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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sete segundos

Apenas um átimo de sete segundos é o que resta da imagem de Jacob do Bandolim em nossos acervos áudiovisuais.

E lá está ele, à porta de sua casa em Jacarepaguá, em pé, dando uma entrevista cujo teor ignoramos. É que a cena foi recuperada por algum colecionador de imagens, mas à maneira do cinema mudo.

Jacob sem bandolim. Jacob sem voz. Não encontramos nenhuma imagem de Jacob tocando seu mágico bandolim.


Vamos dar nomes à essa ignomínia: descaso e incompetência.

Ainda que não sonorizada, quanto vale essa imagem de Jacob? Quanto valeria alguns minutos dele tocando sua própria obra, ou as de seu autor favorito, Pixinguinha?

Quanto vale aquele encontro “Entre Amigos”, com Jota Efegê reunido a seus comparsas na vida cultural: Carlos Drummond de Andrade, Nássara, Álvarus e, modestamente, o que ora digita estas notas. A escolha dos convidados, que se esclareça logo, foi imposição do próprio Jota.

Querem discutir política cultural, deixando de lado os problemas que ameaçam as emissoras ditas educativas e culturais? Dando nome aos bois: TV Brasil (ex-TVE) e TV Cultura. As duas estão encurraladas pelo desprezo que lhes devotam nossos dirigentes políticos.

Sim, é uma falácia – uma falácia atroz.

A TV Globo se dá ao luxo de criar um novo canal apenas para bisar e reprisar suas novelas e alguns de seus programas mais famosos, como a excelente Escolinha do Professor Raimundo. E bate recordes de audiência. Apesar do incêndio que devastou seus arquivos, muita coisa foi salva através de uma inteligente política de aplicação de recursos na preservação de seus acervos. Tudo bem, não temos a bela imagem de Pixinga ao piano e Tom Jobim na flauta, solando o “Carinhoso”. Eu tenho apenas o áudio, que gravei com um aparelhinho furreca, colado à tela do meu televisor de mínimas polegadas, quando passou o programa que registrou aquele mágico encontro, aliás narrado pela Elis Regina e Paulo Gracindo. Ao fundo, Albino Pinheiro, promotor do encontro. Grande Albino.  


Ando me queixando sempre das mesmas coisas, não é? Pois vou agora ampliar meus queixumes, indo direto ao centro da questão.

Sou ligado às raízes da Escola Portátil de Música, assim como ao Instituto Jacob do Bandolim. Ministrei uma oficina naquele mágico e sonoroso colégio que agrega mais de 800 jovens alunos e tem uma penca de professores de primeira linha. Cito alguns: Mauricio Carrilho, Cristovão Bastos, Luciana Rabello, Paulo (do quarteto Maogani) e Pedro Aragão, além de minha querida Bia Paes Leme – a quem costumo me referir como um espécime equivalente à professora Cleonice Bernardinelli, a Divina Cleo, a maior autoridade em Fernando Pessoa.

Naquela oficina (“de coisas”, como a chamei) eu trabalhava ancorado em dois eixos, estranhezas e conexões. Não vou explicar a teoria desse método, simplesmente porque ele só existe na prática. Mas a emoção que despertava na garotada ser apresentada ao clarinete de Abel Ferreira, à flauta de Mestre Copinha, ao universo grandioso de Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, ao quinteto de Radamés Gnattali e à extinta Camerata Carioca, nascida em 1979, nas comemorações dos 10 anos de desaparecimento de Jacob do Bandolim. Hoje muita coisa está no YouTube ou no Google.

Desde aquela época, há quase dez anos, nunca pude mostrar um dos programas mais importantes que produzi e apresentei na ex-TVE, um “Água Viva” de 1977, com a pianeira Tia Amélia do Jaboatão, tocando ao lado do então nascente grupo de choro Os Carioquinhas. Vamos lá encontrar Mauricio Carrilho, Luciana Rabello, além de um menino de14 anos chamado Raphael Rabello (1962-1995). Era um prenúncio da Escola Portátil.

Quanto valeria esse programa? Quanto você pagaria para ser apresentado àquele momento de absoluta magia? E, pergunta principal, porque não reprisam aquele “Água Viva” (e tantos outros, que eternizaram encontros igualmente importantes?).

Gustavo Gruta, guardem esse nome que afetivamente chancelamos apenas como Gruta e que, segundo ele, de alguma forma iniciou sua carreira de diretor teatral com o espetáculo “Onomatopéia Não é Palavrão”, que está finalizando temporada no Centro Cultural Banco do Brasil. O “Onomatopéia” nasceu de um concurso de monografias instituído pela Oficina de Coisas, e que resultou na edição de um livrinho (ou opúsculo, se preferirem). Mas que prefiro mesmo chamar de resíduo cultural, porque um programa ou evento que não gere um resíduo (livro, um programa, vídeo etc.) não se eterniza. E o nosso Gruta quer fazer um evento comemorativo dos 10 anos da Escola Portátil de música, da qual é aluno de canto da professora Amélia Rabello (não por acaso, irmã de Raphael) – e dei-lhe a sugestão de procurar uma cópia daquele “Água Viva”. Juntando aquelas imagens a outras – em que surge a Camerata Carioca acompanhando Radamés, Caymmi, Elizeth –, ele teria um belo perfil de alguns professores responsáveis pela Escola.

E aí surgiram os óbices. A fita existe, está engavetada e nunca foi recuperada, apesar dos recur$os que a Petrobrás teria disponibilizado para os trabalhos de recuperação técnica do preciosíssimo acervo da ex-TVE.

Os subsídios colhidos abaixo dizem bem da situação daqueles acervos. A TVE alega que não tem máquina Quadruplex para rodar aquelas fitas, enquanto a TV Cultura – embora ameaçada por José Serra de desaparecer do mapa – parece cuidar melhor de seus acervos. A existência ou não de máquinas Quadruplex e U-matic está mais explicitada nos subsídios que agrego a esta crônica um tanto indignada. 

Finalizo dando uma colaboração, porque minha natureza é propositiva: que a TVE faça um convênio com algumas das emissoras que ainda possuem Quadruplex e recupere as fitas que estão apodrecendo em seus armários, “devolvidas ao anonimato”, como gosto de enfatizar.

Para isso é necessário vontade política e competência administrativa. Conveniar com quem possui essas geringonças. Em nome da salvação da chamada Memória Nacional, essa desmiolada senhora que, volta e meia, é lembrada às esperas das eleições.

Temos aí um novo governo eleito pelo povo. Essa questão nunca foi discutida nos debates a que assisti. Cultura, matéria secundária. Memória Nacional, que bobagem!

Lembro que mandei uma carta para o Lula, tão logo ele foi eleito. Não tiraria uma virgula, se a reenviasse (1)  para a presidente Dilma. Ou presidenta, como ela parece preferir . No Eça de Queiroz encontramos “generala”.  Não faz muita diferença, desde que ela cumpra suas promessas.

Sergio Cabral pai e eu somos Conselheiros Master do Museu da Imagem e do Som. Faço aqui um desafio ao jornalista e pesquisador Hugo Sukman, que responde pela Fundação Roberto Marinho, patrocinadora do magnífico prédio que abrigará o novo MIS. Mesmo apelo à Rosa Maria Araújo, diretora do MIS. Igual apelo ao governador Sergio Cabral, unha-e-cuticula como o (ainda) presidente Lula. Presidente, dê uma cochichada no ouvido do ministro Franklin Martins, para que libere esses trabalhos que poderiam ser conveniados com a Globo ou com quem mais tivesse as tais Quadruplex.

Bem, acabo de cumprir meu papel nessa discussão com a pergunta renitente. Quanto vale um minuto de Pixinguinha, Jacob, Aracy de Almeida, Abel, Copinha, dos Carioquinhas, da Camerata acompanhando Radamés e Elizeth? 

Não contrataram mestres-calceteiros lusitanos para recuperar nossas pedrinhas portuguesas, quase todas desniveladas em todos os cantos da cidade? Não precisamos mandar essas fitas lá para fora. Conveniar, essa a solução. 

Leiam os subsídios abaixo, e tirem suas conclusões.

Em 6 de novembro de 2010 22:06, Gustavo Guenzburger (Gruta) escreveu:

Oi Hermínio,

Parece que aquela lista que você me mandou das fitas já recuperadas inclui grande parte do acervo em U-matic. A parte em Quadruplex é que está totalmente parada, esperando outro patrocínio. Muito louco este esquema cultural atual, onde para recuperar um patrimônio público, uma empresa estatal como a TVE tem que submeter um projeto a uma empresa de capital particular ou misto, para usar um dinheiro que é 100% estatal, que é a grana via lei Rouanet. Com a mudança da Lei (que está sendo negociada há 4 anos e agora deve sair), espero que isto mude, que esta via seja mais direta. Já que o dinheiro é do governo, devíamos poder pedir diretamente ao governo, de maneira pública e transparente. Um dia será assim. Vamos torcer para que nossas fitas, rolos, filmes jornais, fotos, revistas, etc não apodreçam antes disso.

Abraço, 
Gruta

Do Celso Taddei, texto que por si só explica suas boas intenções :

Olá, amigos, com licença, boa noite.  (Hermínio, só pra explicar minha invasão repentina em meio a seus imeios: quem lhes escreve é o Celso Taddei, que trabalha com o Gruta no projeto da EPM – aliás, é um grande prazer falar, mesmo eletronicamente, com você!)  Bom, ocorre que consegui algumas informações – não muito animadoras, sinto dizer - a respeito da recuperação das nossa fitas. Até onde eu soube, existem apenas duas máquinas leitoras de quadruplex no Brasil . Uma é da Cultura e a outra é da Globo. Até o Arquivo Nacional, quando assume projetos para digitalizar filmes desse formato (como fez recentemente com o acervo da TV Tupi) busca parceria com uma dessas duas empresas. Assim, as máquinas são bastante solicitadas e costumam estar sempre ocupadas. Mas o maior problema é o custo. Como se trata de material antigo – e em geral maltratado pelo tempo e pelo armazenamento descuidado – antes de ser colocada na máquina, uma fita quadruplex precisa passar por todo um processo de limpeza e higienização. Ou seja: requer mão de obra especializada, mais algum equipamento, um ou outro material, e verba, verba e mais verba. Como eu disse, essas foram apenas as primeiras informações que levantei com gente que trabalha na área. Hà chance de não estarem corretas, da coisa ser mais simples, de existirem outras máquinas (lembrei, por exemplo, do Instituto Moreira Salles – escrevi pra Bia (Paes Leme)  e estou no aguardo...)  Vou continuar assuntando e entrar em contato com o setor de digitalização lá da Globo. Qualquer (boa) novidade, grito. Por enquanto, infelizmente, é isso. Não há nada perdido, mas parece que a briga vai ser boa. Fortes abraços - e vamos em frente!
Celso

 Vamos a um e-meio enviado por mim para o Gruta :

Sent: Saturday, November 06, 2010 6:47 PM
Subject: Re: Fw: Carioquinhas e Tia Amélia do Jaboatão - Água Viva na TVE - 1977

Meu Gruta,

A Globo tem uma Quadruplex, e parece que a TV Cultura tb. Talvez a Record, quem sabe?

O que me deixa muito triste é essa informação enganosa que a ex TVE vem passando para a imprensa, de que seu acervo está sendo recuperado.

Claro que, se houvesse disposição política, essa situação já teria sido resolvida. Até porque, se existem recursos, por que não terceirizar essa recuperação? Quanto vale um minuto de Pixinguinha, de Tom Jobim, de Clementina, de Carlos Drummond de Andrade?

A TVE remunera mal seus funcionários, e sua grade de programação está empobrecida.O que o Ministério das Comunicações quer mais? Já falam na extinção da Tv Cultura.

Parte do acervo que consegui preservar, penso que teria melhor destino o You Tube ou a Google. Melhor do que deixar apodrecer a memória, engavetá-la.

Em qualquer país civilizado do mundo, surgiriam mecenas com grana para buscar as máquinas lá fora (elas existem, sim). Ou então fazer um convênio com quem as possui. O certo é que parte do acervo está em Umatic, e outra em Quadruplex.
  
Um abraço do velho

Herminio

domingo, 26 de setembro de 2010

Meu voto vai para o Buraco Quente

Era um hábito: pegar o carro e levar meus amigos ao Buraco Quente, na Mangueira. Antes, passava pelas casas de Cartola e Zica, de Neuma e também na de Carlos Cachaça e Menininha, arregimentava aqueles amigos e íamos nos fartar de alegria na Birosca da Efigência do Balbino, no Buraco Quente.

Há uns anos (mais de 10 e menos de 15) um amigo meu me fez cumprir a promessa de levá-lo a um lugar que, por minha causa, povoava seu imaginário. Passei pela casa de Neuma e tentei convencê-la a nos acompanhar naquela visita. Ela relutou, melhor seria pedir umas cervejas e ficar por ali mesmo, e achei estranho. Mas, enfim, sou tinhoso quando boto uma idéia na cabeça, e acabei enlaçando minha amiga e lá estamos nós três bebendo uma geladinha. Eis que olho para meu amigo e o vejo com os olhos esbugalhados. Foi quando me dei conta da meninada que passava com armas ensarilhadas, uma juventude dominada pelo tráfico, e aí entendi a relutância de Neuma em nos acompanhar. Ela apenas sussurrou para meu amigo Alecir: “meu filho, finja que não está vendo”.

O mesmo hábito eu guardava para amigos de fora: levá-los para conhecer a casinha de vila que habitei na infância. Subia pela Hermenegildo de Barros, ia direto pra rua Aarão Reis e embicava o carro pro Beco Ocidental. Era o menino que voltava ao seu parque de diversões. Em frente, numa imponência cheia de estranhezas, ficava um então sossegado Morro da Coroa. Há pouco tempo, naquelas imediações, meu amigo, o teatrólogo Vicente Maiolino, foi brutalmente assassinado. 

Fui envelhecendo, perdendo meus amigos queridos, e nunca mais voltei à minha Escola de coração: aquela que, vista do alto, mais parecia um céu no chão, ele coberto de esmeraldas.  Alvorada lá no morro, que beleza!? Nunca mais.

Meus 75 anos de vida eu os passei no Rio de Janeiro, e nunca sonhei em sair daqui. Tenho uma amiga querida que foi obrigada a sair de sua casa, nas imediações da Mangueira, porque sua rua foi tomada pelo tráfico. Ela, com filho pequeno, não quis se arriscar.

Moro num bairro relativamente  tranqüilo, onde me dedico a plantar lírios-da-paz nos canteiros mal tratados pela prefeitura e a advertir aqueles que insistem em não recolher as fezes de seus cachorros, indiferentes aos deficientes físicos que transitam por ali. Algumas pessoas ainda estranham em ver aquele idoso catando lixo nos canteiros. Mas  acabam aderindo à iniciativa.
 Integrantes da Escola Portátil de Música

Ontem fui me encontrar com o pessoal da Escola Portátil de Música na Taberna da Glória, que foi meu refúgio nas décadas de 50 a 70. Naquela época morava na Beco do Rio, hoje extinta, que ficava a poucos metros da antiga Taberna onde bebi com Araci de Almeida e Ismael Silva, e onde Mário de Andrade se encontrava com a fina flor da inteligência carioca – inclusive a própria Araca.  

A Escola Portátil e o Instituto Jacob do Bandolim estão comemorando dez anos de existência! De alguma forma, muitíssimo modesta, estimulei meus amigos a concretizarem seus sonhos. Tive o cargo de conselheiro naquelas duas casas e me afastei quando fui nomeado para o Conselho Estadual de Cultura – então presidido por minha querida amiga Ana Arruda Callado. Me demiti do Conselho quando vi que um manifesto que assináramos não tivera a menor ressonância na imprensa do país. Protestávamos contra a ausência de uma política cultural por parte de um ministério que desde a ascenção do Fernando Collor perdera sua expressividade. 

Tenho acompanhado as ações das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), voltadas  para algumas comunidades dominadas pelo tráfico. Os resultados são claros na maioria delas: não ver aquela multidão de trabalhadores afrontada por armamentos bélicos,  saber que equipamentos culturais e sociais estão sendo montados com o objetivo de resgatar o direito de cidadania conspurcado pelas milícias – a tudo isso some-se a alegria de ver que nossa Escola Portátil de Música (800 jovens que estudam, discutem e tocam Pixinguinha, Anacleto, Tom Jobim) ganhou enfim uma sede. Ela fica na rua da Carioca, perto da Praça Tiradentes.

Num voto de confiança ao Governo do Estado que busca um segundo mandato, estou doando todo meu acervo ao novo Museu da Imagem e do Som (MIS). Espero que, no próximo mandato, seja dada mais atenção aos bordões que vivo apregoando por aí – a cultura tem que circular. Há que reabrir as portas do Teatro João Caetano para um projeto similar ao Seis e Meia, criado por Albino Pinheiro. Que o futuro Ministério da Cultura saia de sua letargia e abra o mercado de trabalho para os músicos brasileiros, recolocando na estrada o (criminosa e covardemente) extinto Projeto Pixinguinha. Há que levar para essas UPPs as tantas jovens orquestras (Furiosa Portátil, Leviana, Imperial) que estão soltas por aí. Aliás, um passo já foi dado pela Secretaria de Cultura: jovens professores da Escola Portátil estão atuando em Manguinhos. Meu voto para governador vai para Sérgio Cabral.
 
 Senadora Marina Silva

Meu voto para presidente vai para Marina Silva, embora saiba que o cargo será ocupado por outra mulher, de quem espero um olhar mais incisivo para a educação e a cultura, tão maltratados nesses últimos anos. Concordemos que com estomago vazio ninguém consegue ir à escola. Estratificada uma política que não seja meramente assistencial, que se dê ao povo o direito de exercer sua cidadania, a de ser um brasileiro sem medo de ir aos lugares que povoaram sua infância e juventude, e que muitas escolas portáteis ( que são verdadeiras UPPs culturais) proliferem pelo país afora.

Antes de terminar, uma denúncia: querem acabar com a TV Cultura, ou reduzi-la à mesma desimportância da ex-TVE, hoje TV Brasil. 

Em tempo: não exerço nenhum cargo público, vivo da minha aposentadoria e de meus parcos direitos autorais.

Sim, há que lembrar: a heróica Amar-Sombrás está fazendo 30 anos de existência. Que saudades de Mauricio Tapajós!

E que São Pixinguinha nos inspire e proteja na hora de votar.

Hermínio Bello de Carvalho 

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A nova sede da Escola Portátil de Música


Que se noticie: a Escola Portátil de Música ganhou uma sede, na Rua da Carioca, Rio de Janeiro. Quase em frente ao centenário Bar Luiz, próximo do lindo cinema Ritz. Será  vizinha de um ex-cinema que ainda ostenta o esqueleto de uma engrenagem que movia o teto retrátil da esplendorosa sala, teto que era bastante utilizado na época do verão.

A Escola Portátil hoje abriga mais de 800 alunos que sabem tudo sobre Pixinguinha, Tom Jobim, Anacleto, Radamés Gnattali, Chiquinha Gonzaga, Guinga. Sabem e tocam. E depois de alunos, viram monitores – e aí então, passam a ser oficineiros. Uma parte deles está agora em Manguinhos, atuando num projeto social. Acho que fariam bonito ensinando música às comunidades carentes que já foram ocupadas pelas UPPs (Unidades Policiais Pacificadoras), com um novo conceito de erradicação do tráfico armado e das milícias que tomaram conta de nossas favelas, cuja ocupação maciça é feita pela massa operária.

Aprendi com uma querida amiga a ter um olhar que contemple os dois lados das criaturas bem como das situações que elas criam. “Há sempre um lado bom em qualquer história”, tenta me seduzir. Falo de Heloisa Lustosa, filha de Pedro Aleixo, único dos ministros a não colocar sua assinatura no maldito AI-5. Católica fervorosa, era presidente do Museu de Arte Moderna em pleno regime militar, e sabe o quanto penou ao nos ceder uma salinha para a instalação da Sombrás. Tachados de subversivos (e tentávamos sim subverter a situação imoral que assolava os direitos autorais no Brasil), sempre tivemos sua amiga mão amiga sobre nossos ombros. 

De uma certa forma, fez-me tornar menos vesgo e radical para uma figura particularmente polêmica da política brasileira: Carlos Lacerda. Atenuo meu horror àquele homem público sempre que atravesso o aterro do Flamengo, e me vejo diante da esplendorosa Baía de Guanabara, e diviso dois símbolos de minha cidade: o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Lacerda era um visionário que amava sua cidade.
Infelizmente, ainda não consigo ser complacente e generoso com esse Ministério da Cultura que aí está aí. Faço coro aos meus ex-colegas do Conselho Estadual de Cultura: não existe uma política cultural emanada por aquele Ministério. Se a Escola Portátil tornou-se um Ponto de Cultura (um dos programas do MinC), também o Jongo da Serrinha ganhou o mesmo beneficio – mesmo tendo encerrado suas atividades sociais.

E a nossa classe, agora, é convocada para uma reunião com o referido Ministro. O convite é explícito: apenas para compositores, intérpretes. Nada de representantes das entidades que administram nossas vidas. Isso exclui Paulinho César Pinheiro (que é diretor da Amar-Sombrás), e inúmeros compositores que fazem parte da diretoria de outras associações, como é o caso de Fernando Brant e Ronaldo Passos, para ficarmos apenas em dois exemplos. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Confessando (também) meus fracassos

Quero confessar, o mais descaradamente possível, que vou plagiar o antropólogo Darcy Ribeiro. É que ele, ao receber o titulo de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, em 1978, resolveu escancarar suas desilusões políticas e culturais, num caudaloso discurso – magnífico! – que, infelizmente, não dá como reproduzir aqui. E justifica: “em lugar de louvações me pus a lamentar, modesto, os fracassos de minha vida inteira”. E explica: “falsos fracassos, logo se vê. Modéstia mais falsa ainda. Num golpe de mágica assumi, imperialmente, os fracassos do Brasil na luta para apossar-se de si mesmo, fazendo deles fracassos meus. Meus e dos brasileiros todos, disse eu lá no heráldico salão das grandes escadarias”.


Na impossibilidade de transcrever o discurso, esclareço que o Educador não deixou barato. Expôs sua trajetória, mas ressaltando que quase todas suas iniciativas nas áreas de educação e antropologia foram acompanhadas de enormes desilusões. Lembremos que Darcy criou a Universidade de Brasília, ao lado de Oscar Niemayer e Lucio Costa, colaborou com os Irmãos Villas-Boas na criação do Parque Indígena do Xingu, foi viver suas experiências entre os índios, foi Secretário de Estado, depois Ministro da Educação. Anisio Teixeira o aproximou da temática pedagógico-educacional, semente dos futuros Cieps em sua concepção original: a criançada entrando nas escolas, estudando, fazendo esportes, se alimentando e voltando para casa no final da tarde. Depois o Golpe Militar de 64 cassou seus direitos, e foi fazer política e pregar cultura e educação pela América Latina. Seus “fracassos” se localizam em áreas que sofreram regressão ou abandono ou interesses políticos – como é o caso específico dos Cieps.

Admirável a personalidade do educador, de palavrório solto – e é lá. No admirável “Testemunho”, recém editado pela EUB, que vou catar um trecho delicioso: “Falar de mim mesmo é a tarefa que mais me agrada e gratifica. Todo entrevistador de rádio, jornal ou televisão sabe que nem é preciso me fazer pergunta; basta ligar o gravador e me deixar falar, que falo. Incansavelmente. Para mim, pelo menos”. Grande Darcy!

Finjo que estou na Sorbonne, me reduzo à condição de um simples ativista cultural brasileiro, e aqui venho lamentar alguns dos fracassos colhidos ao longo de quase 75 anos de vida, 2/3 dela no ofício espinhoso de jardineiro de sonhos e utopias.

CLEMENTINA DE JESUS

Há quem viva navegando na tênue nuvem do sucesso, com memória superseletiva que abomina lembrar uma outra escadaria, maior do que a de Sorbonne de Darcy, aquela que passo a passo, igual aos romeiros da Igreja da Penha, esfolamos nossos joelhos em busca de uma graça prometida. Às vezes, cura de uma doença ou moléstia tão grave que é falta de dinheiro. Mas há quem galgue as escadas para implorar um espaço qualquer num pódio que a indústria cultural reserva para pouquíssimos. “Sucesso, quero fazer sucesso!” – gritam, desesperados (e esfolados).

Vamos, pois, desafiar o rosário. E começando por Mãe Quelé, aproveitando o mote do antropólogo. Dele recolho uma frase admirável: “Clementina (de Jesus) é a voz dos milhões de negros desfeitos no fazimento do Brasil. Poderosa voz anunciadora do brasileiro que, amanhã, se assumirá como povo mulato, mais africano que lusitano”. Fez mais: abriu as portas do Municipal para homenageá-la, embora eu continue achando um equívoco. A imaterialidade do canto de Clementina transcende o patrimônio físico representado por aquele teatro. Se houve alguma simbologia no ato de homenageá-la naquela casa, faltou-me explicação.

Lembro quando o município de Valença resolveu homenagear a memória de Clementina, erigindo um busto em praça pública. Cá estou diante da doce professora Dilma Dantas, então Assessora de Cultura, que veio sem explicar como se daria a inauguração. Expus o seguinte: busto em praça pública só serve pra pombo cagar em cima. Por que não um livro sobre Clementina, para que os jovens pudessem entender a trajetória daquela iluminada personagem valenciana? “Seria caro!” – e expliquei que não, e nos juntamos a Lena Frias, a Nei Lopes e Paulo César de Andrade – e entregamos nossos textos totalmente de graça. E, enfim, o livro foi editado com baixíssimo custo industrial.

Clementina, enfim, foi um dos meus fracassos. A voracidade de alguns herdeiros é bastante conhecida, e os de Clementina não fogem à regra. O livro nunca pôde ser reeditado, assim como os discos de Clementina sofreram uma só reedição, patrocinada pela Petrobras. “Ninguém vai querer comprar”, explicou a gravadora. Há pouco tempo, retribuindo gentileza de Eduardo Escorel que me mandou uma cópia do documentário que fez sobre Chico Antonio, mandei-lhe a penúltima caixa que ainda possuía com dez CDs de Mãe Quelé. Sua memória ficou restrita a poucos.

ANTONIO CANDIDO E SEUS PERSONAGENS SECUNDÁRIOS

Há pouco tempo, e acho que já contei isso aqui, fui assistir a uma palestra do professor Antonio Candido. Era o lançamento da epistolografia de Mário de Andrade com o fazendeiro Pio Correia. O professor foi logo esclarecendo: não gostava de falar dos chamados protagonistas, de resto quase sempre muito conhecidos e incensados. Preferia os “personagens secundários”. No caso, o fazendeiro Pio e o pai de Mário. Deu-se o clarão: minha vida inteira a dediquei a esses personagens marginalizados pelo sistema, e reduzo a lista a Clementina de Jesus e Valzinho para não me tornar (mais) cansativo.

Outro dos meus fracassos eu o relembro em função do esclarecimento prestado por Antonio Candido, e se relaciona à ex-TVE, hoje TV Brasil. Nela produzi centenas de programas, sempre colocando meus personagens secundários em destaque, já que estavam compulsoriamente afastados pelas emissoras de TV, que os desejava mais glamurosos e não necessariamente portadores de conteúdo – pois até hoje a grande maioria das emissoras de rádio e televisão age com esse critério seletivo. Uma das poucas exceções é Cartola, que foi catapultado da obscuridade através de sua genialidade, assim como Pixinguinha. Inquestionáveis, não havia como barrá-los.

Expliquemos o fracasso: mandei carta para Tereza Cruvinel, atual presidente da TV Brasil, denunciando um fato que me prece no mínimo escandaloso. Boa parte do acervo de programas que estava se deteriorando nos arquivos da então TVE foi recuperado graças ao apoio financeiro recebido da Petrobras. Finalizado o trabalho (tenho em mãos a relação do acervo recuperado) todo o material foi devolvido aos depósitos onde haviam mofado. Ou seja: devolvidos ao anonimato.

PROJETO PIXINGUINHA: RELEMBRANDO UMA CAFAJESTICE CULTURAL

Outro fracasso se deu há quase dois anos, quando fui chamado para fazer a curadoria dos 30 anos do Projeto Pixinguinha. Apresentei contraproposta para aceitação ao convite: a reedição de alguns projetos, inclusive o Lucio Rangel de Monografias, e, sobretudo, o Radamés Gnattali – um projeto na época gerenciado por Roberto Gnattali e Luiz Otávio Braga, com edição de discos paradidáticos. Como já foi declarado abertamente na época pela imprensa, fui torpemente enganado. Já havia um projeto de sepultamento do Projeto Pixinguinha, e eu, sem querer, fui chamado solertemente para celebrar suas exéquias. Mais um fracasso.

EVENTO PARA MIM É VENTO, UM ATO EVENTUAL QUE NÃO DEIXA RESIDUOS

Não mudando de assunto, que ele ainda não acabou, quero falar sobre o mercado da música, e de uma multidão de jovens artistas que tentam um espaço nas megavitrines representados pelos teatros municipais e estaduais, que antes abrigaram projetos como o Pixinguinha e o Seis-e-Meia, do Albino Pinheiro. Bom, a prefeitura inaugurou o “Sete em ponto”, semanal, no Teatro Carlos Gomes. O fechamento temporário do Municipal para obras fez com que as agendas dos demais teatros municipais ficassem congestionadas, recebendo a programação destinada àquele templo da música. Tudo bem. Ele vai reabrir, reequipadíssimo. O João Caetano já passou por uma parcial reforma (até com cadeiras para obesos e elevador para deficientes, como ordena a lei). A Sala Cecilia Meirelles vai, enfim, entrar em obras – e tomara que os dois prédios a ela vizinhos sejam igualmente recuperados, com suas fachadas deslumbrantes.

Mas o que anda me incomodando, e muito, é a falta de registro de projetos, programas e eventos da maior importância, que simplesmente caem no esquecimento por falta de um resíduo cultural que ele poderia provocar, se interesse houvesse das telemissoras ditas culturais ou educativas. São espetáculos importantes que, ensaiados durante meses, acabam se perdendo na memória. Dou como exemplo o tributo prestado a Luis Carlos da Vila na Praça Mauro Duarte, no bairro de Botafogo (RJ). Se você perdeu, como perdi, aquele evento, entenderá minha insatisfação. Tudo que não se registra se perde, há anos venho repisando o que tantos já se cansaram de advertir. O lógico é que um dos teatros municipais ou estaduais acolhessem essas propostas e, conveniados com uma rede televisiva federal, municipal ou estadual, fizessem o registro do é-vento, permitindo sua futura acessibilidade por parte do público. Bem, vamos ampliar a queixa: já repararam nos horários tardios em que esses registros (poucos) entram nas grades de programação?

ATÉ SANGRAR

Já havia me aposentado como produtor de discos quando Olívia Hime sugeriu que se produzisse um disco de Áurea Martins. Chamei Zé-Maria Camiloto Rocha para co-produzir o “Até sangrar”, que resultou no prêmio (ex-Tim, ex-Sharp) de melhor cantora de 2009 para Áurea. Desde então, venho tentando abrir um espaço para celebrar essa premiação. Afinal, Áurea só havia recebido um prêmio na vida, quando venceu o concurso “A grande chance”, há 45 anos. Promessas aqui e ali, e nada de concreto. Não, não computo esse desapontamento como um fracasso. Áurea foi consagrada com inúmeras críticas nos jornais, menos, é claro, nas revistas semanais tipo “Veja”, “Istoé’, “CartaCapital” – e façamos justiça à essa última publicação: o Pedro Alexandre Sanches escreveu uma longa matéria sobre o livro que escancara os preconceitos em torno das cantoras negras, mas com um lapso de amnésia indesculpável esqueceu-se, apenas, de comentar que nem ele publicou nenhuma resenha crítica sobre o “Até sangrar” naquela revista.

EM CONTRAPARTIDA...

Não vamos trabalhar com a regra (um mercado musical multifacetado, com os olhos voltados para a cultura descartável), mas lançar também um olhar despreconceituoso e mais atento às exceções dessa regra. Pedi a uma querida ex-aluna da Oficina de Coisas da Escola Portátil de Música, Gabriela Buarque, que me enviasse um texto falando de sua luta para abrir espaço para ela e também para outros novos valores. Vamos lá:

“Semana passada me fizeram uma pergunta sobre os espaços do Rio de Janeiro para novos compositores. Na tentativa de fugir do padrão de resposta “só reclama e não faz nada para mudar” – que vem se multiplicando nos depoimentos de meus colegas de trabalho – comecei a enumerar alguns locais que nos são mais acessíveis. Sem qualquer espanto do entrevistador, depois de três referências, não me recordava de mais nenhum. Raras e preciosas iniciativas como a da ARPUB (Associação das Rádios Públicas do Brasil) devem ser louvadas. A promoção de seu I Festival de Música levou às Rádios MEC e Nacional composições inéditas da nova geração na tentativa de revigorar a canção brasileira que, a esta altura, até ameaça de extinção sofrera. Fico pensando o que seria dos consagrados nomes da nossa música não fossem os veículos de massa da época para divulgar seus trabalhos e incentivá-los através de grandes festivais, das rádios e outras mídias. Interesses políticos à parte, tais manifestações alavancaram fulanos como Chico, Caetano, Gil, Elis, Nara e tantos desconhecidos até então. Sobreviveriam os mesmos nos dias de hoje? O cenário atual, cuja a quantidade de informação ultrapassa a capacidade mínima de absorção e entendimento, vem transformando artistas e suas mais admiráveis peculiaridades em produtos descartáveis e obsoletos a cada segundo que passa. O artista que, há alguns anos, lotava um teatro, por exemplo, atualmente busca soluções de marketing para atrair o público. Nunca foi tão importante a presença de convidados ‘especiais’ e depoimentos de terceiros para agregar valor à sua imagem e, por conseguinte, ao seu CD. É, no mínimo, paradoxal que, diante de tamanha riqueza, não haja interesse público em divulgar e preservar esse material. As salas de concerto do Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil são as choperias cariocas, aonde, eu lhes asseguro, a última coisa que se deseja é ouvir música. É lamentável que parta de nós a defesa e propagação da música popular brasileira."
Gabriela Buarque (16/11/2009)
Claro, o assunto não se encerra aqui. Por uma questão de justiça, temos que louvar instituições que mantém programas culturais em seus calendários. O Centro Cultural do Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o BNDES, a Petrobras, o Sesc e secretarias municipais e estaduais de cultura que administram generosos espaços culturais.

Voltaremos ao assunto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Jacob do Bandolim, há 40 anos



(Caricatura do artista Ulisses)

Eu sempre associei o dia 13 de agosto a uma sexta-feira, enfatizando a suposta maldição que vinha embutida naquela data.

Meu amigo Sergio Prata é quem me alertou para o equívoco: não era sexta, mas quarta-feira.

Jacob voltava da casa de Pixinguinha, seu e nosso Deus, e foi acometido de um infarto à porta de casa em Jacarepaguá.

Foi há 40 anos: 13 de agosto de 1969.

Não sei de outro músico que tenha deixado tão fortes digitais para um instrumento quanto Jacob Pick Bittencourt legou para as gerações que o sucederam.

Temia que, com sua morte, o culto ao choro desaparecesse. Estivesse vivo e fosse ao pátio Mário de Andrade aos sábados, na UniRio, teria a satisfação de encontrar cerca de 800 alunos que, na Escola Portátil de Música, cultivam aquele gênero musical – especialmente a obra legada por ele, Jacob, e também Pixinguinha, Anacleto, Radamés, Nazareth, Chiquinha Gonzaga e também novos autores que, a exemplo de Mauricio Carrilho, compõem choros belíssimos – e equivalentes ao “Doce de Coco”, “Benzinho”, “Noites Cariocas” – que são uma espécie de cartões-postais do nosso Jacob.

O grande músico era um adepto da indignação. Volta e meia argumentava num tom mais elevado, com seu texto brilhante e também com seu vozeirão inconfundível, qualquer assunto que contivesse uma inverdade ou imprecisão.

Há pouco tempo, o Rio de Janeiro, imitando São Paulo, inaugurou o evento (é-vento) “Viradão Carioca”, que mereceu um protesto coletivo do Instituto Jacob do Bandolim e do Instituto Casa do Choro/Escola Portátil de Música.

Enfim: aquelas instituições herdaram o poder de indignação que Jacob tão bem cultivava. Pedi ao Sergio Prata que me enviasse o texto. Vamos lá, transcrevendo-o:

O Choro e o Viradão Cultural

No recente Viradão Cultural, promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, causou estranheza a forma com que o primeiro e mais autêntico gênero musical carioca, o Choro, foi tratado.
Nos cerca de 300 eventos culturais, chamou atenção a ausência de nomes tradicionais do gênero, dentre eles: Altamiro Carrilho, Hamilton de Holanda, Zé da Velha, Joel Nascimento, Déo Rian, Paulo Moura, Época de Ouro, Galo Preto, Maurício Carrilho, Henrique Cazes, Água de Moringa, Luciana Rabelllo, Luiz Otavio Braga, Eduardo Neves, Silvério Pontes, Paulo Sergio Santos, Nó em Pingo d’Água e paramos aqui, pois a lista é extensa. Em suma, as apresentações de choro corresponderam a cerca de 1% dos eventos musicais, isso em pleno Rio de Janeiro.
Estamos falando da cidade onde esse gênero centenário nasceu, e partir daqui se tornou internacional, e que teve como diletos construtores: Irineu de Almeida, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, Chiquinha Gonzaga e Waldir Azevedo, ilustres cariocas, que, certamente, não aprovariam esse tratamento.
Esse lastimável equívoco se dá, paradoxalmente, num momento de grande atividade, com a consolidação de experiências vitoriosas no campo do ensino musical como as desenvolvidas pela Escola Portátil de Música, a Escola de Música da Rocinha e a Associação de Compositores da Baixada Fluminense, que, somados, receberam nos dois últimos anos, mais de mil e quinhentos jovens alunos interessados no aprendizado desse gênero.
Constantemente, músicos de choro se apresentam em palcos pelo país e no exterior, e os turistas que aqui chegam, vem com recomendação de conhecer o “...chorinho carioca...”.
O choro representa hoje uma rede social organizada, que tem lutado para preservar seus acervos e divulgá-los, com resultados expressivos, como atestam os trabalhos realizados pelo Instituto Jacob do Bandolim, que numa parceria com o Museu da Imagem e do Som, vem digitalizando o enorme acervo deixado por seu patrono, o que inclui 6.000 partituras e 400 horas de gravações, e pelo Instituto Casa do Choro, que promove o resgate de milhares de partituras dos pioneiros do Choro, no Séc. XIX, material disponibilizado a sociedade.
Enfim, se é louvável e merece elogios a iniciativa de se tentar dinamizar a cena musical por intermédio de um evento midiático, por outro lado, os gestores municipais devem ficar atentos para que, em função das pressões de mercado e patrocinadores, não se permita a redução do espaço que naturalmente pertence às manifestações culturais que contam com raízes sociais e que se mantêm em constante processo de crescimento e renovação, cujo principal exemplo é o Choro, que, por sinal, vai muito bem, sempre pujante e criativo.

Rio de Janeiro, 8 de junho de 2009

Instituto Casa do Choro / Instituto Jacob do Bandolim


Esse texto veio acoplado ao seguinte imeio:

Oi, Hermínio

Segue em anexo o texto sobre o Viradão, que foi assinado e divulgado pelo Instituto Jacob do Bandolim e pelo Instituto Casa do Choro / Escola Portátil de Música. (...) Hoje o Estadão publica uma matéria interessante falando da trajetória e da ausência do teu grande amigo, Jacob do Bandolim, e comentando o momento de grande atividade do instituto que leva o seu nome.

E diga-se de passagem que o IJB é filho da tua santa insistência em salvar aquele que é o maior acervo de choro já reunido, o Arquivo do Jacob, hoje em processo de recuperação na gestão de Rosa Maria Araujo, recuperação essa que teve seu início na gestão do querido maestro Edino Krieger.

Como vc. sabe, estamos desenvolvendo 3 projetos importantes:

a) Digitalização dos 200 rolos magnéticos gravados por Jacob em seus saraus e ensaios, com mais de 400 horas de gravação, que resultou numa coleção de 350 cds, que será entregue ao Museu da Imagem e do Som/RJ, para ser disponibilizado ao público em geral, acompanhado de um catálogo sobre o conteúdo, já identificado, de todo
esse material. Já concluído, em fase de entrega ao MIS.

b) Digitalização das 6.000 partituras - A partir do estabelecimento em 2009, de um Termo de Cooperação entre o Instituto Jacob do Bandolim e o MIS/RJ, foi iniciada em julho/09, a digitalização do acervo de 6.000 partituras do Arquivo do Jacob, no MIS/RJ. O material, após ser digitalizado, será disponibilizado ao público interessado: pesquisadores, músicos, estudantes, etc. - Em andamento. 60% já realizado.

c) Lançamento do Caderno de Partituras de Jacob do Bandolim, com toda a sua obra completa. Trata-se de publicação inédita. Já está concluída e em fase de produção, para lançamento. Reuniu uma equipe de especialistas no assunto: Pedro Aragão, Marcílio Lopes, Déo Rian, Sergio Prata, Maurício Carrilho, Paulo Aragão e Luiz Otávio Braga.

Aproveito e coloco a disposição os links para que seus blogueiros leiam a matéria no Estadão, e vejam Jacob no sitio do IJB.

Leia Jacob:
http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art418050,0.htm


Ouça Jacob:
http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowAudios.action?destaque.idGuidSelect=7DEABB27A1DC4236A0EA15823A4809B8

bjs
Sergio Prata

E há mais ou menos 50 anos...

Lembro da notícia, sintética, estampada na coluna de discos do Silvio Tullio Cardoso: “Morreu Billie Holiday”. Nada mais. Imagino que o colunista, admirador fervorosíssimo de Lady Day, travou as teclas de sua Remington e foi encharcar-se de lágrimas num canto da redação de O Globo. Prisioneira de uma angústia abissal que a fez escrava do álcool e de outras drogas pesadas, a morte de Billie quase coincidia com a primeira vinda de Sarah Vaughan ao Brasil.

Quase nessa mesma época, Linda Baptista – e ainda não estava em vigor a Lei Seca – era advertida por dirigir embriagada. Uns 5 anos antes, morria Carmem Miranda. Lembro-a chegando, de surpresa, na “Cantina do César (de Alencar)” para abraçar a aniversariante Ângela Maria. “Posso lhe dar um beijo?”, e ela “Tasca dois!”. Tenho foto atestando.



Há uns 50 anos, Anilza já estava brilhando nos palcos, como vedete de teatros de revistas. Temia que seu desaparecimento, ocorrido há poucos dias, passasse em branco. O Artur Xexéo, pelo menos, fez uma bela crônica em homenagem àquela linda atriz/vedete, que foi minha coleguinha de classe na Escola 3-3 Deodoro, na década de 40. Tenho em meu álbum um retratinho dela, em uniforme escolar – e, em alguma parte, uma outra foto assinada por Halfeld ou Ávila, não me lembro bem.

Enfim, lembranças que levo aos meus queridos Alexandre Pavan e Luiz Ribeiro, ambos admiradores de Jacob do Bandolim – e responsáveis, com Luiz Boal, pela preservação e atualização de meu acervo. Criaram este apêndice luxuoso – e que me permite pensamentear essas coisas típicas de gente velha e que não tem muita coisa mais o que fazer senão... pensamentear.

P.S – Recomendo o disco “Ao Jacob, seus bandolins" (CD duplo) e o DVD com o mesmo título, ambos editados pela Biscoito Fino.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Do Jequiá à Praça Tiradentes

A carta de Zé Luiz do Manguezal, um de meus ídolos, me faz olhar pela janela os canteiros de minha rua – que os recuperei, invertendo a função de latrinas a céu aberto para cercadinhos de angios lillium candidum, Lírios de Poetas, aparentado dos Lírios da Paz. Lembro da luta de Zé Luiz pela recuperação do Jequiá, ele me levando em sua canoinha (a Chico Bello) manguezal adentro, mostrando o lado perverso do homem: sucatas de geladeiras e bicicletas, garrafas de plástico, sofás e esqueletos de móveis apodrecendo as águas. Esse é o mesmo Zé Luiz do Manguezal que ainda sonha em levar cultura para seus meninos. Mal sabe ele a grande Escola, portátil e navegável, que ele representa em minha vida. Não sou eu quem me navega.

Não, meu querido Zé, o que posso fazer é isso aí: colocar você (e sua aflição e sonhos e probidade) diante dos visitantes do nosso saite. Prometo que, de alguma forma, tentarei divulgar o seu trabalho. Mas me dê as ferramentas: se o Jequiá, por exemplo, tem um saite que possa ser acessado. Comecemos por aí, certo?

(De qualquer maneira, hoje, 03 de janeiro de 2009, está no jornal a notícia de que a Escola Portátil já abriu as inscrições para o ano que ora se inicia, trovoento.)

Pessoas iluminantes

Pessoas iluminantes iguais a Zé Luiz encontrei vida afora – e uma delas foi Albino Pinheiro. Chovia, quando me tomou pelos braços e fomos caminhar nos entornos da Praça Tiradentes. Ele tinha sido empossado como no diretor do Teatro João Caetano. “Repara quanta gente”, era o comércio fechando às seis da tarde, as pessoas serpenteavam nas filas dos ônibus, esbarrando guarda-chuvas, ou se albergando nos bares, até que São Pedro resolvesse fechar as torneiras do céu. Nascia ali o projeto Seis e Meia, com fórmula simples: um artista mais popular apresentando outro menos conhecido. No caso, a atração era Quelé, Clementina de Jesus. João Bosco, seu convidado. Trinta anos se passaram, e não é coisa pouca. Se meus cabelos já eram brancos, a neve agora baixou de vez. Aos 73 anos, ainda sonho os mesmos sonhos de Zé Luiz e Albino Pinheiro. Nem a praça Tiradentes e nem eu somos os mesmos. As platéias envelheceram. Para onde estão indo os jovens de agora? E quais as diferenças entre esses de agora e aqueles de ontem – quando não havia Internet? E é pela Internet que flagro o quadro desolador: a imunda Baía de Guanabara, que recebe por dia o equivalente a um estádio do Maracanã cheio de lixo até a borda. (Não por acaso, estou relendo o “Saudades do Brasil”, de Claude Lévi-Strauss, cujo centenário foi celebrado em 28 de novembro último. Conta de sua breve visita a São Paulo em 1985, e sua frustrada intenção de visitar a casa onde morara na rua Cincinato Braga: foi retido por um brutal engarrafamento que o impossibilitou rever sua antiga morada. O tráfego já se encontrava em acelerado processo de decomposição.)

As perguntas que me faço

Meu irmão saiu para comprar um laptop pro neto, que está fazendo 10 anos. Teve o cuidado de anexar uma apostila sobre pedofilia, para que os pais da criança se precavessem com esse tipo de aliciamento eletrônico. Eu queria levar o menino a uma livraria e deixá-lo solto para escolher os títulos que quisesse. Não pude fazê-lo, e chove muitissimamente enquanto, dentro da pequena loja, vasculho as prateleiras, folheio livros e mais livros, tentando não errar muito na escolha. Mas são meio previsíveis certas escolhas. Vejo os preços, absurdos, dos livros infanto-juvenis – e aí entendo como é mais barato e confortável para as mães ligarem o aparelho imbecilizador e deixar seus filhos com aquela babá eletrônica.

A idéia da Escola Portátil de Música nasceu mais ou menos uns dois anos antes do espetáculo “O samba é minha nobreza”, em 2002. Lembro disso por causa de Aninha, filha de Luciana Rabello e do poeta Paulinho Pinheiro, e também porque o Pratinha, violão de 7 cordas, se orgulham de ter ido repetidas vezes ao Cine Odeon BR assistir àquele espetáculo. Tinham 14 ou 15 anos, por aí. A Escola Portátil ainda engatinhava, quando já fazíamos sessões extras (as chamadas “sessões pedagógicas”) do “O samba é minha nobreza” para a rede escolar do Rio de Janeiro. Ver aquela horda uniformizada invadindo as sessões me dava uma alegria danada. Eu me via com o uniformezinho da Escola 3-3 Deodoro, freqüentando os concertos da Juventude no Cine Rex e no Municipal e, à tarde indo às aulas de canto orfeônico – e ganhando o bônus de ver o próprio Villa-Lobos, na companhia de sua Mindinha e de Lorenzo Fernandes, inspecionando as classes. Lembro Fernando Pessoa (“E eu era feliz? Não sei: fui-o outrora agora”) e Ataulfo Alves (“Eu era feliz / e não sabia”).

As perguntas que me faço se resumem numa só: o que essa garotada quer ver e ouvir? Acho que foi Roquete Pinto quem disse que a função da Rádio era dar um pouco do que o ouvinte gosta e muito do que ele precisa. Diante da Internet, da profusão de lixo nas programações de rádio e TV, e de um processo de imbecilização movido pelo mercado – eu me pergunto: onde está o medidor para fazer a aferição desses vácuos a serem preenchidos? Meu pensamento volta à Oficina de Coisas, que ministrava na Escola Portátil de Música, e de alguma forma encontro algumas respostas. Olho pela janela e alguém joga uma guimba de cigarro dentro do canteiro. Ouço o gemido dos Lírios.

(Continua)