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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sete segundos

Apenas um átimo de sete segundos é o que resta da imagem de Jacob do Bandolim em nossos acervos áudiovisuais.

E lá está ele, à porta de sua casa em Jacarepaguá, em pé, dando uma entrevista cujo teor ignoramos. É que a cena foi recuperada por algum colecionador de imagens, mas à maneira do cinema mudo.

Jacob sem bandolim. Jacob sem voz. Não encontramos nenhuma imagem de Jacob tocando seu mágico bandolim.


Vamos dar nomes à essa ignomínia: descaso e incompetência.

Ainda que não sonorizada, quanto vale essa imagem de Jacob? Quanto valeria alguns minutos dele tocando sua própria obra, ou as de seu autor favorito, Pixinguinha?

Quanto vale aquele encontro “Entre Amigos”, com Jota Efegê reunido a seus comparsas na vida cultural: Carlos Drummond de Andrade, Nássara, Álvarus e, modestamente, o que ora digita estas notas. A escolha dos convidados, que se esclareça logo, foi imposição do próprio Jota.

Querem discutir política cultural, deixando de lado os problemas que ameaçam as emissoras ditas educativas e culturais? Dando nome aos bois: TV Brasil (ex-TVE) e TV Cultura. As duas estão encurraladas pelo desprezo que lhes devotam nossos dirigentes políticos.

Sim, é uma falácia – uma falácia atroz.

A TV Globo se dá ao luxo de criar um novo canal apenas para bisar e reprisar suas novelas e alguns de seus programas mais famosos, como a excelente Escolinha do Professor Raimundo. E bate recordes de audiência. Apesar do incêndio que devastou seus arquivos, muita coisa foi salva através de uma inteligente política de aplicação de recursos na preservação de seus acervos. Tudo bem, não temos a bela imagem de Pixinga ao piano e Tom Jobim na flauta, solando o “Carinhoso”. Eu tenho apenas o áudio, que gravei com um aparelhinho furreca, colado à tela do meu televisor de mínimas polegadas, quando passou o programa que registrou aquele mágico encontro, aliás narrado pela Elis Regina e Paulo Gracindo. Ao fundo, Albino Pinheiro, promotor do encontro. Grande Albino.  


Ando me queixando sempre das mesmas coisas, não é? Pois vou agora ampliar meus queixumes, indo direto ao centro da questão.

Sou ligado às raízes da Escola Portátil de Música, assim como ao Instituto Jacob do Bandolim. Ministrei uma oficina naquele mágico e sonoroso colégio que agrega mais de 800 jovens alunos e tem uma penca de professores de primeira linha. Cito alguns: Mauricio Carrilho, Cristovão Bastos, Luciana Rabello, Paulo (do quarteto Maogani) e Pedro Aragão, além de minha querida Bia Paes Leme – a quem costumo me referir como um espécime equivalente à professora Cleonice Bernardinelli, a Divina Cleo, a maior autoridade em Fernando Pessoa.

Naquela oficina (“de coisas”, como a chamei) eu trabalhava ancorado em dois eixos, estranhezas e conexões. Não vou explicar a teoria desse método, simplesmente porque ele só existe na prática. Mas a emoção que despertava na garotada ser apresentada ao clarinete de Abel Ferreira, à flauta de Mestre Copinha, ao universo grandioso de Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, ao quinteto de Radamés Gnattali e à extinta Camerata Carioca, nascida em 1979, nas comemorações dos 10 anos de desaparecimento de Jacob do Bandolim. Hoje muita coisa está no YouTube ou no Google.

Desde aquela época, há quase dez anos, nunca pude mostrar um dos programas mais importantes que produzi e apresentei na ex-TVE, um “Água Viva” de 1977, com a pianeira Tia Amélia do Jaboatão, tocando ao lado do então nascente grupo de choro Os Carioquinhas. Vamos lá encontrar Mauricio Carrilho, Luciana Rabello, além de um menino de14 anos chamado Raphael Rabello (1962-1995). Era um prenúncio da Escola Portátil.

Quanto valeria esse programa? Quanto você pagaria para ser apresentado àquele momento de absoluta magia? E, pergunta principal, porque não reprisam aquele “Água Viva” (e tantos outros, que eternizaram encontros igualmente importantes?).

Gustavo Gruta, guardem esse nome que afetivamente chancelamos apenas como Gruta e que, segundo ele, de alguma forma iniciou sua carreira de diretor teatral com o espetáculo “Onomatopéia Não é Palavrão”, que está finalizando temporada no Centro Cultural Banco do Brasil. O “Onomatopéia” nasceu de um concurso de monografias instituído pela Oficina de Coisas, e que resultou na edição de um livrinho (ou opúsculo, se preferirem). Mas que prefiro mesmo chamar de resíduo cultural, porque um programa ou evento que não gere um resíduo (livro, um programa, vídeo etc.) não se eterniza. E o nosso Gruta quer fazer um evento comemorativo dos 10 anos da Escola Portátil de música, da qual é aluno de canto da professora Amélia Rabello (não por acaso, irmã de Raphael) – e dei-lhe a sugestão de procurar uma cópia daquele “Água Viva”. Juntando aquelas imagens a outras – em que surge a Camerata Carioca acompanhando Radamés, Caymmi, Elizeth –, ele teria um belo perfil de alguns professores responsáveis pela Escola.

E aí surgiram os óbices. A fita existe, está engavetada e nunca foi recuperada, apesar dos recur$os que a Petrobrás teria disponibilizado para os trabalhos de recuperação técnica do preciosíssimo acervo da ex-TVE.

Os subsídios colhidos abaixo dizem bem da situação daqueles acervos. A TVE alega que não tem máquina Quadruplex para rodar aquelas fitas, enquanto a TV Cultura – embora ameaçada por José Serra de desaparecer do mapa – parece cuidar melhor de seus acervos. A existência ou não de máquinas Quadruplex e U-matic está mais explicitada nos subsídios que agrego a esta crônica um tanto indignada. 

Finalizo dando uma colaboração, porque minha natureza é propositiva: que a TVE faça um convênio com algumas das emissoras que ainda possuem Quadruplex e recupere as fitas que estão apodrecendo em seus armários, “devolvidas ao anonimato”, como gosto de enfatizar.

Para isso é necessário vontade política e competência administrativa. Conveniar com quem possui essas geringonças. Em nome da salvação da chamada Memória Nacional, essa desmiolada senhora que, volta e meia, é lembrada às esperas das eleições.

Temos aí um novo governo eleito pelo povo. Essa questão nunca foi discutida nos debates a que assisti. Cultura, matéria secundária. Memória Nacional, que bobagem!

Lembro que mandei uma carta para o Lula, tão logo ele foi eleito. Não tiraria uma virgula, se a reenviasse (1)  para a presidente Dilma. Ou presidenta, como ela parece preferir . No Eça de Queiroz encontramos “generala”.  Não faz muita diferença, desde que ela cumpra suas promessas.

Sergio Cabral pai e eu somos Conselheiros Master do Museu da Imagem e do Som. Faço aqui um desafio ao jornalista e pesquisador Hugo Sukman, que responde pela Fundação Roberto Marinho, patrocinadora do magnífico prédio que abrigará o novo MIS. Mesmo apelo à Rosa Maria Araújo, diretora do MIS. Igual apelo ao governador Sergio Cabral, unha-e-cuticula como o (ainda) presidente Lula. Presidente, dê uma cochichada no ouvido do ministro Franklin Martins, para que libere esses trabalhos que poderiam ser conveniados com a Globo ou com quem mais tivesse as tais Quadruplex.

Bem, acabo de cumprir meu papel nessa discussão com a pergunta renitente. Quanto vale um minuto de Pixinguinha, Jacob, Aracy de Almeida, Abel, Copinha, dos Carioquinhas, da Camerata acompanhando Radamés e Elizeth? 

Não contrataram mestres-calceteiros lusitanos para recuperar nossas pedrinhas portuguesas, quase todas desniveladas em todos os cantos da cidade? Não precisamos mandar essas fitas lá para fora. Conveniar, essa a solução. 

Leiam os subsídios abaixo, e tirem suas conclusões.

Em 6 de novembro de 2010 22:06, Gustavo Guenzburger (Gruta) escreveu:

Oi Hermínio,

Parece que aquela lista que você me mandou das fitas já recuperadas inclui grande parte do acervo em U-matic. A parte em Quadruplex é que está totalmente parada, esperando outro patrocínio. Muito louco este esquema cultural atual, onde para recuperar um patrimônio público, uma empresa estatal como a TVE tem que submeter um projeto a uma empresa de capital particular ou misto, para usar um dinheiro que é 100% estatal, que é a grana via lei Rouanet. Com a mudança da Lei (que está sendo negociada há 4 anos e agora deve sair), espero que isto mude, que esta via seja mais direta. Já que o dinheiro é do governo, devíamos poder pedir diretamente ao governo, de maneira pública e transparente. Um dia será assim. Vamos torcer para que nossas fitas, rolos, filmes jornais, fotos, revistas, etc não apodreçam antes disso.

Abraço, 
Gruta

Do Celso Taddei, texto que por si só explica suas boas intenções :

Olá, amigos, com licença, boa noite.  (Hermínio, só pra explicar minha invasão repentina em meio a seus imeios: quem lhes escreve é o Celso Taddei, que trabalha com o Gruta no projeto da EPM – aliás, é um grande prazer falar, mesmo eletronicamente, com você!)  Bom, ocorre que consegui algumas informações – não muito animadoras, sinto dizer - a respeito da recuperação das nossa fitas. Até onde eu soube, existem apenas duas máquinas leitoras de quadruplex no Brasil . Uma é da Cultura e a outra é da Globo. Até o Arquivo Nacional, quando assume projetos para digitalizar filmes desse formato (como fez recentemente com o acervo da TV Tupi) busca parceria com uma dessas duas empresas. Assim, as máquinas são bastante solicitadas e costumam estar sempre ocupadas. Mas o maior problema é o custo. Como se trata de material antigo – e em geral maltratado pelo tempo e pelo armazenamento descuidado – antes de ser colocada na máquina, uma fita quadruplex precisa passar por todo um processo de limpeza e higienização. Ou seja: requer mão de obra especializada, mais algum equipamento, um ou outro material, e verba, verba e mais verba. Como eu disse, essas foram apenas as primeiras informações que levantei com gente que trabalha na área. Hà chance de não estarem corretas, da coisa ser mais simples, de existirem outras máquinas (lembrei, por exemplo, do Instituto Moreira Salles – escrevi pra Bia (Paes Leme)  e estou no aguardo...)  Vou continuar assuntando e entrar em contato com o setor de digitalização lá da Globo. Qualquer (boa) novidade, grito. Por enquanto, infelizmente, é isso. Não há nada perdido, mas parece que a briga vai ser boa. Fortes abraços - e vamos em frente!
Celso

 Vamos a um e-meio enviado por mim para o Gruta :

Sent: Saturday, November 06, 2010 6:47 PM
Subject: Re: Fw: Carioquinhas e Tia Amélia do Jaboatão - Água Viva na TVE - 1977

Meu Gruta,

A Globo tem uma Quadruplex, e parece que a TV Cultura tb. Talvez a Record, quem sabe?

O que me deixa muito triste é essa informação enganosa que a ex TVE vem passando para a imprensa, de que seu acervo está sendo recuperado.

Claro que, se houvesse disposição política, essa situação já teria sido resolvida. Até porque, se existem recursos, por que não terceirizar essa recuperação? Quanto vale um minuto de Pixinguinha, de Tom Jobim, de Clementina, de Carlos Drummond de Andrade?

A TVE remunera mal seus funcionários, e sua grade de programação está empobrecida.O que o Ministério das Comunicações quer mais? Já falam na extinção da Tv Cultura.

Parte do acervo que consegui preservar, penso que teria melhor destino o You Tube ou a Google. Melhor do que deixar apodrecer a memória, engavetá-la.

Em qualquer país civilizado do mundo, surgiriam mecenas com grana para buscar as máquinas lá fora (elas existem, sim). Ou então fazer um convênio com quem as possui. O certo é que parte do acervo está em Umatic, e outra em Quadruplex.
  
Um abraço do velho

Herminio

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Ao lixo as TVs culturais e educativas. Ou: Cultura virou palavrão


O lado ruim de se sobreviver tanto tempo do lado de cá onde me sinto tecnicamente vivo, é que, fora as novas tecnologias (e sobretudo a Internet) tudo parece repeteco. Reprise de filme ruim, a que fomos obrigados a assistir outras vezes.

Lembro, e aos 75 anos há muito que recordar, alguns episódios que marcaram minha vida. O golpe militar de 64 havia colocado suas botas, bordunas e carabinas dentro da Rádio Nacional, promovendo uma degola sem precedentes na história daquela emissora. Lembro de um querido amigo, o modinheiro Paulo Tapajós, que era um dos diretores da rádio. Ele, irônico, desmentia que o animador César de Alencar (um talento fabuloso na área de comunicação) fosse um dedo-duro. Segundo Paulo, César apontava com o beiço, para a junta militar instaurada, os chamados elementos subversivos. E eles eram imediatamente ceifados. César não era, portanto, um dedo-duro na acepção completa do termo, mas um beiço duro.  

Quando Fernando Collor surgiu no panorama político brasileiro como candidato à Presidência da República na década de 90, sua plataforma de governo era uma luta acirrada contra a corrupção e uma caça aos chamados “marajás”, uma casta que nunca deixou de proliferar, tal e qual as gigóias que volta e meia provocam a mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas (vivo no Rio de Janeiro), causando um mau cheiro indescritível. Ora meu Deus, que ninguém se esqueça: ao vencer as eleições, uma das primeiras medidas de Collor foi vingar-se da classe artista que o rejeitou nas urnas. Desmontou o Ministério da Cultura. Naquela época, 1990, vaticinei: essa merda vai demorar uns 20 anos para ser consertada.

Errei no prognóstico: quatro anos de Sarney, oito de Fernando Henrique Cardoso e mais oito de Lula só fizeram confirmar que cultura era lixo, palavrão, matéria-prima abjeta e de pouca serventia. No máximo, moeda de barganhas políticas. O Ministério de Cultura, como bem proclama o Ziraldo, não apresentou nenhuma política cultural nesses últimos 16 anos. A não ser, como é notório, acabar com o Projeto Pixinguinha e outros programas culturais desenvolvidos a partir da gestão Aloysio Magalhães.  

Lembro, e continuo lembrando, dos tempos da Rádio MEC quando lá a ditadura se instalou. A discoteca foi toda desmontada, o pessoal que ostentava idéias contrárias era sumariamente colocado no olho da rua. Inclusive eu, que movi ação contra emissora em plena ditadura militar, ação que tramitou durante 25 anos, findo os quais venci a questão.

Mesma situação viveria quando chegou Fernando Collor, e fui colocado em disponibilidade, mesmo estando em pleno exercício de minhas funções de produtor na TVE.

Quando leio a nota que vai abaixo, é natural que me sobrevenha uma onde de arrepios. É a reprise de um filme que já conheço.  Quando a TVE foi sucateada, para dar lugar à anódina TV Brasil, havia também a promessa de manutenção de seus recursos humanos.

Vamos lá, abrindo parênteses:

Novo presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, o economista João Sayad se reuniu ontem com cerca de 50 funcionários das produções da emissora. Sua intenção era acalmar ânimos, depois das notícias sobre as mudanças em curso na casa, com a extinção de programas e demissões de profissionais.
Sayad ouviu o que não queria. Dos produtores de Login, tomou uma lição. Eles reclamaram que ficaram sabendo que o programa será extinto por meio do jornal O Estado de S.Paulo, o que acharam uma falta de respeito. "Nunca vi uma coisa dessas", protestou um dos profissionais. Sayad teve de admitir que "falhou na comunicação".
Os produtores de Login também questionaram o fato de o programa ter sido extinto com apenas quatro meses de existência e sem nenhuma tentativa de mudança.
No encontro, o presidente da Cultura confirmou que vai "descontinuar alguns programas", aumentar a importação de conteúdo e reduzir o espaço da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo).
Uma educadora reagiu. Lembrou Sayad do passado glorioso das produções infantis da emissora. "Você pretende acabar com todos os prêmios que a TV Cultura já ganhou", disse ela.
Um momento foi especialmente constrangedor. "Você é um homem de planilha, um homem de máquina de calcular. Nós construímos sonhos. Entre o seu plano e as realizações desse senhor, nos ficamos com esse senhor", disse um funcionário, apontando para Fernando Faro, criador do prestigiado Ensaio. O funcionário foi aplaudido.” (FONTE: Blog do Daniel Castro)

Fico imaginando a dor e a tristeza de Mestre Fernando Faro, um dos ícones da televisão cultural-educativa, que com seu programa “Ensaio”, praticamente reconstituiu parte da memória musical brasileiro na área televisiva. Volto a 1964, e compareço a uma assembléia no auditório da Rádio Nacional, o cantor Black-Out aos prantos, se insurgindo contra aquela ignomínia.
Continuemos:

A Fundação Padre Anchieta divulgou nota oficial no início da tarde desta quarta-feira (4), posicionando-se em relação à notícia deste blog de que a TV Cultura irá passar nos próximos meses por um processo de reestruturação em que poderão ser extintos vários programas e demitidos até 1.400 dos cerca de 1.800 funcionários da emissora.
A nota oficial não nega as informações publicadas pelo blog. Não fala em demissões ou enxugamento da produção própria. Mas anuncia um processo renovação da TV Cultura, porque a emissora "perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente".
Leia a íntegra da nota:
"Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:
A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.
Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas". (FONTE: Blog do Daniel Castro)

A conferir. E abrindo novo parênteses :

Ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad assumiu a presidência da TV Cultura em junho com a missão de reduzir a TV pública paulista a uma simples TV estatal. Com o aval do ex-governador José Serra e do atual governador, Alberto Goldman, Sayad pretende reduzir ao máximo a produção de programas e cortar o número de funcionários em quase 80%, dos atuais 1.800 para 400.
Sayad pensa até em vender o patrimônio da TV Cultura. Já encomendou aos advogados da emissora um estudo sobre a viabilidade de a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV, se desfazer de seus estúdios e edifícios na Água Branca, em São Paulo.
Em reuniões com diretores da emissora, Sayad tem dito que a Cultura não precisa ter mais do que 400 funcionários, que ficariam, segundo ele, muito bem instalados em um andar de um prédio comercial. A postura evidencia que a TV Cultura deixou de ser uma questão de política pública. Passou a ser um "pepino", um problema a ser eliminado pelo governo do Estado.
Fontes ouvidas pelo blog informam que Sayad vive dizendo que irá transformar a Cultura, hoje produtora de programas, em uma coprodutora. Ou seja, ela deixará de produzir programas de entretenimento. Passará a encomendá-los a produtoras independentes e a comprá-los no mercado internacional. Atrações como o Metrópolis podem estar em seus últimos dias.
O jornalismo da Cultura deixará de investir no noticiário do dia a dia, caro e mais bem produzido pelas redes comerciais. A partir de setembro, o Jornal da Cultura, com Maria Cristina Poli, passará a ser um jornal mais de debates, de discussão sobre o noticiário, do que de notícias.

Corte de receitas

A TV Cultura tem hoje um orçamento de cerca R$ 230 milhões. Desse total, R$ 50 milhões vêm da venda de espaço nos intervalos dos programas para anunciantes privados. Outros R$ 60 milhões são oriundos da prestação de serviços, como é chamada na emissora a produção de programas e vídeos para instituições como o Tribunal Superior Eleitoral, a Procuradoria da República, a TV Assembleia (do Estado de S.Paulo) e a TV Justiça.
Pois a gestão de Sayad já iniciou o desmonte dessas duas fontes de recursos. Até o ano que vem, a TV Cultura não terá mais nenhuma publicidade comercial em seus intervalos nem produzirá mais programação para órgãos públicos (a publicidade institucional, irrisória, será mantida). Dessa forma, reduzirá uma boa parte do seu número de funcionários.
Se o plano for executado, a TV Cultura sobreviverá apenas dos R$ 70 milhões que o governo do Estado aporta diretamente todos os anos, além de outros R$ 50 milhões que ela recebe pela produção de conteúdo para as secretarias estadual e municipal de Educação.
O plano de demissões de Sayad é mais complexo. Por causa das eleições de outubro, ele não pode demitir funcionários contratados em regime de CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) até dezembro. A Cultura tem entre 1.000 e 1.200 funcionários celetistas. Esses trabalhadores têm emprego garantido até janeiro. Depois, dependem da postura do novo governador do Estado. Para demitir funcionários celetistas, Sayad precisará do apoio do futuro governador, porque terá de contar com verbas extras para pagar as indenizações.
Já os profissionais contratados como pessoas jurídicas (os PJs, pessoas que têm microempresas) podem ser "demitidos" a qualquer momento. Eles seriam de 600 a 800. Os cortes devem ser feitos à medida que contratos de prestação de serviços, como o da TV Assembleia, forem vencendo e não renovados.
O blog tentou ouvir o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, sobre as mudanças que ele pretende implantar na TV Cultura. Na última segunda-feira, por meio da assessoria de imprensa da emissora, pediu uma entrevista. Ontem à tarde, a TV Cultura informou que Sayad não falaria com o R7.
As informações aqui publicadas foram relatadas previamente à assessoria de imprensa da TV Cultura. Nada foi negado. (FONTE: Blog do Daniel Castro)

Concluindo: a cultura vive um de seus piores momentos. O Ministério que deveria propor políticas culturais, na verdade utiliza subterfúgios como, por exemplo, discutir uma nova Lei dos Direitos Autorais, justamente nos minutos finais do segundo tempo do jogo, ou seja, no final de um mandato ministerial que exatamente não primou por ações exemplares. Vide a crise na Funarte. A TVE, que recebeu polpudas verbas da Petrobras para recuperar seu acervo de fitas, recolocou nas prateleiras o material digitalizado, devolvendo-o ao anonimato.
A Cultura não circula. O mercado de trabalho não oferece muitas alternativas nem para os artistas e nem para o público. Não vemos nenhum candidato à Presidência pronunciar-se sobre matéria que, presumo, é para eles muito indigesta.
Cultura, nos últimos tempos, virou palavrão.