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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Confessando (também) meus fracassos

Quero confessar, o mais descaradamente possível, que vou plagiar o antropólogo Darcy Ribeiro. É que ele, ao receber o titulo de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, em 1978, resolveu escancarar suas desilusões políticas e culturais, num caudaloso discurso – magnífico! – que, infelizmente, não dá como reproduzir aqui. E justifica: “em lugar de louvações me pus a lamentar, modesto, os fracassos de minha vida inteira”. E explica: “falsos fracassos, logo se vê. Modéstia mais falsa ainda. Num golpe de mágica assumi, imperialmente, os fracassos do Brasil na luta para apossar-se de si mesmo, fazendo deles fracassos meus. Meus e dos brasileiros todos, disse eu lá no heráldico salão das grandes escadarias”.


Na impossibilidade de transcrever o discurso, esclareço que o Educador não deixou barato. Expôs sua trajetória, mas ressaltando que quase todas suas iniciativas nas áreas de educação e antropologia foram acompanhadas de enormes desilusões. Lembremos que Darcy criou a Universidade de Brasília, ao lado de Oscar Niemayer e Lucio Costa, colaborou com os Irmãos Villas-Boas na criação do Parque Indígena do Xingu, foi viver suas experiências entre os índios, foi Secretário de Estado, depois Ministro da Educação. Anisio Teixeira o aproximou da temática pedagógico-educacional, semente dos futuros Cieps em sua concepção original: a criançada entrando nas escolas, estudando, fazendo esportes, se alimentando e voltando para casa no final da tarde. Depois o Golpe Militar de 64 cassou seus direitos, e foi fazer política e pregar cultura e educação pela América Latina. Seus “fracassos” se localizam em áreas que sofreram regressão ou abandono ou interesses políticos – como é o caso específico dos Cieps.

Admirável a personalidade do educador, de palavrório solto – e é lá. No admirável “Testemunho”, recém editado pela EUB, que vou catar um trecho delicioso: “Falar de mim mesmo é a tarefa que mais me agrada e gratifica. Todo entrevistador de rádio, jornal ou televisão sabe que nem é preciso me fazer pergunta; basta ligar o gravador e me deixar falar, que falo. Incansavelmente. Para mim, pelo menos”. Grande Darcy!

Finjo que estou na Sorbonne, me reduzo à condição de um simples ativista cultural brasileiro, e aqui venho lamentar alguns dos fracassos colhidos ao longo de quase 75 anos de vida, 2/3 dela no ofício espinhoso de jardineiro de sonhos e utopias.

CLEMENTINA DE JESUS

Há quem viva navegando na tênue nuvem do sucesso, com memória superseletiva que abomina lembrar uma outra escadaria, maior do que a de Sorbonne de Darcy, aquela que passo a passo, igual aos romeiros da Igreja da Penha, esfolamos nossos joelhos em busca de uma graça prometida. Às vezes, cura de uma doença ou moléstia tão grave que é falta de dinheiro. Mas há quem galgue as escadas para implorar um espaço qualquer num pódio que a indústria cultural reserva para pouquíssimos. “Sucesso, quero fazer sucesso!” – gritam, desesperados (e esfolados).

Vamos, pois, desafiar o rosário. E começando por Mãe Quelé, aproveitando o mote do antropólogo. Dele recolho uma frase admirável: “Clementina (de Jesus) é a voz dos milhões de negros desfeitos no fazimento do Brasil. Poderosa voz anunciadora do brasileiro que, amanhã, se assumirá como povo mulato, mais africano que lusitano”. Fez mais: abriu as portas do Municipal para homenageá-la, embora eu continue achando um equívoco. A imaterialidade do canto de Clementina transcende o patrimônio físico representado por aquele teatro. Se houve alguma simbologia no ato de homenageá-la naquela casa, faltou-me explicação.

Lembro quando o município de Valença resolveu homenagear a memória de Clementina, erigindo um busto em praça pública. Cá estou diante da doce professora Dilma Dantas, então Assessora de Cultura, que veio sem explicar como se daria a inauguração. Expus o seguinte: busto em praça pública só serve pra pombo cagar em cima. Por que não um livro sobre Clementina, para que os jovens pudessem entender a trajetória daquela iluminada personagem valenciana? “Seria caro!” – e expliquei que não, e nos juntamos a Lena Frias, a Nei Lopes e Paulo César de Andrade – e entregamos nossos textos totalmente de graça. E, enfim, o livro foi editado com baixíssimo custo industrial.

Clementina, enfim, foi um dos meus fracassos. A voracidade de alguns herdeiros é bastante conhecida, e os de Clementina não fogem à regra. O livro nunca pôde ser reeditado, assim como os discos de Clementina sofreram uma só reedição, patrocinada pela Petrobras. “Ninguém vai querer comprar”, explicou a gravadora. Há pouco tempo, retribuindo gentileza de Eduardo Escorel que me mandou uma cópia do documentário que fez sobre Chico Antonio, mandei-lhe a penúltima caixa que ainda possuía com dez CDs de Mãe Quelé. Sua memória ficou restrita a poucos.

ANTONIO CANDIDO E SEUS PERSONAGENS SECUNDÁRIOS

Há pouco tempo, e acho que já contei isso aqui, fui assistir a uma palestra do professor Antonio Candido. Era o lançamento da epistolografia de Mário de Andrade com o fazendeiro Pio Correia. O professor foi logo esclarecendo: não gostava de falar dos chamados protagonistas, de resto quase sempre muito conhecidos e incensados. Preferia os “personagens secundários”. No caso, o fazendeiro Pio e o pai de Mário. Deu-se o clarão: minha vida inteira a dediquei a esses personagens marginalizados pelo sistema, e reduzo a lista a Clementina de Jesus e Valzinho para não me tornar (mais) cansativo.

Outro dos meus fracassos eu o relembro em função do esclarecimento prestado por Antonio Candido, e se relaciona à ex-TVE, hoje TV Brasil. Nela produzi centenas de programas, sempre colocando meus personagens secundários em destaque, já que estavam compulsoriamente afastados pelas emissoras de TV, que os desejava mais glamurosos e não necessariamente portadores de conteúdo – pois até hoje a grande maioria das emissoras de rádio e televisão age com esse critério seletivo. Uma das poucas exceções é Cartola, que foi catapultado da obscuridade através de sua genialidade, assim como Pixinguinha. Inquestionáveis, não havia como barrá-los.

Expliquemos o fracasso: mandei carta para Tereza Cruvinel, atual presidente da TV Brasil, denunciando um fato que me prece no mínimo escandaloso. Boa parte do acervo de programas que estava se deteriorando nos arquivos da então TVE foi recuperado graças ao apoio financeiro recebido da Petrobras. Finalizado o trabalho (tenho em mãos a relação do acervo recuperado) todo o material foi devolvido aos depósitos onde haviam mofado. Ou seja: devolvidos ao anonimato.

PROJETO PIXINGUINHA: RELEMBRANDO UMA CAFAJESTICE CULTURAL

Outro fracasso se deu há quase dois anos, quando fui chamado para fazer a curadoria dos 30 anos do Projeto Pixinguinha. Apresentei contraproposta para aceitação ao convite: a reedição de alguns projetos, inclusive o Lucio Rangel de Monografias, e, sobretudo, o Radamés Gnattali – um projeto na época gerenciado por Roberto Gnattali e Luiz Otávio Braga, com edição de discos paradidáticos. Como já foi declarado abertamente na época pela imprensa, fui torpemente enganado. Já havia um projeto de sepultamento do Projeto Pixinguinha, e eu, sem querer, fui chamado solertemente para celebrar suas exéquias. Mais um fracasso.

EVENTO PARA MIM É VENTO, UM ATO EVENTUAL QUE NÃO DEIXA RESIDUOS

Não mudando de assunto, que ele ainda não acabou, quero falar sobre o mercado da música, e de uma multidão de jovens artistas que tentam um espaço nas megavitrines representados pelos teatros municipais e estaduais, que antes abrigaram projetos como o Pixinguinha e o Seis-e-Meia, do Albino Pinheiro. Bom, a prefeitura inaugurou o “Sete em ponto”, semanal, no Teatro Carlos Gomes. O fechamento temporário do Municipal para obras fez com que as agendas dos demais teatros municipais ficassem congestionadas, recebendo a programação destinada àquele templo da música. Tudo bem. Ele vai reabrir, reequipadíssimo. O João Caetano já passou por uma parcial reforma (até com cadeiras para obesos e elevador para deficientes, como ordena a lei). A Sala Cecilia Meirelles vai, enfim, entrar em obras – e tomara que os dois prédios a ela vizinhos sejam igualmente recuperados, com suas fachadas deslumbrantes.

Mas o que anda me incomodando, e muito, é a falta de registro de projetos, programas e eventos da maior importância, que simplesmente caem no esquecimento por falta de um resíduo cultural que ele poderia provocar, se interesse houvesse das telemissoras ditas culturais ou educativas. São espetáculos importantes que, ensaiados durante meses, acabam se perdendo na memória. Dou como exemplo o tributo prestado a Luis Carlos da Vila na Praça Mauro Duarte, no bairro de Botafogo (RJ). Se você perdeu, como perdi, aquele evento, entenderá minha insatisfação. Tudo que não se registra se perde, há anos venho repisando o que tantos já se cansaram de advertir. O lógico é que um dos teatros municipais ou estaduais acolhessem essas propostas e, conveniados com uma rede televisiva federal, municipal ou estadual, fizessem o registro do é-vento, permitindo sua futura acessibilidade por parte do público. Bem, vamos ampliar a queixa: já repararam nos horários tardios em que esses registros (poucos) entram nas grades de programação?

ATÉ SANGRAR

Já havia me aposentado como produtor de discos quando Olívia Hime sugeriu que se produzisse um disco de Áurea Martins. Chamei Zé-Maria Camiloto Rocha para co-produzir o “Até sangrar”, que resultou no prêmio (ex-Tim, ex-Sharp) de melhor cantora de 2009 para Áurea. Desde então, venho tentando abrir um espaço para celebrar essa premiação. Afinal, Áurea só havia recebido um prêmio na vida, quando venceu o concurso “A grande chance”, há 45 anos. Promessas aqui e ali, e nada de concreto. Não, não computo esse desapontamento como um fracasso. Áurea foi consagrada com inúmeras críticas nos jornais, menos, é claro, nas revistas semanais tipo “Veja”, “Istoé’, “CartaCapital” – e façamos justiça à essa última publicação: o Pedro Alexandre Sanches escreveu uma longa matéria sobre o livro que escancara os preconceitos em torno das cantoras negras, mas com um lapso de amnésia indesculpável esqueceu-se, apenas, de comentar que nem ele publicou nenhuma resenha crítica sobre o “Até sangrar” naquela revista.

EM CONTRAPARTIDA...

Não vamos trabalhar com a regra (um mercado musical multifacetado, com os olhos voltados para a cultura descartável), mas lançar também um olhar despreconceituoso e mais atento às exceções dessa regra. Pedi a uma querida ex-aluna da Oficina de Coisas da Escola Portátil de Música, Gabriela Buarque, que me enviasse um texto falando de sua luta para abrir espaço para ela e também para outros novos valores. Vamos lá:

“Semana passada me fizeram uma pergunta sobre os espaços do Rio de Janeiro para novos compositores. Na tentativa de fugir do padrão de resposta “só reclama e não faz nada para mudar” – que vem se multiplicando nos depoimentos de meus colegas de trabalho – comecei a enumerar alguns locais que nos são mais acessíveis. Sem qualquer espanto do entrevistador, depois de três referências, não me recordava de mais nenhum. Raras e preciosas iniciativas como a da ARPUB (Associação das Rádios Públicas do Brasil) devem ser louvadas. A promoção de seu I Festival de Música levou às Rádios MEC e Nacional composições inéditas da nova geração na tentativa de revigorar a canção brasileira que, a esta altura, até ameaça de extinção sofrera. Fico pensando o que seria dos consagrados nomes da nossa música não fossem os veículos de massa da época para divulgar seus trabalhos e incentivá-los através de grandes festivais, das rádios e outras mídias. Interesses políticos à parte, tais manifestações alavancaram fulanos como Chico, Caetano, Gil, Elis, Nara e tantos desconhecidos até então. Sobreviveriam os mesmos nos dias de hoje? O cenário atual, cuja a quantidade de informação ultrapassa a capacidade mínima de absorção e entendimento, vem transformando artistas e suas mais admiráveis peculiaridades em produtos descartáveis e obsoletos a cada segundo que passa. O artista que, há alguns anos, lotava um teatro, por exemplo, atualmente busca soluções de marketing para atrair o público. Nunca foi tão importante a presença de convidados ‘especiais’ e depoimentos de terceiros para agregar valor à sua imagem e, por conseguinte, ao seu CD. É, no mínimo, paradoxal que, diante de tamanha riqueza, não haja interesse público em divulgar e preservar esse material. As salas de concerto do Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil são as choperias cariocas, aonde, eu lhes asseguro, a última coisa que se deseja é ouvir música. É lamentável que parta de nós a defesa e propagação da música popular brasileira."
Gabriela Buarque (16/11/2009)
Claro, o assunto não se encerra aqui. Por uma questão de justiça, temos que louvar instituições que mantém programas culturais em seus calendários. O Centro Cultural do Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o BNDES, a Petrobras, o Sesc e secretarias municipais e estaduais de cultura que administram generosos espaços culturais.

Voltaremos ao assunto.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Novidadeiro

Ando em falta com os amigos que acessam este saite. Sei que parece descaso abrir a tela do computador e encontrar o mesmo texto de abertura do nosso www, e não esbarrar com uma palavrinha novidadeira e/ou algumas dicas interessantes.

Mas estamos abertos a sugestões. Um amigo fala de “gavetas fora do lugar”, e não sei o que isso significa em termos internáuticos (ou internéticos?). Quero apenas ressaltar que sou responsável pelas informações que legendam, por exemplo, o link relativo às músicas (player).

Mas devo confessar uma falta bem mais grave: a minha absoluta falta de familiaridade com a Internet. Não é a-tôa que eu mesmo já me autodenominei de “anta cibernética”. Mas os construtores do nosso saite vão fazer um seminário intensivo, que me permita interferir no processo, por exemplo, de retificação de algumas legendas. Meu querido Sergio Cabral diz que sou um péssimo informante no quesito datas.

Mas tenho sempre a velha muleta que me socorre nessas horas: nunca fui pesquisador, mas um guardador de tralhas – algumas até de valor histórico. Lembro quando Clementina pisou o palco do Teatro Jovem em dezembro de 1964, na série O Menestrel, ao lado de um então quase menino chamado Turíbio Santos. Inesquecível o momento em que abriu sua apresentação cantando o “Benguelê”, que acabou sendo gravado como de “autor desconhecido” no LP “Rosa de Ouro”. Fosse pesquisador, e teria ido às fontes – e não teria passado o vexame que passei no Bar Gouveia, quando lá fui convocado pelo parceiro Pixinguinha – que me presenteou a partitura original da música, de autoria dele e com versos de Gastão Vianna.

***

Ainda sonho em ter um link em que todos possam ter acesso, por exemplo, a algumas das centenas de programas que produzi para a TVE, hoje TV Brasil. “Mas isso gera problemas com direitos autorais”, me advertiram. De minha parte, devo declarar que não recebo nenhum vintém cada vez que a TV reprisa um de meus antigos programas. E nem os colegas que lá se apresentaram. Mas, acessando o YouTube (ou I-Tube? Nunca sei) – um amigo meu descobriu até um especial de Isaurinha Garcia gravado num Água-Viva de 1977. Pode? Gostaria de mostrar pra vocês algumas preciosidades, tais como : Sidney Miller, Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Padeirinho, Mauro Bolacha, Copinha, Abel Silva, Nelson Cavaquinho – e mesmo programas produzidos por terceiros, como foi o caso do Entre Amigos. Lá vocês verão este vosso amigo fazendo parte da turma entrevistadora que se mobilizou para homenagear meu querido cronista Jota Efegê (Nássara, Carlos Drummond de Andrade, Alvarus) e o grande Luciano Perrone (Tom Jobim, Joel Nascimento).

A informação tem que circular, é o meu atual bordão. Nada novidadeiro, certo?

***

Relendo o belo livro do Zuenir Ventura (“Minhas histórias dos outros”, Ed. Planeta, 2005), estanco no capítulo “A chegada da peste”, e releio muitas vezes as palavras de Betinho: “não aceito o estigma, não internalizo o anonimato. Isso faz um mal terrível”. Falava de Aids, que o vitimou. E aproveito para falar do meu câncer. Ao torná-lo público na festa de inauguração deste saite, realizada no Bar Genial dos irmãos Altman, em São Paulo, fui obediente aos conselhos que pedi ao meu oncologista: era preciso alertar que câncer de mama ataca também os homens, e que ele mata. O meu foi detectado a tempo. Posso, agora, dizer: tive câncer. Uma mastectomia o extirpou, e estou seguindo um tratamento de ingestão de pílulas durante 5 anos, o que me livrou da quimioterapia. Vá lá: é uma espécie de quimioterapia, porém menos invasiva.

Foi a primeira vez que um câncer foi aplaudido, ao ser anunciado. Tomara que o alerta tenha sido útil aos machões presentes, que se recusam a uma dedada preventiva do câncer de próstrata. É uma penetraçãozinha vagamente dolorida. Relaxa e goza, companheiro, que o pior pode vir depois.

Um outro amigo, fumante até então inveterado, ensinei-lhe a terapia: escreva sobre a doença. Funcionou.

“Podemos conversar sobre o assunto?” – perguntei a uma querida antropóloga, que andou passando um perrengue com essa história. “Claro que sim”, e me deu dicas valiosas sobre a doença. “Acho que todo mundo resolveu ter um cancerzinho”, me diz uma outra amiga, também navegante do mesmo oceano.

E não tenha medo de pronunciar a palavra câncer. Eu a conheci através de uma sinonímia, carcinoma, quando minha mãe adoeceu. Hoje, relendo meu laudo, a palavra está lá. Sublinho a palavra encapuzada, e coloco a mais popular como é conhecida e temidamente pronunciada. E vamos em frente.

***

O hábito faz o monge? Anunciam, a toda hora, a troca do livro impresso pelo virtual. Isso quer dizer o seguinte: você se refestela numa cadeira ortopédica (as cadeiras pros usuários de computador sempre as chamarei de ortopédicas) e fica virando as páginas através do mouse. Claro, daqui a pouco você poderá optar por um telão de 52”, acomodar-se numa poltrona e degustar seu Machado de Assis ou Drummond através de um toque digital. Pode ser. Meu amigo Paulinho César Pinheiro ainda gosta do texto manuscrito, depois passado a limpo numa máquina Remington.

O cheiro do lápis ainda me fascina, e folhear um livro só à moda antiga. “É um hábito”, me esclarece o Alexandre Pavan – e os hábitos nem sempre passam de uma geração pra outra. Sei não. Minha amiga Cecília Scharlach voltou de uma feira de livros e discos em Frankfurt. Trouxe a novidade: mini-edições de obras completas, por exemplo, de Shakespeare, e uma antologia de gravações de Count Basie. Edições simplificadas, feitas economicamente, e acessíveis a todos (ou quase todos) os bolsos.

Bem, até breve.

Propondo uma reflexão

Hoje faço parte do Conselho Estadual de Cultura, que não deseja ter uma função vegetativa dentro do processo renovador do Rio de Janeiro. Olho para os lados e vejo companheiros das mesmas lutas que há 30, 40 anos travamos para despoluir as mentes, com o mesmo objetivo de “iluminar as pessoas por dentro”, como bem observou o dramaturgo-psiquiatra Roberto Freire. As novas gerações carecem de formuladores de novas políticas culturais, de pensadores do porte de Mário de Andrade, Roquete Pinto, Darci Ribeiro, Anisio Teixeira, Gustavo Capanema, Rodrigo de Mello Franco, Nilse Silveira – que utilizaram ferramentas não convencionais, inaugurando conceitos num processo de valorização dos bens materiais e imateriais do nosso país.

Quando externei o pensamento de que a cultura deveria ser tratada como matéria de segurança nacional, logo tentaram criar conexões com os modelos aplicados pelas muitas ditaduras que se sucederam a partir do golpe de 1964. Aos néscios mal intencionados, o meu desprezo. Entendo que não só os contornos geográficos é que determinam as fronteiras físicas de uma nação: nossos sotaques diferenciados, as danças e cantos populares, o folclore, as crenças e credos, parlendas, a culinária, são essas e muitas outras diversidades que nos dão um registro cultural extremamente original – que devemos lutar para que não se perca.

Meia-entrada

O assunto entra nessa história, e se faz necessário explicar sua inserção neste texto do blog: no já referido Conselho está em processo uma discussão a respeito da meia-entrada. Me vejo ao lado de figuras imponentes iguais a Haroldo Costa, Ziraldo, Edino Krieger, Lélia Coelho Frota – companheiros meus, há mais de 30 anos, nessa barcaça frágil que nos conduz, aspirantes a náufragos, tormentas afora. A discussão específica sobre a meia-entrada será feita em plenário, mas careço expor meus pontos de vista e as experiências colhidas ao longo da minha vida. A meia-entrada, tal como a conhecemos, é um fenômeno brasileiro. Ela cumpriria plenamente suas finalidades, porque é igualmente uma ferramenta de estímulo à formação de novas (e jovens) platéias, caso não servisse a uma rede de corrupção que confecciona carteiras falsas de estudantes, criando uma platéia fantasma que obriga o empresariado a compensar a perda de bilheteria com o aumento dos ingressos a patamares inalcançáveis para a classe média.

Lembro que ao iniciarmos o Projeto Seis e Meia (1976) o preço do ingresso equivalia ao preço de um maço de cigarros. Era um projeto que subsidiava o espectador – assim como, logo em seguida, o Projeto Pixinguinha fixaria as mesmas regras. Qual era, então, a diferença?

Confesso que sou muito simpático à mudança do conceito de meia-entrada para “ingresso social”. Quando realizamos 24 sessões extras, durante a temporada de 3 meses do espetáculo “O samba é minha nobreza” no Cine Odeon BR para a rede pública escolar, optamos por chamá-las de sessões pedagógicas, porque a intenção era trazer a estudantada para dentro do cinema, criar um novo hábito cultural, educativo – um estímulo real, sem artifícios, que objetivava a formação de novas e jovens platéias.

Enfim: essa é uma questão importante que não pode ser ignorada pelo público que tenta ir aos cinemas e teatros e se vê impossibilitado de freqüentá-los por não dispor de uma carteirinha falsificada que lhe dê as benesses de uma obscura meia-entrada. É importante analisar essa questão sob o mesmo prisma dos produtos piratas que inundam o comércio de rua. Meia-entrada beneficia igualmente os idosos acima de 60 anos – e os resultados podem ser vistos, sobretudo, na rede de teatros, com o fenômeno das vans lotadas com o pessoal da terceira idade, na qual me incluo. Seria mais justo que todos pudessem ir ao teatro, pagando preços mais acessíveis.

Ecologia musical

Olhos mudos, ouvidos cegos – usava essa metáfora em minhas oficinas para denunciar o processo de imbecilização e idiotização promovido pelos meios de comunicação, com destaque para emissoras de rádio e televisão. Defendo a tese de uma ecologia musical, e essa discussão passa pelo retorno da educação musical nas escolas e também pela Internet, instrumento poderoso e usado, às vezes, de forma ambígua e criminosa e por vezes desinformadora.

Somos, de alguma forma, guardiões dessa cultura que vai se apodrecendo igual aos tantos manguezais que, feito o Jequiá, ajudam a oxigenar a água que bebemos. Manifeste-se.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Em defesa do Projeto Pixinguinha

(Carta aberta ao Ministro Juca Ferreira – originalmente publicada em outubro/2008)

Poderia usar um artifício em defesa do Projeto Pixinguinha, fazendo uma colagem dos textos de Gilberto Gil defendendo aquele programa cultural nos catálogos editados pela Funarte – mas acho que você conhece fartamente o pensamento do ministro recém demissionário. E o você, no caso, não subtrai o respeito ao cargo de ministro, mas sim uma absoluta dificuldade em fazer salamaleques, ou mesmo usar de adjetivos hipócritas - que seriam logo desvendados, talvez pela falta de prática no ofício. Se há quase 50 anos eu já reverenciava Pixinguinha e Cartola, a vida me deu oportunidade de prestar atenção aos talentos que iriam enriquecer (não no sentido vil da palavra) a minha vida, possibilitando me tornar parceiro de vultos geniais iguais àqueles dois. O Projeto que leva o nome de Pixinguinha faz parte desses ritos reverenciais – assim como outros projetos que deixei aí na Funarte que, nem na época da ditadura, sofreu com episódios como os que aconteceram recentemente.

Também esse aprendizado me fez conhecer Clementina de Jesus, tão representativa na minha vida quanto o foi Chico Antonio, o cantador que a Mário de Andrade tanto impressionou. A arte de prestar atenção você pode constatá-la num texto meu de 1966, na contracapa do Lp "Muito Elizeth", no qual pedia que reparassem num jovem compositor que estava surgindo - esse mesmo Gilberto Gil que, depois Ministro, permitiu que a chama do projeto fosse reacesa na administração do Grassi. Que não se enxergue hipocrisia ou adulação quando o cultuo como o grande artista que nunca deixará de ser (acima de poderes ministeriais provisórios). E também como um colega de profissão, que veio em minha casa quando fundamos a Sombrás, isso há 30 anos, para deixar uma procuração que eu, vice do então presidente Tom Jobim, o representasse nas lutas pela moralização dos direitos autorais, numa época em que éramos assediados pela censura, no rastro do AI-5, que a Gil e Caetano aprisionou indecentemente.

Não, decididamente não creio que Gilberto Gil tenha renegado seus textos em favor do projeto ou anulado, moralmente, a referida procuração. Quanto à extinção do Pixinguinha, logo anunciada na troca de Ministros, soa como traição ou insubordinação aos ideais daquele importante músico.

No ano passado, quando fui chamado para fazer a curadoria do Pixinguinha, não imaginava que, na verdade, estavam me entregando uma urna ainda vazia, na qual iriam depositar as cinzas daquele Projeto. Aceitei o cargo sob algumas condições: que reativassem também os projetos Lúcio Rangel de Monografias e o Radamés Gnattali (discos paradidáticos), além de propor a reabertura da Sala Sidney Miller e a reedição de livros do grande Jota Efegê.

Me senti traído quando o Projeto Pixinguinha foi extinguido e mutilado, e a edição dos livros de Jota Efegê não ganharam a merecida distribuição. Mau uso do dinheiro público, fazendo reverter ao ostracismo aquelas reedições. E as outras promessas feitas? Caíram no ossário do esquecimento. Também me impressionou o clima de terrorismo que encontrei infestando aquela Casa.

É consenso que a utilização da mesma marca Pixinguinha num projeto totalmente inverso ao original foi manobra que a ninguém iludiu. É a máquina pública modorrenta e preguiçosa, viveiro de incompetentes moscas varejeiras que infectam de burocracia o fazer cultural. E criminosamente extirparam a principal característica daquele programa apoiado por Gil: a circulação da música brasileira por todo o país. Cultura que não circula morre de inanição, é devolvida ao anonimato.
Assim como confiei em Gil em 1966, não haveria porque não dar crédito àqueles que executavam sua política cultural, com especial destaque para os textos em que defendia o Projeto. Ou seriam apócrifos?

Portanto, não poderia dormir direito com minha consciência se não viesse lembrá-lo que estar Ministro até 2010 não o desonera de fazer cumprir o que foi prometido pela gestão anterior que comandava a Funarte.

É a homenagem que presto à minha consciência, ao não me silenciar diante de tais iniqüidades. Estou certo de que você, igualmente avesso a desajeitados salamaleques, há de compreender que o ano e pouco que ainda terá à frente do Ministério da Cultura o obrigará a um olhar reflexivo sobre esse ato de vandalismo e genocídio cultural que vem dizimando aqueles que ainda reverenciam a palavra empenhada e se sentem desrespeitados por esse caos.

Atenciosamente,
Hermínio Bello de Carvalho