A carta de Zé Luiz do Manguezal, um de meus ídolos, me faz olhar pela janela os canteiros de minha rua – que os recuperei, invertendo a função de latrinas a céu aberto para cercadinhos de angios lillium candidum, Lírios de Poetas, aparentado dos Lírios da Paz. Lembro da luta de Zé Luiz pela recuperação do Jequiá, ele me levando em sua canoinha (a Chico Bello) manguezal adentro, mostrando o lado perverso do homem: sucatas de geladeiras e bicicletas, garrafas de plástico, sofás e esqueletos de móveis apodrecendo as águas. Esse é o mesmo Zé Luiz do Manguezal que ainda sonha em levar cultura para seus meninos. Mal sabe ele a grande Escola, portátil e navegável, que ele representa em minha vida. Não sou eu quem me navega.
Não, meu querido Zé, o que posso fazer é isso aí: colocar você (e sua aflição e sonhos e probidade) diante dos visitantes do nosso saite. Prometo que, de alguma forma, tentarei divulgar o seu trabalho. Mas me dê as ferramentas: se o Jequiá, por exemplo, tem um saite que possa ser acessado. Comecemos por aí, certo?
(De qualquer maneira, hoje, 03 de janeiro de 2009, está no jornal a notícia de que a Escola Portátil já abriu as inscrições para o ano que ora se inicia, trovoento.)
Pessoas iluminantes
Pessoas iluminantes iguais a Zé Luiz encontrei vida afora – e uma delas foi Albino Pinheiro. Chovia, quando me tomou pelos braços e fomos caminhar nos entornos da Praça Tiradentes. Ele tinha sido empossado como no diretor do Teatro João Caetano. “Repara quanta gente”, era o comércio fechando às seis da tarde, as pessoas serpenteavam nas filas dos ônibus, esbarrando guarda-chuvas, ou se albergando nos bares, até que São Pedro resolvesse fechar as torneiras do céu. Nascia ali o projeto Seis e Meia, com fórmula simples: um artista mais popular apresentando outro menos conhecido. No caso, a atração era Quelé, Clementina de Jesus. João Bosco, seu convidado. Trinta anos se passaram, e não é coisa pouca. Se meus cabelos já eram brancos, a neve agora baixou de vez. Aos 73 anos, ainda sonho os mesmos sonhos de Zé Luiz e Albino Pinheiro. Nem a praça Tiradentes e nem eu somos os mesmos. As platéias envelheceram. Para onde estão indo os jovens de agora? E quais as diferenças entre esses de agora e aqueles de ontem – quando não havia Internet? E é pela Internet que flagro o quadro desolador: a imunda Baía de Guanabara, que recebe por dia o equivalente a um estádio do Maracanã cheio de lixo até a borda. (Não por acaso, estou relendo o “Saudades do Brasil”, de Claude Lévi-Strauss, cujo centenário foi celebrado em 28 de novembro último. Conta de sua breve visita a São Paulo em 1985, e sua frustrada intenção de visitar a casa onde morara na rua Cincinato Braga: foi retido por um brutal engarrafamento que o impossibilitou rever sua antiga morada. O tráfego já se encontrava em acelerado processo de decomposição.)
As perguntas que me faço
Meu irmão saiu para comprar um laptop pro neto, que está fazendo 10 anos. Teve o cuidado de anexar uma apostila sobre pedofilia, para que os pais da criança se precavessem com esse tipo de aliciamento eletrônico. Eu queria levar o menino a uma livraria e deixá-lo solto para escolher os títulos que quisesse. Não pude fazê-lo, e chove muitissimamente enquanto, dentro da pequena loja, vasculho as prateleiras, folheio livros e mais livros, tentando não errar muito na escolha. Mas são meio previsíveis certas escolhas. Vejo os preços, absurdos, dos livros infanto-juvenis – e aí entendo como é mais barato e confortável para as mães ligarem o aparelho imbecilizador e deixar seus filhos com aquela babá eletrônica.
A idéia da Escola Portátil de Música nasceu mais ou menos uns dois anos antes do espetáculo “O samba é minha nobreza”, em 2002. Lembro disso por causa de Aninha, filha de Luciana Rabello e do poeta Paulinho Pinheiro, e também porque o Pratinha, violão de 7 cordas, se orgulham de ter ido repetidas vezes ao Cine Odeon BR assistir àquele espetáculo. Tinham 14 ou 15 anos, por aí. A Escola Portátil ainda engatinhava, quando já fazíamos sessões extras (as chamadas “sessões pedagógicas”) do “O samba é minha nobreza” para a rede escolar do Rio de Janeiro. Ver aquela horda uniformizada invadindo as sessões me dava uma alegria danada. Eu me via com o uniformezinho da Escola 3-3 Deodoro, freqüentando os concertos da Juventude no Cine Rex e no Municipal e, à tarde indo às aulas de canto orfeônico – e ganhando o bônus de ver o próprio Villa-Lobos, na companhia de sua Mindinha e de Lorenzo Fernandes, inspecionando as classes. Lembro Fernando Pessoa (“E eu era feliz? Não sei: fui-o outrora agora”) e Ataulfo Alves (“Eu era feliz / e não sabia”).
As perguntas que me faço se resumem numa só: o que essa garotada quer ver e ouvir? Acho que foi Roquete Pinto quem disse que a função da Rádio era dar um pouco do que o ouvinte gosta e muito do que ele precisa. Diante da Internet, da profusão de lixo nas programações de rádio e TV, e de um processo de imbecilização movido pelo mercado – eu me pergunto: onde está o medidor para fazer a aferição desses vácuos a serem preenchidos? Meu pensamento volta à Oficina de Coisas, que ministrava na Escola Portátil de Música, e de alguma forma encontro algumas respostas. Olho pela janela e alguém joga uma guimba de cigarro dentro do canteiro. Ouço o gemido dos Lírios.
(Continua)
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Uma reflexão
Minha saudosa amiga Eneida de Moraes procurava responder a todas as cartas recebidas e comparecer a todos os eventos a que era convidada. Seu corpo repousa hoje em Belém do Grão Pará, num túmulo que ela desejava localizado sob uma mangueira bem frondosa, e com a lápide ostentando o epitáfio que ditou em vida: “Essa mulher nunca topou chantagem”.
Hoje o tempo é curto, e lançamentos e exposições se multiplicaram ao infinito, impedindo que se vá abraçar o amigo escritor ou aquele outro que tomou posse na Academia de Letras (releve a ausência, meu querido Luiz Carlos Horta), o artista plástico que inaugura uma nova fase (alô, João Magalhães!) ou comparecer a uma estréia imperdível. Minha Eneida enlouqueceria com essa nova demanda, estimulada pela Internet.
Os construtores do saite Acervo HBC informam já fora contabilizados 15.000 acessos, e me parece que o número não é desprezível. “Precisamos de um novo texto de abertura”, recebo a ordem, sob a chibata do editor.
Desejo apenas explicar, como se preciso fosse, que sou repetitivo. Mas não aplico a técnica nazista de Goebbels, a de que a reiteração de uma mentira acaba por tornando-a verdade-verdadeira. Mas, volta-e-meia, me vejo xerocando antigas idéias (prefiro chamá-las de bordões) ao digitar meus textos – e você mesmo já estará se acautelando (“Xi, lá vem ele com o ‘é preciso abrasileirar o brasileiro’). Comecemos por esse aí, que se infiltra na maioria dos textos que redijo. Antes de tudo, vamos logo esclarecer que esse quase aforismo eu o pincei de uma das primeiras cartas endereçadas por Mário de Andrade a Carlos Drummond (também) de Andrade. O “A mentira é a verdade provisória”, outro dos meus bordões, foi descaradamente copiado de Salomão e, por amor à verdade, tenho que dividir os créditos com Dame Aracy de Almeida, Arquiduquesa do Encantado, que me forneceu o mote original: “o lábio da verdade ficará pra sempre, mas a língua mentirosa dura um só momento”.
Portanto, os néscios poderão pespegar mais um rótulo aos inúmeros que carrego na vida: o de plagiador, ou a de produtor de bordões claramente absorvidos de autores alheios. A Salomão e Mário de Andrade, minhas desculpas.
Enfim, preciso produzir um novo texto, porque o anterior já caducou. Mas, e finalizando a questão nele abordada, esclareço que, ao contrário do que noticiou O Globo, não procurei o Sergio Mamberti. Mas acho legítima a postulação, que escorre e transborda pelas veias da Internet, para ocupação do cargo de Diretor da Divisão de Música Popular da Funarte. Mas que não se engalfinhem os postulantes, recomendo. Exibam um currículo musculoso nos termos competência e probidade, e boa sorte. (Estou rezando pra que a ocupação do tal cargo não seja uma “cota do PT”, como me informou um dos postulantes. Apenas uma dúvida: o cargo tão disputado... está vago?) Fim.
Dito isto, passo adiante um e-mail recebido de meu querido Zé Luiz do Manguezal, que há dezenas de anos luta pela preservação do Jequiá, que ele cuida espalhando milhares de mudas de mangue-sapateiro, lá na Colônia Z-10 de Pescadores, na Ilha do Governador do Rio de Janeiro. Sabemos que os manguezais são oxigenadores das águas, e que os predadores estão aí transformando em lixeiras a céu aberto aquelas pequenas trincheiras mantidas por sonhadores iguais a Zé Luiz.
E esclareço que, a partir do próximo parágrafo, faço uma reflexão que se originou do e-mail enviado pelo meu amigo: “Meu poeta, amigo e pai, desculpe te incomodar. Gostaria de saber a possibilidade de trazer para o jequiá uma escola portátil de música ou coisa similar. Nossas crianças estão precisando de algo cultural. Nós não conseguimos mais um patrocínio para o Siri na Lata. Então pensei se o amigo teria como ajudar com idéias novas. Abraços do Zé Luiz”.
(Continua)
Hoje o tempo é curto, e lançamentos e exposições se multiplicaram ao infinito, impedindo que se vá abraçar o amigo escritor ou aquele outro que tomou posse na Academia de Letras (releve a ausência, meu querido Luiz Carlos Horta), o artista plástico que inaugura uma nova fase (alô, João Magalhães!) ou comparecer a uma estréia imperdível. Minha Eneida enlouqueceria com essa nova demanda, estimulada pela Internet.
Os construtores do saite Acervo HBC informam já fora contabilizados 15.000 acessos, e me parece que o número não é desprezível. “Precisamos de um novo texto de abertura”, recebo a ordem, sob a chibata do editor.
Desejo apenas explicar, como se preciso fosse, que sou repetitivo. Mas não aplico a técnica nazista de Goebbels, a de que a reiteração de uma mentira acaba por tornando-a verdade-verdadeira. Mas, volta-e-meia, me vejo xerocando antigas idéias (prefiro chamá-las de bordões) ao digitar meus textos – e você mesmo já estará se acautelando (“Xi, lá vem ele com o ‘é preciso abrasileirar o brasileiro’). Comecemos por esse aí, que se infiltra na maioria dos textos que redijo. Antes de tudo, vamos logo esclarecer que esse quase aforismo eu o pincei de uma das primeiras cartas endereçadas por Mário de Andrade a Carlos Drummond (também) de Andrade. O “A mentira é a verdade provisória”, outro dos meus bordões, foi descaradamente copiado de Salomão e, por amor à verdade, tenho que dividir os créditos com Dame Aracy de Almeida, Arquiduquesa do Encantado, que me forneceu o mote original: “o lábio da verdade ficará pra sempre, mas a língua mentirosa dura um só momento”.
Portanto, os néscios poderão pespegar mais um rótulo aos inúmeros que carrego na vida: o de plagiador, ou a de produtor de bordões claramente absorvidos de autores alheios. A Salomão e Mário de Andrade, minhas desculpas.
Enfim, preciso produzir um novo texto, porque o anterior já caducou. Mas, e finalizando a questão nele abordada, esclareço que, ao contrário do que noticiou O Globo, não procurei o Sergio Mamberti. Mas acho legítima a postulação, que escorre e transborda pelas veias da Internet, para ocupação do cargo de Diretor da Divisão de Música Popular da Funarte. Mas que não se engalfinhem os postulantes, recomendo. Exibam um currículo musculoso nos termos competência e probidade, e boa sorte. (Estou rezando pra que a ocupação do tal cargo não seja uma “cota do PT”, como me informou um dos postulantes. Apenas uma dúvida: o cargo tão disputado... está vago?) Fim.
Dito isto, passo adiante um e-mail recebido de meu querido Zé Luiz do Manguezal, que há dezenas de anos luta pela preservação do Jequiá, que ele cuida espalhando milhares de mudas de mangue-sapateiro, lá na Colônia Z-10 de Pescadores, na Ilha do Governador do Rio de Janeiro. Sabemos que os manguezais são oxigenadores das águas, e que os predadores estão aí transformando em lixeiras a céu aberto aquelas pequenas trincheiras mantidas por sonhadores iguais a Zé Luiz.
E esclareço que, a partir do próximo parágrafo, faço uma reflexão que se originou do e-mail enviado pelo meu amigo: “Meu poeta, amigo e pai, desculpe te incomodar. Gostaria de saber a possibilidade de trazer para o jequiá uma escola portátil de música ou coisa similar. Nossas crianças estão precisando de algo cultural. Nós não conseguimos mais um patrocínio para o Siri na Lata. Então pensei se o amigo teria como ajudar com idéias novas. Abraços do Zé Luiz”.
(Continua)
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