar orgulhosos com a perspectiva de uma nova e moderna sede em Copacabana. E rendo minha homenagem a Mauricio Quadrios, primeiro diretor desta casa, que inspirou Carlos Lacerda a edificar este Museu.

A Pixinguinha e Clementina, minhas saudades.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Repaginando a vida

Já gostei de festejar meu aniversário e, sobretudo, o aniversário dos outros. Lembro os de Ismael Silva, comemorados quando ainda habitava um “já-vi-tudo” no Beco do Rio, a pouquíssimos metros da antiga Taberna da Glória. A festa se espalhava pelo corredor do nono andar onde eu morava, com total cumplicidade (e adesão) de meus vizinhos. Bons tempos aqueles! E, é claro, quando o corredor apresentava congestionamento, o povaréu debandava para onde? Para a velha e hospitaleira e gloriosa e imbatível e saudosa Taberna – a antiga, aquela onde Mário de Andrade bebia com seus amigos, e onde também eu bebi com minha amada Aracy de Almeida.

Hoje faço 76 anos, contrariando todas as minhas expectativas. Estou vivo. Melhor dizendo, tecnicamente vivo.

Os jornais desta semana comentam a doação de meu acervo ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ). Foi uma semana estafante: entrevistas, filmagens, algo que tomou proporção inusitada. Alguns chegaram a especular sobre a minha saúde. Calma, minha gente!

Resolvi fazer um texto, porque eu mesmo precisava me explicar essa quase doação de órgãos vitais à minha vida.

Desenho de Oscar Niemeyer

A doação que faço ao MIS não é produto de nenhum desânimo pessoal, mas o de ver minha casa abarrotada de material que poderia estar em circulação, tal e qual já experimentamos fazer na Escola Portátil de Música com a midiateca que tem meu nome. Sempre vociferei que a cultura é dinâmica, plural e tem que circular. Sempre lutei, sobretudo, quando trabalhei na Funarte, para que houvesse uma política de ocupação de espaços e, paralelamente, uma rigorosa política de formação de novas e jovens platéias.
Lamento, por exemplo, que o Projeto Pixinguinha (inspirado no Seis e Meia de Albino Pinheiro) tenha sido colocado fora de circulação. Com esse corte de 50 bi no orçamento, acho que a ministra Ana de Hollanda e o Antonio Grassi, presidente da Funarte, vão ter que se virar para reverter a situação. Que nossa presidenta, mais o Mantega, tenham sensibilidade para não contigenciar recursos para aquele já paupérrimo Ministério.

Outra reivindicação que faço – e, aliás, a encaminhei ao governador Sergio Cabral – seria a de ocupar as UPPs com ambulatórios culturais, aproveitando os recursos humanos formados pela já citada Escola Portátil e mais os já anunciados equipamentos de saúde e esporte. Bato pé nessa sugestão: a jovem (10 anos!) Escola tem, potencialmente, oficineiros e monitores capacitados para montarem salas de ensino de música brasileira nessas comunidades. É um erro tentar um confronto com o funk e o hip hop, manifestações já sedimentadas nessas unidades. Há que se levar um outro tipo de cardápio musical para essas unidades pacificadas, para que elas conheçam, por exemplo, as tantas jovens orquestras que animam nossas noites cariocas. Isso é, também, uma política de abertura de um mercado cada vez mais afunilado, no qual casas importantes (Canecão, Modern Sound) estão cerrando suas portas.

Acho que a nossa Secretaria de Cultura poderia reabrir o extinto Seis e Meia num horário mais lógico, e reviver, numa ação conjunta com a Secretaria de Educação, as chamadas sessões pedagógicas. Voltei ao Cine Odeon, onde havia assistido um documentário sobre lixo, para ver outro docudrama – o de Elza Soares. Éramos não mais que cinco espectadores naquele teatro lindo, que pode abrigar uma função alternativa no esvaziado corredor cultural da Cinelândia, um bairro hoje quase sem cinemas.

O carnaval de rua, cuja morte decretaram tantas vezes, não está de volta? Convoquem o Monobloco, o Cordão da Bola Preta e outros de igual estirpe para, quem sabe, sacudir os poerentos e modorrentos corredores culturais de uma cidade que possui prédios históricos que precisam promover ações dinâmicas: o Municipal, a Biblioteca Nacional, a Escola de Belas Artes, o fantástico auditório da ABI, a Leitaria Cave e a fabulosa Confeitaria Colombo. Sem falar dos bares vocacionados para o encontro dessa gente bronzeada que precisa mostrar seu valor. Vamos fazer bailes públicos sob os pilotis do Ministério da Cultura com a Furiosa Portátil, por exemplo.

Dessacralizar alguns desses templos, levando a garotada a utilizá-los de forma consciente. Seria sonhar muito alto? O canal da Unirio voltou a funcionar, e tomara que tragam nossa Joyce de volta; ela com seus programas paradidáticos arrasadores. E por que não abrir esse canal para nossos jovens criadores (músicos, poetas, compositores) – assim, como deveria fazer a ex-TVE, e como fazia a TV Cultura – em véspera de sucateamento? Enfim: não sonhemos pequeno.

ÁUREA MARTINS

Ontem, 27 de março de 2011, tomei uma decisão: banir de meus textos a palavra invisibilidade, quando tiver que escrever sobre Áurea Martins. Com uma Sala Baden Powell cheíssima, nossa Cara Preta (como ela se auto denomina, jocosamente) deitou e rolou, fez o que quis com a platéia e com seus músicos. “Meu Deus, onde andava essa mulher?” – veio me dizer um jovem, fascinado com o recital cheio de provocações (ela cantando a capella, ela desfiando o “Bala com bala”, literalmente duelando com a bateria do Cassius – “mas o que é que é isso?”

Anuncio o seguinte: agora em abril gravaremos o primeiro DVD de Áurea Martins, “Depontacabeça, até sangrar”. Participações especialíssimas de Fernanda Montenegro, Chico Buarque e Francis Hime.

E abram alas para Áurea Martins, portentosa, passar com seus exuberantes 70 anos.

domingo, 13 de março de 2011

Meu acervo, nosso acervo

Hermínio Bello de Carvalho e sua coleção de LPs 

Cabe uma explicação preliminar: estou sendo assediado pela imprensa para fornecer dados sobre a anunciada doação de meu acervo para o Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, presidido por Rosa Maria Araújo. Tenho uma relação muito antiga com aquela casa, criada pelo governador Carlos Lacerda na década de 1960. O político ficara fascinado com as idéias expostas num texto do crítico musical Mauricio Quadrios, que foi nomeado por Lacerda como primeiro diretor da instituição.

Fiz parte do primeiro Conselho Consultivo, constituído por Ricardo Cravo Albin, que sucedeu a Mauricio Quadros na direção do MIS. Desse Conselho participava o crítico Ari Vasconcellos, que sugeriu, então, que se gravassem depoimentos de grandes figuras de nossa cultura. A sugestão do crítico foi aceita por aquela administração, inegavelmente dinâmica, que atendia às pretensões do novo diretor, a quem a saudosa Eneida dizia sofrer de “exuberante modéstia”. E a prova era a constituição do quadro do Conselho “Superior”, em número igual ao da Academia de Letras. Não se pode criticar Ricardo Cravo Albin por sonhar grande, vejam o caso do próprio Instituto que fundou para legar seu nome à posteridade.

Conversei, este final de semana, com os responsáveis pela criação e manutenção do www.acervohbc.com.br: Luiz Boal (da produtora Olhar Brasileiro), Alexandre Pavan e Luiz Ribeiro.

Expus minha fragilidade pessoal diante dessa coisa chamada Internet, instrumento que não domino. Meu próprio saite o acesso com dificuldade. Numa reunião aqui em casa, Rachel Valença (atual vice-presidente do MIS) me contou ter acessado o saite e encontrado uns sambas de Silas de Oliveira gravados em minha casa há mais de 40 anos.

Cabe explicar que era uma época em que eu era movido pelas manias de Jacob do Bandolim, que tudo gravava, que tudo registrava para seus arquivos. Tinha metodologia, aquele meu amigo: fichas milimetricamente impressas para que rolassem em sua máquina de escrever, numa ordem tipográfica irrepreensível. Até um pentagrama imprimira nelas, para fixar determinadas melodias. Muito tempo depois descobri, em meu arquivo, uma fita de Cartola sendo acompanhado ao violão pelo próprio Jacob, que o levara à sua casa em Jacarepaguá.

Eu já tinha um matulão de tralhas que colecionava. Roteiros em profusão de um tempo em que militei na Rádio MEC (da qual fui expulso depois) e outras centenas de textos de programas na extinta TVE. Atas e mais atas de conselhos dos quais fiz parte e uma parte iconográfica considerável – até um bilhete quase desaforado de Igor Stravinsky é uma das preciosidades desse arquivo.

Ficaria difícil, para mim, conversar com jornalistas sobre o acervo, sem que tivesse um suporte que me fosse fornecido pelos idealizadores e construtores do www.acervohbc.com.

São quase 5.000 LPs, são sessenta e poucas caixas com documentos cujo conteúdo acabei esquecendo, por não manuseá-los com a curiosidade de antes. São não-sei-quantos álbuns encadernados que contam um pouco da minha trajetória, que vale muito mais pelas pessoas que acreditavam naquele jornalistazinho, repórter maquetrefe de um só paletó, que ousou andar de braços com Linda e Dircinha Baptista, foi ao casamento de Heleninha Costa com Ismael Neto, e recebeu Ismael Silva em sua casa – quanta coisa, meu Deus!

Eu gravava tudo, deixava que fotografassem à vontade, mas não posso atribuir isso a um narcisismo meu. Claro que deveria haver um naco de vaidade nessa história. Mas a dimensão de meus arquivos só apareceu há mais ou menos duas décadas, quando comecei a perder amigos essenciais: Walter Wedhausen, Cartola, Nelson Cavaquinho, Elizeth Cardoso, Aracy de Almeida, Heleninha Costa – e sobretudo uma figura icônica dentro de meu currículo cultural, Valzinho. Era um compositor quase invisível, citado apenas, e olhe lá, por Radamés Gnattali e Tom Jobim.

Redescobri-lo, deu-me a certeza de algo que se consolidou recentemente, e conto pra vocês: meu encontro com o professor Antonio Cândido. Numa confêrencia que fez no Instituto Moreira Salles, no lançamento do livro “Pio & Mário, diálogo da vida inteira”, com introdução de Gilda Mello e Souza e traços biográficos de Cândido. Na rápida palestra que fez, confessou esquivar-se dos protagonistas dos fatos que vivenciara, preferindo, segundo ele, os “personagens secundários”. Por isso, ao invés de falar sobre o grande Mário de Andrade, abordou a relação do chamado Tio Pio com o pai do autor de “Macunaíma”.

Personagens secundários? Não custou muito a cair a ficha, como se diz vulgarmente. Dois exemplos vieram claros à memória: Valzinho e Clementina de Jesus, ele personagem anônimo da música popular, área onde Mãe Quelé debutara aos 62 anos de idade.  

Sempre declarei que este saite deveria funcionar como um prestador de serviços.  

A doação que faço atende à essa expectativa. Esclareço mais uma coisa: uma parte de meu acervo pessoal  já está destinado para a Midiateca Hermínio Bello de Carvalho, futuro cento de pesquisas da Escola Portátil de Música que, até 2012, esperamos, ganhará sede própria na rua da Carioca. Há pouco, doei mais de 100 livros para o espaço Vicente Maiolino.

Pedi aos meus irmãozinhos Luiz Boal, Alexandre Boal e Luiz Ribeiro, que me subsidiassem, e aos jornalistas que me procuram, com dados mais substanciosos, que estes, infelizmente, eu não os tenho compilados.  

Essa doação coincide com a edição de “Áporo Itabirano”, que reúne minha correspondência com Carlos Drummond de Andrade, e também com os 76 anos que completarei dia 28 de março corrente. Coincide, ainda, com a gravação de um DVD de Áurea Martins, pelo Canal Brasil/Biscoito Fino, outra personagem secundária que vem à luz, e de forma brilhante, após quase meio século de carreira artística.

Também já entreguei ao produtor João Carlos Carino todos os textos do livro “Figuras Musicais”, que está sendo ilustrado pelo grande caricaturista Baptistão, de São Paulo.

Atendendo ao meu amigo Rodrigo Velloso e ao poeta-compositor-profeasor Jorge Portugal, me associei às comemorações do centenário de Assis Valente, que serão promovidas pela Secretaria de Cultura de Santo Amaro da Purificação, onde aquele compositor nasceu. Será promovido um concurso de monografias, forma de se fazer o registro e obedecer àquele bordão cansativo e enferrujado que brado há longo tempo: “cultura tem que circular”.

Passo ao relatório formulado por meus amigos, e que espero seja imediatamente colocado no blog do nosso acervo.

Grato Luiz Boal. Grato, Alexandre Pavan e Luiz Ribeiro.

P.S. – Há uns dez ou quinze anos, um querido amigo e parceiro  entrou num estúdio para gravar vinhetas sobre aquilo que imaginávamos ser uma tentativa de catalogação de meu acervo. Falo de Chico Buarque de Holanda, que deu esse pontapé inicial no projeto do acervo. Lembro que João Carlos Carino, que então coordenava os trabalhos, reuniu uma equipe para filtrar a parte de áudio do arquivo. A consolidação desse trabalho deu-se, afinal. Há dois anos, graças a Boal, Pavan e Luiz Ribeiro.

Projeto Acervo HBC



ACERVO HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO
1ª FASE – Patrocínio Petrobras Cultural ( Março/2007 )


A primeira fase do projeto Acervo HBC foi dedicada à organização do arquivo e a um levantamento mais detalhado de seus itens. Nesse trabalho, para surpresa da equipe envolvida, foi encontrada uma quantidade de documentos muito maior do que se imaginava. Além dos 10 mil itens contemplados neste projeto, é possível estimar outros 40 mil – principalmente material jornalístico, com recortes de jornais e revistas colecionados por Hermínio nas últimas cinco décadas.
Após a organização do arquivo, seus itens foram divididos nas seguintes categorias:

A) Áudio (músicas, entrevistas etc.)
B) Iconografia (fotos, caricaturas, quadros)
C) TEXTO
C1) Poesia (inédita e editada)
C2) Cancioneiro (letras de música inéditas e gravadas)
C3) Crônicas e ensaios (inéditos e editados)
C4) Entrevistas concedidas por Hermínio
C5) Material jornalístico diverso
D) Correspondência (cartas, bilhetes, e-mails, bilhetes etc.)
E) Rádio e Televisão (roteiros, catálogos e documentos de programas)
F) Coleção (documentos pessoais; esboços de projetos; programas e cartazes de shows; partituras etc.)

O número de documentos contemplados pelo projeto Acervo HBC pode ser resumido na tabela abaixo:

Categoria / Quantidade total de itens organizados/catalogados

Áudio = 870 horas
Iconografia = 3.500 imagens
Poesia = 440 textos
Cancioneiro = 305 textos
Crônicas e ensaios = 280 textos
Entrevistas = 45 textos
Correspondência = 500 itens
Material Jornalístico = 2.000 itens
Rádio e Televisão = 2.500 itens
Coleção = 400 itens

Para cada uma dessas categorias foi criada uma ficha catalográfica específica, sob as quais cada item do acervo foi inscrito, de acordo com suas características, tornando simples e rápida sua busca seja por categoria, data ou palavra-chave.

Backup
Os arquivos de áudio do acervo foram armazenados no formato AIFF com cópias em MP3 de alta fidelidade. Os arquivos de imagem, por sua vez, no formato JPEG, com 600 dpi de resolução. Por fim, os arquivos de texto, foram transpostos para .DOC. Além de armazenado no site oficial do acervo, todo esse conteúdo possui uma cópia de segurança armazenada em um hard disk (HD) adquirido pelo projeto com essa finalidade.

SITE
A criação do website do Acervo HBC – produto cultural final deste projeto – teve como princípio uma navegação simples e rápida. Por se tratar de um banco de dados com milhares de itens – envolvendo diversas personalidades artísticas, épocas distintas, enfim, um conteúdo abrangente –, o ponto de partida foi montar um sistema de busca refinado. O visitante do acervo virtual de Hermínio pode simplesmente “passear” pelas inúmeras seções (poesia, áudio, fotos etc.) ou então, caso seja necessário, optar por uma busca detalhada por data e/ou assunto e/ou palavra-chave. Por exemplo, é possível saber quais itens citam a cantora Clementina de Jesus no ano de 1965. Ou então, em quantos arquivos de áudio temos a voz de Elizeth Cardoso.
O Acervo HBC está registrado na internet sob dois endereços (domínios), ambos direcionando o visitante à página do projeto: www.acervohbc.com.br e www.herminiobellodecarvalho.com.br.

Blog do acervo
Durante o processo de montagem do site, foi incorporada a criação do Blog do Acervo, idéia que não estava contemplada na proposta deste projeto. O espaço, localizado na lateral direita da página inicial do site, comportando texto e imagem, será abastecido regularmente com novidades referentes ao próprio acervo. Por meio de blog, o visitante do arquivo virtual ficará informado das atualizações à medida que novos itens forem acrescentados ao acervo.


ACERVO HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO
2ª FASE – Doação MIS, Manutenção e Digitalização


O objetivo da ação é evitar que os itens e objetos originais, atualmente acomodados em sua residência, sejam preservados adequadamente e possam ser consultados por mais pessoas.
Por acompanhar as atividades do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro desde que foi fundado (tendo, inclusive, participado de momentos marcantes da instituição), Hermínio tem apreço especial pela casa. Entusiasmado as mudanças planejadas para o MIS, ele oferece ao local a parte de seu arquivo que já foi catalogada e digitalizada pelo Projeto Acervo HBC. Em contrapartida, a instituição contribuiria com apoio para a realização da 2ª Fase do Projeto, que, ao ser finalizada, entregaria (em doação) ao MIS mais itens do arquivo de Hermínio.


O ACERVO
O acervo de Hermínio Bello de Carvalho é um patrimônio que inclui:

1) Áudio – Gravações contendo registros exclusivos e informais, porém de boa qualidade sonora, de apresentações musicais (shows ou ensaios caseiros), depoimentos, conversas e entrevistas de centenas de personagens da música popular brasileira. Alguns exemplos de gravações inéditas:

- Gravação feita na casa de Hermínio Bello de Carvalho com Paulinho da Viola apresentando o samba “Na Linha do Mar” a Clementina de Jesus;
- Depoimentos de Donga e Pixinguinha a Hermínio;
- Dalva de Oliveira canta acompanhada por Hermínio ao violão;
- João Bosco mostra a então inédita “Kid Cavaquinho” para a cantora Marlene, em encontro na casa de Hermínio;
- O compositor Cartola apresenta o samba “Autonomia” para Elizeth Cardoso;
- Aracy de Almeida canta o samba “Filosofia” (Noel Rosa) acompanhada por Nicanor Teixeira ao violão;
- Tom Jobim mostra para Hermínio, em primeira mão, a musica “Inútil Paisagem” (com Aloísio de Oliveira);

2) Iconografia – Além de fotos que documentam a história pessoal e profissional de Hermínio, com registros de centenas de personalidades artísticas nacionais e internacionais, com as quais ele conviveu e/ou trabalhou (Clementina de Jesus, Elizeth Cardoso, Nellie Lutcher, Sarah Vaughan etc.), o acervo ainda reúne desenhos, caricaturas e quadros assinados por nomes expressivos das artes plásticas, como Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres, Walter Wendhausen, Luiz Canabrava, Nássara, Cássio Loredano, Chico e Paulo Caruso, Hermenegildo Sábat, e Mello Menezes, entre outros.

3) Texto
3.a) Poesia – Obra poética completa de Hermínio Bello de Carvallho, com textos já publicados em livros, inéditos e manuscritos originais;
3.b) Cancioneiro – Obra musical completa de Hermínio, com as letras (editadas e inéditas) que ele produziu para os mais diversos parceiros: Cartola, Mauricio Tapajós, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Radamés Gnattali, Jacob do Bandolim, Heitor Villa-Lobos, Eduardo Gudin, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Sueli Costa, Dona Ivone Lara e dezenas de outros;
3.c) Crônicas, ensaios e material jornalístico – Textos (editados e inéditos) escritos por Hermínio Bello de Carvalho, nos últimos 50 anos, a maior parte publivados nos quase 15 livros que tem editados e colaborações para a imprensa desde 1951 (“Revista da Música Popular”, “Leitura”, “Rádio Entrevista”, “O Globo”, “Pasquim” e outros);
3.d) Correspondência – Cartas, bilhetes, e-mails e cartões postais (quase todos inéditos) trocados com personagens como Carlos Drummond de Andrade, Laurindo de Almeida, Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, Oscar Niemeyer, Elizeth Cardoso, Isaurinha Garcia, Waldemar Henrique, Cacaso, Carlos Cachaça, Luiz Bonfá, Joyce etc;

4) Discoteca - A discoteca atual de Hermínio Bello de Carvalho contem, aproximadamente, 4.500 (quatro mil e quinhentos) exemplares (em 10 e 12”). Segundo estimativa feita por Jairo Severiano, ela abrigava aproximadamente 7.000 exemplares. Ela abrange, sem preconceitos, todas as gamas da produção discográfica brasileira. A coleção referente a Villa-Lobos e outros autores clássicos, foram sendo doadas por absoluta falta de espaço. A que agregava discos de 78rpm, e adquirida de Walter Wendhausen, foi doada ao modinheiro Paulo Tapajós possivelmente na década de 60/70.

Nesta nova fase do projeto, o site do Acervo HBC será ampliado da seguinte maneira:

a) Catalogação e digitalização de mais 10 mil itens do arquivo pessoal de Hermínio Bello de Carvalho, sendo 235 horas de áudio, 200 imagens, 50 poemas, 50 letras de música, 50 crônicas e ensaios, 30 entrevistas, 100 itens de correspondência, 5 mil recortes jornalísticos, 400 itens de coleção e 2 mil páginas de roteiros e rascunhos de projetos de espetáculos e discos;

b) Criação de um canal de vídeos, por meio do qual o site veiculará, semanalmente, programas inéditos de média duração. Com apresentação do próprio Hermínio, os vídeos exibirão os itens do arquivo, explicando o contexto, as histórias e revelando curiosidades. As gravações serão feitas na casa do compositor ou em locações da cidade do Rio de Janeiro relacionadas ao tema a ser tratado no vídeo. Pretende-se, por exemplo, produzir um programa sobre o restaurante Zicartola, cuja fundação foi acompanhada por Hermínio, padrinho de casamento de Zica e Cartola A edição dessa gravação usará fotos, áudios e material jornalístico da época do Zicartola pertencentes ao Acervo HBC. Além disso, o canal de vídeos também oferecerá programas-entrevista em que Hermínio conversará com personagens ao seu trabalho como compositor, produtor e poeta. Por exemplo, um papo com Paulinho da Viola a respeito da parceria de ambos; uma conversa com Turíbio Santos sobre a obra de Heitor Villa-Lobos; entrevistas com Simone, Zélia Duncan, Chico Buarque etc.;

c) Construção de um blog. Hermínio é um pensador da cultura brasileira e, diariamente, produz textos (poemas, crônicas, artigos) referentes aos mais diversos temas. Um blog integrado ao site do Acervo HBC será responsável por divulgar, através de comentários críticos, este vasto material inédito, ampliando o contato com os visitantes da página e abrindo um fórum de discussão. O espaço, localizado na lateral direita da página inicial do site, comportando texto e imagem, será abastecido diariamente. Também por meio do blog, o visitante do arquivo será informado das atualizações à medida que novos itens forem acrescentados ao acervo;

d) Atualização das ferramentas multimídia do site, a partir da renovação do gerenciador de busca, da atualização do design e do gerenciador de conteúdos, e ainda a utilização de uma ferramenta para divulgação do blog e das novidades do site por meio de um consciente e responsável mailing. O portal também será conectado às redes sociais. Assim, cada vez que um item for acrescentado ao site, os internautas que acompanham o projeto no Facebook ou Twitter ficarão informados instantaneamente.

ACERVO HBC – NOVA FASE

Categoria / Previsão de itens a serem organizados/catalogados

Áudio = 235 horas
Iconografia = 200 imagens
Poesia = 50 textos
Cancioneiro = 50 textos
Crônicas e ensaios = 50 textos
Entrevistas = 30 textos
Correspondência = 100 itens
Material Jornalístico = 5.000 itens
Rádio e Televisão = Todo material disponível está digitalizado
Coleção = 400 itens
Roteiros/projetos de espetáculos/discos = 2.000 itens

***
Responsáveis pelo projeto Acervo Hermínio Bello de Carvalho
Alexandre Pavan – Coordenador geral
Luiz Ribeiro – Técnico em áudio e coordenador-assistente
Luiz Boal – Coordenador Administrativo
Jacira Berlinck e Tatiana Maciel – Catalogação e acervo

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sete segundos

Apenas um átimo de sete segundos é o que resta da imagem de Jacob do Bandolim em nossos acervos áudiovisuais.

E lá está ele, à porta de sua casa em Jacarepaguá, em pé, dando uma entrevista cujo teor ignoramos. É que a cena foi recuperada por algum colecionador de imagens, mas à maneira do cinema mudo.

Jacob sem bandolim. Jacob sem voz. Não encontramos nenhuma imagem de Jacob tocando seu mágico bandolim.


Vamos dar nomes à essa ignomínia: descaso e incompetência.

Ainda que não sonorizada, quanto vale essa imagem de Jacob? Quanto valeria alguns minutos dele tocando sua própria obra, ou as de seu autor favorito, Pixinguinha?

Quanto vale aquele encontro “Entre Amigos”, com Jota Efegê reunido a seus comparsas na vida cultural: Carlos Drummond de Andrade, Nássara, Álvarus e, modestamente, o que ora digita estas notas. A escolha dos convidados, que se esclareça logo, foi imposição do próprio Jota.

Querem discutir política cultural, deixando de lado os problemas que ameaçam as emissoras ditas educativas e culturais? Dando nome aos bois: TV Brasil (ex-TVE) e TV Cultura. As duas estão encurraladas pelo desprezo que lhes devotam nossos dirigentes políticos.

Sim, é uma falácia – uma falácia atroz.

A TV Globo se dá ao luxo de criar um novo canal apenas para bisar e reprisar suas novelas e alguns de seus programas mais famosos, como a excelente Escolinha do Professor Raimundo. E bate recordes de audiência. Apesar do incêndio que devastou seus arquivos, muita coisa foi salva através de uma inteligente política de aplicação de recursos na preservação de seus acervos. Tudo bem, não temos a bela imagem de Pixinga ao piano e Tom Jobim na flauta, solando o “Carinhoso”. Eu tenho apenas o áudio, que gravei com um aparelhinho furreca, colado à tela do meu televisor de mínimas polegadas, quando passou o programa que registrou aquele mágico encontro, aliás narrado pela Elis Regina e Paulo Gracindo. Ao fundo, Albino Pinheiro, promotor do encontro. Grande Albino.  


Ando me queixando sempre das mesmas coisas, não é? Pois vou agora ampliar meus queixumes, indo direto ao centro da questão.

Sou ligado às raízes da Escola Portátil de Música, assim como ao Instituto Jacob do Bandolim. Ministrei uma oficina naquele mágico e sonoroso colégio que agrega mais de 800 jovens alunos e tem uma penca de professores de primeira linha. Cito alguns: Mauricio Carrilho, Cristovão Bastos, Luciana Rabello, Paulo (do quarteto Maogani) e Pedro Aragão, além de minha querida Bia Paes Leme – a quem costumo me referir como um espécime equivalente à professora Cleonice Bernardinelli, a Divina Cleo, a maior autoridade em Fernando Pessoa.

Naquela oficina (“de coisas”, como a chamei) eu trabalhava ancorado em dois eixos, estranhezas e conexões. Não vou explicar a teoria desse método, simplesmente porque ele só existe na prática. Mas a emoção que despertava na garotada ser apresentada ao clarinete de Abel Ferreira, à flauta de Mestre Copinha, ao universo grandioso de Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, ao quinteto de Radamés Gnattali e à extinta Camerata Carioca, nascida em 1979, nas comemorações dos 10 anos de desaparecimento de Jacob do Bandolim. Hoje muita coisa está no YouTube ou no Google.

Desde aquela época, há quase dez anos, nunca pude mostrar um dos programas mais importantes que produzi e apresentei na ex-TVE, um “Água Viva” de 1977, com a pianeira Tia Amélia do Jaboatão, tocando ao lado do então nascente grupo de choro Os Carioquinhas. Vamos lá encontrar Mauricio Carrilho, Luciana Rabello, além de um menino de14 anos chamado Raphael Rabello (1962-1995). Era um prenúncio da Escola Portátil.

Quanto valeria esse programa? Quanto você pagaria para ser apresentado àquele momento de absoluta magia? E, pergunta principal, porque não reprisam aquele “Água Viva” (e tantos outros, que eternizaram encontros igualmente importantes?).

Gustavo Gruta, guardem esse nome que afetivamente chancelamos apenas como Gruta e que, segundo ele, de alguma forma iniciou sua carreira de diretor teatral com o espetáculo “Onomatopéia Não é Palavrão”, que está finalizando temporada no Centro Cultural Banco do Brasil. O “Onomatopéia” nasceu de um concurso de monografias instituído pela Oficina de Coisas, e que resultou na edição de um livrinho (ou opúsculo, se preferirem). Mas que prefiro mesmo chamar de resíduo cultural, porque um programa ou evento que não gere um resíduo (livro, um programa, vídeo etc.) não se eterniza. E o nosso Gruta quer fazer um evento comemorativo dos 10 anos da Escola Portátil de música, da qual é aluno de canto da professora Amélia Rabello (não por acaso, irmã de Raphael) – e dei-lhe a sugestão de procurar uma cópia daquele “Água Viva”. Juntando aquelas imagens a outras – em que surge a Camerata Carioca acompanhando Radamés, Caymmi, Elizeth –, ele teria um belo perfil de alguns professores responsáveis pela Escola.

E aí surgiram os óbices. A fita existe, está engavetada e nunca foi recuperada, apesar dos recur$os que a Petrobrás teria disponibilizado para os trabalhos de recuperação técnica do preciosíssimo acervo da ex-TVE.

Os subsídios colhidos abaixo dizem bem da situação daqueles acervos. A TVE alega que não tem máquina Quadruplex para rodar aquelas fitas, enquanto a TV Cultura – embora ameaçada por José Serra de desaparecer do mapa – parece cuidar melhor de seus acervos. A existência ou não de máquinas Quadruplex e U-matic está mais explicitada nos subsídios que agrego a esta crônica um tanto indignada. 

Finalizo dando uma colaboração, porque minha natureza é propositiva: que a TVE faça um convênio com algumas das emissoras que ainda possuem Quadruplex e recupere as fitas que estão apodrecendo em seus armários, “devolvidas ao anonimato”, como gosto de enfatizar.

Para isso é necessário vontade política e competência administrativa. Conveniar com quem possui essas geringonças. Em nome da salvação da chamada Memória Nacional, essa desmiolada senhora que, volta e meia, é lembrada às esperas das eleições.

Temos aí um novo governo eleito pelo povo. Essa questão nunca foi discutida nos debates a que assisti. Cultura, matéria secundária. Memória Nacional, que bobagem!

Lembro que mandei uma carta para o Lula, tão logo ele foi eleito. Não tiraria uma virgula, se a reenviasse (1)  para a presidente Dilma. Ou presidenta, como ela parece preferir . No Eça de Queiroz encontramos “generala”.  Não faz muita diferença, desde que ela cumpra suas promessas.

Sergio Cabral pai e eu somos Conselheiros Master do Museu da Imagem e do Som. Faço aqui um desafio ao jornalista e pesquisador Hugo Sukman, que responde pela Fundação Roberto Marinho, patrocinadora do magnífico prédio que abrigará o novo MIS. Mesmo apelo à Rosa Maria Araújo, diretora do MIS. Igual apelo ao governador Sergio Cabral, unha-e-cuticula como o (ainda) presidente Lula. Presidente, dê uma cochichada no ouvido do ministro Franklin Martins, para que libere esses trabalhos que poderiam ser conveniados com a Globo ou com quem mais tivesse as tais Quadruplex.

Bem, acabo de cumprir meu papel nessa discussão com a pergunta renitente. Quanto vale um minuto de Pixinguinha, Jacob, Aracy de Almeida, Abel, Copinha, dos Carioquinhas, da Camerata acompanhando Radamés e Elizeth? 

Não contrataram mestres-calceteiros lusitanos para recuperar nossas pedrinhas portuguesas, quase todas desniveladas em todos os cantos da cidade? Não precisamos mandar essas fitas lá para fora. Conveniar, essa a solução. 

Leiam os subsídios abaixo, e tirem suas conclusões.

Em 6 de novembro de 2010 22:06, Gustavo Guenzburger (Gruta) escreveu:

Oi Hermínio,

Parece que aquela lista que você me mandou das fitas já recuperadas inclui grande parte do acervo em U-matic. A parte em Quadruplex é que está totalmente parada, esperando outro patrocínio. Muito louco este esquema cultural atual, onde para recuperar um patrimônio público, uma empresa estatal como a TVE tem que submeter um projeto a uma empresa de capital particular ou misto, para usar um dinheiro que é 100% estatal, que é a grana via lei Rouanet. Com a mudança da Lei (que está sendo negociada há 4 anos e agora deve sair), espero que isto mude, que esta via seja mais direta. Já que o dinheiro é do governo, devíamos poder pedir diretamente ao governo, de maneira pública e transparente. Um dia será assim. Vamos torcer para que nossas fitas, rolos, filmes jornais, fotos, revistas, etc não apodreçam antes disso.

Abraço, 
Gruta

Do Celso Taddei, texto que por si só explica suas boas intenções :

Olá, amigos, com licença, boa noite.  (Hermínio, só pra explicar minha invasão repentina em meio a seus imeios: quem lhes escreve é o Celso Taddei, que trabalha com o Gruta no projeto da EPM – aliás, é um grande prazer falar, mesmo eletronicamente, com você!)  Bom, ocorre que consegui algumas informações – não muito animadoras, sinto dizer - a respeito da recuperação das nossa fitas. Até onde eu soube, existem apenas duas máquinas leitoras de quadruplex no Brasil . Uma é da Cultura e a outra é da Globo. Até o Arquivo Nacional, quando assume projetos para digitalizar filmes desse formato (como fez recentemente com o acervo da TV Tupi) busca parceria com uma dessas duas empresas. Assim, as máquinas são bastante solicitadas e costumam estar sempre ocupadas. Mas o maior problema é o custo. Como se trata de material antigo – e em geral maltratado pelo tempo e pelo armazenamento descuidado – antes de ser colocada na máquina, uma fita quadruplex precisa passar por todo um processo de limpeza e higienização. Ou seja: requer mão de obra especializada, mais algum equipamento, um ou outro material, e verba, verba e mais verba. Como eu disse, essas foram apenas as primeiras informações que levantei com gente que trabalha na área. Hà chance de não estarem corretas, da coisa ser mais simples, de existirem outras máquinas (lembrei, por exemplo, do Instituto Moreira Salles – escrevi pra Bia (Paes Leme)  e estou no aguardo...)  Vou continuar assuntando e entrar em contato com o setor de digitalização lá da Globo. Qualquer (boa) novidade, grito. Por enquanto, infelizmente, é isso. Não há nada perdido, mas parece que a briga vai ser boa. Fortes abraços - e vamos em frente!
Celso

 Vamos a um e-meio enviado por mim para o Gruta :

Sent: Saturday, November 06, 2010 6:47 PM
Subject: Re: Fw: Carioquinhas e Tia Amélia do Jaboatão - Água Viva na TVE - 1977

Meu Gruta,

A Globo tem uma Quadruplex, e parece que a TV Cultura tb. Talvez a Record, quem sabe?

O que me deixa muito triste é essa informação enganosa que a ex TVE vem passando para a imprensa, de que seu acervo está sendo recuperado.

Claro que, se houvesse disposição política, essa situação já teria sido resolvida. Até porque, se existem recursos, por que não terceirizar essa recuperação? Quanto vale um minuto de Pixinguinha, de Tom Jobim, de Clementina, de Carlos Drummond de Andrade?

A TVE remunera mal seus funcionários, e sua grade de programação está empobrecida.O que o Ministério das Comunicações quer mais? Já falam na extinção da Tv Cultura.

Parte do acervo que consegui preservar, penso que teria melhor destino o You Tube ou a Google. Melhor do que deixar apodrecer a memória, engavetá-la.

Em qualquer país civilizado do mundo, surgiriam mecenas com grana para buscar as máquinas lá fora (elas existem, sim). Ou então fazer um convênio com quem as possui. O certo é que parte do acervo está em Umatic, e outra em Quadruplex.
  
Um abraço do velho

Herminio

domingo, 26 de setembro de 2010

Meu voto vai para o Buraco Quente

Era um hábito: pegar o carro e levar meus amigos ao Buraco Quente, na Mangueira. Antes, passava pelas casas de Cartola e Zica, de Neuma e também na de Carlos Cachaça e Menininha, arregimentava aqueles amigos e íamos nos fartar de alegria na Birosca da Efigência do Balbino, no Buraco Quente.

Há uns anos (mais de 10 e menos de 15) um amigo meu me fez cumprir a promessa de levá-lo a um lugar que, por minha causa, povoava seu imaginário. Passei pela casa de Neuma e tentei convencê-la a nos acompanhar naquela visita. Ela relutou, melhor seria pedir umas cervejas e ficar por ali mesmo, e achei estranho. Mas, enfim, sou tinhoso quando boto uma idéia na cabeça, e acabei enlaçando minha amiga e lá estamos nós três bebendo uma geladinha. Eis que olho para meu amigo e o vejo com os olhos esbugalhados. Foi quando me dei conta da meninada que passava com armas ensarilhadas, uma juventude dominada pelo tráfico, e aí entendi a relutância de Neuma em nos acompanhar. Ela apenas sussurrou para meu amigo Alecir: “meu filho, finja que não está vendo”.

O mesmo hábito eu guardava para amigos de fora: levá-los para conhecer a casinha de vila que habitei na infância. Subia pela Hermenegildo de Barros, ia direto pra rua Aarão Reis e embicava o carro pro Beco Ocidental. Era o menino que voltava ao seu parque de diversões. Em frente, numa imponência cheia de estranhezas, ficava um então sossegado Morro da Coroa. Há pouco tempo, naquelas imediações, meu amigo, o teatrólogo Vicente Maiolino, foi brutalmente assassinado. 

Fui envelhecendo, perdendo meus amigos queridos, e nunca mais voltei à minha Escola de coração: aquela que, vista do alto, mais parecia um céu no chão, ele coberto de esmeraldas.  Alvorada lá no morro, que beleza!? Nunca mais.

Meus 75 anos de vida eu os passei no Rio de Janeiro, e nunca sonhei em sair daqui. Tenho uma amiga querida que foi obrigada a sair de sua casa, nas imediações da Mangueira, porque sua rua foi tomada pelo tráfico. Ela, com filho pequeno, não quis se arriscar.

Moro num bairro relativamente  tranqüilo, onde me dedico a plantar lírios-da-paz nos canteiros mal tratados pela prefeitura e a advertir aqueles que insistem em não recolher as fezes de seus cachorros, indiferentes aos deficientes físicos que transitam por ali. Algumas pessoas ainda estranham em ver aquele idoso catando lixo nos canteiros. Mas  acabam aderindo à iniciativa.
 Integrantes da Escola Portátil de Música

Ontem fui me encontrar com o pessoal da Escola Portátil de Música na Taberna da Glória, que foi meu refúgio nas décadas de 50 a 70. Naquela época morava na Beco do Rio, hoje extinta, que ficava a poucos metros da antiga Taberna onde bebi com Araci de Almeida e Ismael Silva, e onde Mário de Andrade se encontrava com a fina flor da inteligência carioca – inclusive a própria Araca.  

A Escola Portátil e o Instituto Jacob do Bandolim estão comemorando dez anos de existência! De alguma forma, muitíssimo modesta, estimulei meus amigos a concretizarem seus sonhos. Tive o cargo de conselheiro naquelas duas casas e me afastei quando fui nomeado para o Conselho Estadual de Cultura – então presidido por minha querida amiga Ana Arruda Callado. Me demiti do Conselho quando vi que um manifesto que assináramos não tivera a menor ressonância na imprensa do país. Protestávamos contra a ausência de uma política cultural por parte de um ministério que desde a ascenção do Fernando Collor perdera sua expressividade. 

Tenho acompanhado as ações das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), voltadas  para algumas comunidades dominadas pelo tráfico. Os resultados são claros na maioria delas: não ver aquela multidão de trabalhadores afrontada por armamentos bélicos,  saber que equipamentos culturais e sociais estão sendo montados com o objetivo de resgatar o direito de cidadania conspurcado pelas milícias – a tudo isso some-se a alegria de ver que nossa Escola Portátil de Música (800 jovens que estudam, discutem e tocam Pixinguinha, Anacleto, Tom Jobim) ganhou enfim uma sede. Ela fica na rua da Carioca, perto da Praça Tiradentes.

Num voto de confiança ao Governo do Estado que busca um segundo mandato, estou doando todo meu acervo ao novo Museu da Imagem e do Som (MIS). Espero que, no próximo mandato, seja dada mais atenção aos bordões que vivo apregoando por aí – a cultura tem que circular. Há que reabrir as portas do Teatro João Caetano para um projeto similar ao Seis e Meia, criado por Albino Pinheiro. Que o futuro Ministério da Cultura saia de sua letargia e abra o mercado de trabalho para os músicos brasileiros, recolocando na estrada o (criminosa e covardemente) extinto Projeto Pixinguinha. Há que levar para essas UPPs as tantas jovens orquestras (Furiosa Portátil, Leviana, Imperial) que estão soltas por aí. Aliás, um passo já foi dado pela Secretaria de Cultura: jovens professores da Escola Portátil estão atuando em Manguinhos. Meu voto para governador vai para Sérgio Cabral.
 
 Senadora Marina Silva

Meu voto para presidente vai para Marina Silva, embora saiba que o cargo será ocupado por outra mulher, de quem espero um olhar mais incisivo para a educação e a cultura, tão maltratados nesses últimos anos. Concordemos que com estomago vazio ninguém consegue ir à escola. Estratificada uma política que não seja meramente assistencial, que se dê ao povo o direito de exercer sua cidadania, a de ser um brasileiro sem medo de ir aos lugares que povoaram sua infância e juventude, e que muitas escolas portáteis ( que são verdadeiras UPPs culturais) proliferem pelo país afora.

Antes de terminar, uma denúncia: querem acabar com a TV Cultura, ou reduzi-la à mesma desimportância da ex-TVE, hoje TV Brasil. 

Em tempo: não exerço nenhum cargo público, vivo da minha aposentadoria e de meus parcos direitos autorais.

Sim, há que lembrar: a heróica Amar-Sombrás está fazendo 30 anos de existência. Que saudades de Mauricio Tapajós!

E que São Pixinguinha nos inspire e proteja na hora de votar.

Hermínio Bello de Carvalho 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Duas cabeças brancas e encaracoladas

O texto que vai abaixo eu o havia destinado ao Conselho Estadual de Cultura, mas também para atender à exigência de manutenção do Acervo HBC.

O grande perigo é que hoje, dia 02 de fevereiro (“dia de festa no mar”, segundo Caymmi, “pra saudar Yemanjá”) o meu balaio já está transbordando de novidades. Exemplos: convite para ser “hóspede”, no mês de março, do Centro de Referência de Música Carioca – carinhosa homenagem formulada por Mario Sève, que dirige a casa; e que passei a integrar, com Sérgio Cabral e Jairo Severiano, e na condição de Consultores Masters, a comissão que vai propor uma formulação de políticas para a nova sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em Copacabana. A indicação foi de Hugo Sukman, da Fundação Roberto Marinho. O Museu, como se sabe, é presidido por Rosa Maria Araujo, que tem Ana de Hollanda como vice. Vamos deixar esses assuntos pra depois?

Vamos, pois, ao texto destinado ao Conselho de Cultura:

São duas cabeças de penugens brancas e encaracoladas, com sonhos e utopias em consonância há mais de 40 anos. Esse par de jarras setentonas, com superfície craquelada e rugosa, tem, em comum, um enormíssimo amor pela Cidade do Rio de Janeiro, cujo Conselho estadual de Cultura integram com alguma bizarrice – já que às vezes falam pelos cotovelos, fazendo uma algaravia que seria mais adequada num parque de diversões, e primam às vezes pela aparente falta de objetividade. É claro que estou falando de mim e de meu querido Ziraldo, ele impecável nos seus coletes menos estilosos do que os do Ministro do Meio-Ambiente, eu em desarmonia total nesse quesito elegância. Volta e meia outro companheiro querido, Cacá Diegues, nos coloca a pecha de reclamões incapazes de ver coisas boas em sua volta. Somos, talvez, o oposto da antropóloga Lélia Coelho Frota que, por sinal, apresentou um magnífico texto, exaltando as boas coisas que, felizmente, ainda acontecem na área cultural. Interpretei, a princípio, como uma contestação ao quase manifesto, queixoso e contundente, trazido por Ziraldo para o nosso Conselho. A leitura do texto de Lélia desconstrói minha precipitada interpretação.

Meu querido cartunista se ressente de um plano de cultura de âmbito nacional, igual àquele que existia quando presidiu a Funarte – e pede meu testemunho e o do Maestro Edino Krieger. Somos remanescentes daquela instituição, que jorrava programas e projetos culturais que ganhavam ressonância de extremo a outro do país – sem dirigismos, respeitando as diversidades regionais, fazendo uma política de integração e, sobretudo, de circulação dos bens culturais. Mas, que paradoxo! a Funarte nascia na mesma época que sinalizava a agonia da ditadura instalada em 1964, processo que o assassinato de Vladimir Herzog fizera acelerar.

“Podíamos propor uma Ouvidoria à Secretária de Cultura Estadual Adriana Rattes”, sugere Ziraldo – já que somos apenas um conselho meramente opinativo, sem poder decisório. E volto para minha casa pensando como agiria um Ouvidor, indivíduo que, vivendo dentro do sistema, tem como ofício coletar críticas e sugestões do contribuinte e levá-las ao poder maior, cobrando-lhe soluções e providências.

Sem querer atirar um balde de água fria em teu manifesto, meu Ziraldo, aconselho: não inventemos a roda. O que estamos fartos de saber é que só um sistema harmônico, funcionando sem as habituais mazelas da política mais rastaquera, pode resolver a situação.

Vamos, por enquanto, ficar na região mais rica de monumentos patrimoniais, que é o Centro da cidade – primeiro objeto de nossa preocupação. Estão ali o Palácio da Cultura, a Escola Nacional de Belas Artes, o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Arte Moderna, a Sala Cecília Meirelles e um raro conjunto de prédios centenários (como o Paço Imperial) e outros, mais recentes (como é o caso do CCBB) , convertidos em espaços culturais – como poderia ser o magnífico auditório da agora centenária ABI (Associação Brasileira de Imprensa), o melhor em acústica do Rio de Janeiro. Sim, existe ainda a Escola Nacional de Música, com sua original parede cega que hospeda um painel monumental – e aquela fieira de cinemas desativados.

Nosso querido Albino Pinheiro disse que tínhamos que olhar o centro da cidade – e citava especificamente a Cinelândia como um grande lago, onde se atira uma pedra, e ela vai provocando círculos concêntricos que alcançam os Arcos da Lapa até as Praças Tiradentes e a 15 de Novembro e, queira ou não, a Praça da República. As periferias do Centro da Cidade foram anavalhadas pelo progresso, mas podemos ver um bom exemplo na recuperação da Rua Lavradio e, opostamente, a extinção da Cinelândia como pólo irradiador das artes cinematográficas. E, abençoando o fim (ou o início) do centro da cidade, a Baía de Guanabara e seu monumental aterro, com o Pão de Açúcar de um lado e o Cristo Redentor do outro, formando uma das mais belas paisagens deste planeta. Sim, faltou citar o MAM e outros museus espalhados por ali.

Acontece que esse universo não tem apenas um comando, mas obedece a vários segmentos do poder: o federal, o estadual, o municipal – e quase todos amparados por um leque de burocracias infernais.

E é aí, companheiro, que vamos cair no mar das obviedades: estamos carequíssimos de saber que nossa cidade, ou qualquer cidade do mundo, só terá jeito se a gente conseguir unir esses poderes, aconselhando-os a agir integradamente, acima das vaidades e dos objetivos pessoais de cada um. Caso contrário, toda a beleza arquitetônica do Centro da Cidade deixa de ter existência ao anoitecer. É quando a cidade fica mal policiada e às escuras, sujeita a todos tipo de vandalismo – inclusive a dos pichadores com suas assinaturas caricaturais, que não podem e nem devem ser confundidos com alguns poucos e talentosos grafiteiros que fazem os muros da cidade dialogar com a população.

Antes de ontem, dia de São Sebastião, saí para uma ronda noturna pela velha Lapa, depois de celebrar o noventenário do Cordão da Bola Preta, que acaba de ganhar uma nova sede – e na Lavradio. Minha querida Lapa, onde há pouco assassinaram um jovem, numa seqüência de agressões que o noticiário nos dá conta com fartura, estava às moscas. E suja, como sempre. Fui para embasar as sugestões que faço adiante.

Nossa intenção é colaborar com a secretaria de Cultura, certo? Vamos, pois, girar a roda, mas sem a pretensão de a estarmos inventando:

– Ordenar o centro da cidade através de uma iluminação decente, que dê relevo a esses bens patrimoniais físicos. Passe ali pelo Jardim da Glória à noite, que está com uma nova e exuberante iluminação. Mas a praça ao lado está às escuras, porque os moradores de rua quebraram quase todas as velhas luminárias, deixando o lugar como espaço ideal para que possam praticar seus furtos, fumar crack e dormir à beira do monumento. Aí teria que haver uma ação integrada entre a Light e as forças de vigilância e a secretaria que cuida dos parques e jardins;

– Os serviços maravilhosos da Comlurb deveriam ser convocados para dar uma geral nessa cidade pichada e mal-cheirosa, com policiamento rotativo;

– Todo o entorno dos prédios monumentais já citados, todos eles plantados à beira da Cinelândia, deveria contar com viaturas específicas para uma ronda permanente, além das velhas duplas Cosme-e-Damião, numa ação conjugada entre o Departamento de Turismo e a Secretaria de Segurança. A Lapa (e os Arcos) ganhariam banheiros químicos e passariam por uma faxina geral, com ordenamento das desalinhadas calçadas de pedras portuguesas. Hoje elas exibem um pretume que vem das gorduras expelidas pelas carroças que atravancam as ruas, sem qualquer vigilância sanitária. Gradearam a Sala Cecília Meirelles, reação ao hotel a céu aberto dos desvalidos moradores de rua que ocuparam suas escadas-dormitório. E, ao lado, uma construção que tinha uma fachada monumental que valorizava o conjunto arquitetônico da Lapa, ameaça desabar;

– Todos esses serviços (luz, limpeza, ordenação urbana) deveriam permanentemente fazer parte da manutenção desses corredores culturais, num serviço rotativo (dia-e-noite) – e com sanções pesadas para os pichadores, que poluem o visual da cidade. (O SESC mantinha uma escola de jardinagem, destinada a jovens de rua, que depois seriam profissionalmente habilitados no cuidado dos jardins públicos. Onde estão esses serviços?).

Como vemos, meu Ziraldo, essa não é um ação que as Secretarias de Cultura possam levar adiante sozinhas.

A elas cabe, isso sim, fazer o que acabamos de constatar: a devolução do Teatro João Caetano aparelhado, o Municipal em breve abrindo suas portas.

E, a partir daí, cumpririam essas Secretarias sua função principal: tratar de uma política de ocupação desses espaços culturais (teatros, centros de cultura, lonas culturais), oferecendo programações alternativas com ingressos a baixo custo, como eram os projetos Pixinguinha e Seis e Meia (de Albino Pinheiro). Abrir esses espaços também aos sábados e domingos, permitindo à população ocupar o centro da cidade – porém limpa e iluminada e vigiada, devolvendo uma alegria que o carioca sempre teve para oferecer.

***

Nos restringimos a dar sugestões para Centro da cidade! E o resto do Rio de Janeiro, meu Ziraldo? Falamos apenas de um cantinho lindo do Rio de Janeiro, mas há todo um leque de atividades de bairros, expontâneas, que necessitam apenas do apoio dos serviços públicos, e não da interferência do Estado. Espero que, daqui a pouco, nossos blocos de rua não estejam, a exemplo da Bahia, comercializando esses crachás que atendem pelo nome de abadás, que garantem a segurança dos que conseguiram adquiri-los para desfilar atrás dos trios elétricos – um direito que, antes, era garantido ao povo, e a quem o Estado só deveria garantir livre e segura circulação.

Como se vê, meu Ziraldo, só falamos de coisas óbvias, de sugestões que já foram centenas de vezes repetidas, e milhares de vezes ignoradas. Quando a professora Lélia Coelho Frota citou o biólogo Mário Moscateli, imediatamente lembrei de uma ação, essa absolutamente anônima, de um ambientalista chamado Zé Luiz do Manguezal, que opera (sem recursos oficiais) na colônia Z-10 de Pescadores do Jequiá, e que replantou milhares de mudas de mangue sapateiro. Os manguezais, sabemos, são oxigenadores de nossas águas, viveiros de peixes e caranguejos. Como diz o Zé Luiz, são “supermercados e farmácias naturais”.

Concluindo: não inventamos nenhuma roda. Sugerimos obviedades. Tomara que os poderes (federais, estaduais e municipais) não façam ouvidos cegos e olhos mudos e se dêem as mãos. Coisa que, aliás, há muito tempo não faziam.