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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Os 7 Mandamentos

01. Não pense pequeno, que isso é próprio dos medíocres e dos covardes.

02. Trabalhe em equipe: a capacidade de germinação se amplia.

03. Convoque os mais honestos e competentes, deixando de lado os invejosos e os carreiristas de poder (lembre-se que ele é sempre provisório). Desconfie dos bajuladores e dos muito falantes, que nem sempre são os mais operosos. São surfistas do poder, que sobrevivem de futricas e agem sempre à sombra. Abra espaço para gente nova. Oxigenar as idéias é sempre estimulante.

04. Não tenha medo da concorrência. Se você encontrar alguém mais competente do que você, aprenda com ele. Você vai crescer mais. Também não tenha medo de copiar uma boa idéia. Mas não se esqueça de dar o crédito a quem a gerou. Lembre-se: ninguém é absolutamente genial para criar todos os dias uma coisa nova. Não se esqueça também de que seus delírios são pagos pelo contribuinte. Mas sonhe sempre, cultive utopias.

05. Não respeite quem sonega informação, engavetando-a ou guardando-a só para si. Desconfie daquele que não ensina jamais o chamado “pulo do gato”. Quem assim procede está praticando um crime de lesa-cultura. Acredite: o meretrício e o genocídio cultural existem sim e em doses industriais e deliberadamente alienantes. Se você desconfiar de algum mal-feito, bote a boca no trombone para não ser conivente. Ninguém é tão poderoso assim que não consiga se desestabilizar diante de uma denúncia bem fundamentada.

06. Vá pelo caminho alternativo. Faça com que seu projeto tenha efeito multiplicador, e que seus eventos gerem resíduos (é assim que se faz memória: através do registro do fato). Procure parcerias. Não acredite naqueles que pregam que o povo não gosta de coisa boa e que toda juventude é alienada. Desconfie muito de quem despreza os mais velhos. Aprenda com os índios que veneram seus pajés e com eles se aconselham. Mário de Andrade era um pajé.

07. Acredite: cultura é matéria de segurança nacional, nossa música é um bem ecológico. Pense grande. Pense bonito. Pense brasileiro.

HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO




***
Descobri o texto acima nos guardados do poeta e compositor Hermínio Bello de Carvalho. O documento não possui data, tampouco o autor soube me precisar quando o escreveu. Mas podemos dizer, quase com completa certeza, que é do período (1977-1989) em que Hermínio foi diretor da Divisão de Música Popular Brasileira da Funarte, onde, entre tantas ações memoráveis, criou o Projeto Pixinguinha. O texto original se dirigia aos seus colaboradores naquela instituição. Acredito que todos os mandamentos permanecem atualíssimos e devem ser compartilhados por quem trabalha direta ou indiretamente com a cultura.

ALEXANDRE PAVAN

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um matulão de notícias (2) - Lélia Coelho Frota

Antropóloga, amiga querida, colega de trabalho nos tempos da Funarte – que beleza a introdução que Lélia faz ao belo e imprescindível livro “Mário de Andrade: cartas de trabalho”, epistolografia que revela a importância de febril atuação de meu guru frente à criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico, redator que foi do anteprojeto que daria vida àquele órgão. Ele e Rodrigo Mello Franco cimentaram os alicerces do SPHAN. “Mario de Andrade tinha por principio fazer circular o seu conhecimento múltiplo pelas diversas áreas do saber em que atuou”, destaca Lélia em seu texto.

A cultura tem que circular, é um bordão que adotei há alguns anos, talvez inspirado nesse pequeno parágrafo que pincei da preciosa introdução que a saudosa antropóloga fez para aquele maço de cartas de trabalho.
Perdemos Lélia há poucos meses, depois de uma longa batalha contra o câncer. Iria escrever o prefácio do livro que, desde o principio, me estimulou fazer: trazer a público minha correspondência com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Será um trabalho revelador, pelo menos num aspecto: a atenção que nosso maior poeta dava a um animador cultural que tentava seguir, numa escala reduzidíssima, a trilha traçada pelo grande Mário.

Hoje não se discute política cultural, que aliás tornou-se desimportante desde a era Collor, quando ele extirpou o Ministério da Cultura do organograma governamental. Viria depois o grande Aloísio Magalhães, o último a pensar e executar um projeto cultural que encontrou um forte esteio na Funarte, com seus diversos institutos atuando em nível nacional. Veio daí o Projeto Pixinguinha, cria do berço esplêndido de outro projeto, o “Seis e Meia”, idealizado por Albino Pinheiro. O Pixinguinha, projeto cuja exemplaridade era ressaltada pelo professor Celso Furtado, foi decepado do leque de projetos da atual Funarte. Seu algoz é o atual ministro, que o substituiu pelos chamados Pontos de Cultura que, reconheçamos, atende pelo menos alguns programas pontuais que atuam fora do vicioso eixo Rio-São Paulo.

Está em curso uma guerra pouco santa: uma disputa feroz pelo cargo de Ministro da Cultura do Governo Dilma Rousseff. A Secretária Estadual dessa pasta no Rio de Janeiro está, pelo que leio no “O Globo”, empenhada em prorrogar por mais quatro anos o mandato do titular da pasta, que a ocupou por oito anos, revezando-se com Gilberto Gil. Seria um mandato quase tão longevo quanto o do ministro Gustavo Capanema, na era Vargas.

“Fazer circular o seu conhecimento”, volto à querida Lélia Coelho Frota para expressar meu desencanto com a nossa área cultural. Porque vivo cercado de jovens compositores, instrumentistas, cantores – todos à margem de um mercado cada vez mais afunilado e também asfixiado pela indiferença dos poderes. Lembro, a propósito, quantos “filhotes” do “Seis e Meia” foram gerados pelo Brasil afora, escancarando o mercado de trabalho dos músicos. O Projeto Pixinguinha consolidaria essa conquista, há dois anos decepada pelo atual Ministro da Cultura.

Circular, circular.

O novo ministro há que ter uma visão holística desse Brasil de tantas e diferenciadas culturas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Uma reflexão

Minha saudosa amiga Eneida de Moraes procurava responder a todas as cartas recebidas e comparecer a todos os eventos a que era convidada. Seu corpo repousa hoje em Belém do Grão Pará, num túmulo que ela desejava localizado sob uma mangueira bem frondosa, e com a lápide ostentando o epitáfio que ditou em vida: “Essa mulher nunca topou chantagem”.

Hoje o tempo é curto, e lançamentos e exposições se multiplicaram ao infinito, impedindo que se vá abraçar o amigo escritor ou aquele outro que tomou posse na Academia de Letras (releve a ausência, meu querido Luiz Carlos Horta), o artista plástico que inaugura uma nova fase (alô, João Magalhães!) ou comparecer a uma estréia imperdível. Minha Eneida enlouqueceria com essa nova demanda, estimulada pela Internet.

Os construtores do saite Acervo HBC informam já fora contabilizados 15.000 acessos, e me parece que o número não é desprezível. “Precisamos de um novo texto de abertura”, recebo a ordem, sob a chibata do editor.

Desejo apenas explicar, como se preciso fosse, que sou repetitivo. Mas não aplico a técnica nazista de Goebbels, a de que a reiteração de uma mentira acaba por tornando-a verdade-verdadeira. Mas, volta-e-meia, me vejo xerocando antigas idéias (prefiro chamá-las de bordões) ao digitar meus textos – e você mesmo já estará se acautelando (“Xi, lá vem ele com o ‘é preciso abrasileirar o brasileiro’). Comecemos por esse aí, que se infiltra na maioria dos textos que redijo. Antes de tudo, vamos logo esclarecer que esse quase aforismo eu o pincei de uma das primeiras cartas endereçadas por Mário de Andrade a Carlos Drummond (também) de Andrade. O “A mentira é a verdade provisória”, outro dos meus bordões, foi descaradamente copiado de Salomão e, por amor à verdade, tenho que dividir os créditos com Dame Aracy de Almeida, Arquiduquesa do Encantado, que me forneceu o mote original: “o lábio da verdade ficará pra sempre, mas a língua mentirosa dura um só momento”.

Portanto, os néscios poderão pespegar mais um rótulo aos inúmeros que carrego na vida: o de plagiador, ou a de produtor de bordões claramente absorvidos de autores alheios. A Salomão e Mário de Andrade, minhas desculpas.

Enfim, preciso produzir um novo texto, porque o anterior já caducou. Mas, e finalizando a questão nele abordada, esclareço que, ao contrário do que noticiou O Globo, não procurei o Sergio Mamberti. Mas acho legítima a postulação, que escorre e transborda pelas veias da Internet, para ocupação do cargo de Diretor da Divisão de Música Popular da Funarte. Mas que não se engalfinhem os postulantes, recomendo. Exibam um currículo musculoso nos termos competência e probidade, e boa sorte. (Estou rezando pra que a ocupação do tal cargo não seja uma “cota do PT”, como me informou um dos postulantes. Apenas uma dúvida: o cargo tão disputado... está vago?) Fim.

Dito isto, passo adiante um e-mail recebido de meu querido Zé Luiz do Manguezal, que há dezenas de anos luta pela preservação do Jequiá, que ele cuida espalhando milhares de mudas de mangue-sapateiro, lá na Colônia Z-10 de Pescadores, na Ilha do Governador do Rio de Janeiro. Sabemos que os manguezais são oxigenadores das águas, e que os predadores estão aí transformando em lixeiras a céu aberto aquelas pequenas trincheiras mantidas por sonhadores iguais a Zé Luiz.

E esclareço que, a partir do próximo parágrafo, faço uma reflexão que se originou do e-mail enviado pelo meu amigo: “Meu poeta, amigo e pai, desculpe te incomodar. Gostaria de saber a possibilidade de trazer para o jequiá uma escola portátil de música ou coisa similar. Nossas crianças estão precisando de algo cultural. Nós não conseguimos mais um patrocínio para o Siri na Lata. Então pensei se o amigo teria como ajudar com idéias novas. Abraços do Zé Luiz”.

(Continua)

Em defesa do Projeto Pixinguinha

(Carta aberta ao Ministro Juca Ferreira – originalmente publicada em outubro/2008)

Poderia usar um artifício em defesa do Projeto Pixinguinha, fazendo uma colagem dos textos de Gilberto Gil defendendo aquele programa cultural nos catálogos editados pela Funarte – mas acho que você conhece fartamente o pensamento do ministro recém demissionário. E o você, no caso, não subtrai o respeito ao cargo de ministro, mas sim uma absoluta dificuldade em fazer salamaleques, ou mesmo usar de adjetivos hipócritas - que seriam logo desvendados, talvez pela falta de prática no ofício. Se há quase 50 anos eu já reverenciava Pixinguinha e Cartola, a vida me deu oportunidade de prestar atenção aos talentos que iriam enriquecer (não no sentido vil da palavra) a minha vida, possibilitando me tornar parceiro de vultos geniais iguais àqueles dois. O Projeto que leva o nome de Pixinguinha faz parte desses ritos reverenciais – assim como outros projetos que deixei aí na Funarte que, nem na época da ditadura, sofreu com episódios como os que aconteceram recentemente.

Também esse aprendizado me fez conhecer Clementina de Jesus, tão representativa na minha vida quanto o foi Chico Antonio, o cantador que a Mário de Andrade tanto impressionou. A arte de prestar atenção você pode constatá-la num texto meu de 1966, na contracapa do Lp "Muito Elizeth", no qual pedia que reparassem num jovem compositor que estava surgindo - esse mesmo Gilberto Gil que, depois Ministro, permitiu que a chama do projeto fosse reacesa na administração do Grassi. Que não se enxergue hipocrisia ou adulação quando o cultuo como o grande artista que nunca deixará de ser (acima de poderes ministeriais provisórios). E também como um colega de profissão, que veio em minha casa quando fundamos a Sombrás, isso há 30 anos, para deixar uma procuração que eu, vice do então presidente Tom Jobim, o representasse nas lutas pela moralização dos direitos autorais, numa época em que éramos assediados pela censura, no rastro do AI-5, que a Gil e Caetano aprisionou indecentemente.

Não, decididamente não creio que Gilberto Gil tenha renegado seus textos em favor do projeto ou anulado, moralmente, a referida procuração. Quanto à extinção do Pixinguinha, logo anunciada na troca de Ministros, soa como traição ou insubordinação aos ideais daquele importante músico.

No ano passado, quando fui chamado para fazer a curadoria do Pixinguinha, não imaginava que, na verdade, estavam me entregando uma urna ainda vazia, na qual iriam depositar as cinzas daquele Projeto. Aceitei o cargo sob algumas condições: que reativassem também os projetos Lúcio Rangel de Monografias e o Radamés Gnattali (discos paradidáticos), além de propor a reabertura da Sala Sidney Miller e a reedição de livros do grande Jota Efegê.

Me senti traído quando o Projeto Pixinguinha foi extinguido e mutilado, e a edição dos livros de Jota Efegê não ganharam a merecida distribuição. Mau uso do dinheiro público, fazendo reverter ao ostracismo aquelas reedições. E as outras promessas feitas? Caíram no ossário do esquecimento. Também me impressionou o clima de terrorismo que encontrei infestando aquela Casa.

É consenso que a utilização da mesma marca Pixinguinha num projeto totalmente inverso ao original foi manobra que a ninguém iludiu. É a máquina pública modorrenta e preguiçosa, viveiro de incompetentes moscas varejeiras que infectam de burocracia o fazer cultural. E criminosamente extirparam a principal característica daquele programa apoiado por Gil: a circulação da música brasileira por todo o país. Cultura que não circula morre de inanição, é devolvida ao anonimato.
Assim como confiei em Gil em 1966, não haveria porque não dar crédito àqueles que executavam sua política cultural, com especial destaque para os textos em que defendia o Projeto. Ou seriam apócrifos?

Portanto, não poderia dormir direito com minha consciência se não viesse lembrá-lo que estar Ministro até 2010 não o desonera de fazer cumprir o que foi prometido pela gestão anterior que comandava a Funarte.

É a homenagem que presto à minha consciência, ao não me silenciar diante de tais iniqüidades. Estou certo de que você, igualmente avesso a desajeitados salamaleques, há de compreender que o ano e pouco que ainda terá à frente do Ministério da Cultura o obrigará a um olhar reflexivo sobre esse ato de vandalismo e genocídio cultural que vem dizimando aqueles que ainda reverenciam a palavra empenhada e se sentem desrespeitados por esse caos.

Atenciosamente,
Hermínio Bello de Carvalho