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segunda-feira, 28 de março de 2011

Repaginando a vida

Já gostei de festejar meu aniversário e, sobretudo, o aniversário dos outros. Lembro os de Ismael Silva, comemorados quando ainda habitava um “já-vi-tudo” no Beco do Rio, a pouquíssimos metros da antiga Taberna da Glória. A festa se espalhava pelo corredor do nono andar onde eu morava, com total cumplicidade (e adesão) de meus vizinhos. Bons tempos aqueles! E, é claro, quando o corredor apresentava congestionamento, o povaréu debandava para onde? Para a velha e hospitaleira e gloriosa e imbatível e saudosa Taberna – a antiga, aquela onde Mário de Andrade bebia com seus amigos, e onde também eu bebi com minha amada Aracy de Almeida.

Hoje faço 76 anos, contrariando todas as minhas expectativas. Estou vivo. Melhor dizendo, tecnicamente vivo.

Os jornais desta semana comentam a doação de meu acervo ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ). Foi uma semana estafante: entrevistas, filmagens, algo que tomou proporção inusitada. Alguns chegaram a especular sobre a minha saúde. Calma, minha gente!

Resolvi fazer um texto, porque eu mesmo precisava me explicar essa quase doação de órgãos vitais à minha vida.

Desenho de Oscar Niemeyer

A doação que faço ao MIS não é produto de nenhum desânimo pessoal, mas o de ver minha casa abarrotada de material que poderia estar em circulação, tal e qual já experimentamos fazer na Escola Portátil de Música com a midiateca que tem meu nome. Sempre vociferei que a cultura é dinâmica, plural e tem que circular. Sempre lutei, sobretudo, quando trabalhei na Funarte, para que houvesse uma política de ocupação de espaços e, paralelamente, uma rigorosa política de formação de novas e jovens platéias.
Lamento, por exemplo, que o Projeto Pixinguinha (inspirado no Seis e Meia de Albino Pinheiro) tenha sido colocado fora de circulação. Com esse corte de 50 bi no orçamento, acho que a ministra Ana de Hollanda e o Antonio Grassi, presidente da Funarte, vão ter que se virar para reverter a situação. Que nossa presidenta, mais o Mantega, tenham sensibilidade para não contigenciar recursos para aquele já paupérrimo Ministério.

Outra reivindicação que faço – e, aliás, a encaminhei ao governador Sergio Cabral – seria a de ocupar as UPPs com ambulatórios culturais, aproveitando os recursos humanos formados pela já citada Escola Portátil e mais os já anunciados equipamentos de saúde e esporte. Bato pé nessa sugestão: a jovem (10 anos!) Escola tem, potencialmente, oficineiros e monitores capacitados para montarem salas de ensino de música brasileira nessas comunidades. É um erro tentar um confronto com o funk e o hip hop, manifestações já sedimentadas nessas unidades. Há que se levar um outro tipo de cardápio musical para essas unidades pacificadas, para que elas conheçam, por exemplo, as tantas jovens orquestras que animam nossas noites cariocas. Isso é, também, uma política de abertura de um mercado cada vez mais afunilado, no qual casas importantes (Canecão, Modern Sound) estão cerrando suas portas.

Acho que a nossa Secretaria de Cultura poderia reabrir o extinto Seis e Meia num horário mais lógico, e reviver, numa ação conjunta com a Secretaria de Educação, as chamadas sessões pedagógicas. Voltei ao Cine Odeon, onde havia assistido um documentário sobre lixo, para ver outro docudrama – o de Elza Soares. Éramos não mais que cinco espectadores naquele teatro lindo, que pode abrigar uma função alternativa no esvaziado corredor cultural da Cinelândia, um bairro hoje quase sem cinemas.

O carnaval de rua, cuja morte decretaram tantas vezes, não está de volta? Convoquem o Monobloco, o Cordão da Bola Preta e outros de igual estirpe para, quem sabe, sacudir os poerentos e modorrentos corredores culturais de uma cidade que possui prédios históricos que precisam promover ações dinâmicas: o Municipal, a Biblioteca Nacional, a Escola de Belas Artes, o fantástico auditório da ABI, a Leitaria Cave e a fabulosa Confeitaria Colombo. Sem falar dos bares vocacionados para o encontro dessa gente bronzeada que precisa mostrar seu valor. Vamos fazer bailes públicos sob os pilotis do Ministério da Cultura com a Furiosa Portátil, por exemplo.

Dessacralizar alguns desses templos, levando a garotada a utilizá-los de forma consciente. Seria sonhar muito alto? O canal da Unirio voltou a funcionar, e tomara que tragam nossa Joyce de volta; ela com seus programas paradidáticos arrasadores. E por que não abrir esse canal para nossos jovens criadores (músicos, poetas, compositores) – assim, como deveria fazer a ex-TVE, e como fazia a TV Cultura – em véspera de sucateamento? Enfim: não sonhemos pequeno.

ÁUREA MARTINS

Ontem, 27 de março de 2011, tomei uma decisão: banir de meus textos a palavra invisibilidade, quando tiver que escrever sobre Áurea Martins. Com uma Sala Baden Powell cheíssima, nossa Cara Preta (como ela se auto denomina, jocosamente) deitou e rolou, fez o que quis com a platéia e com seus músicos. “Meu Deus, onde andava essa mulher?” – veio me dizer um jovem, fascinado com o recital cheio de provocações (ela cantando a capella, ela desfiando o “Bala com bala”, literalmente duelando com a bateria do Cassius – “mas o que é que é isso?”

Anuncio o seguinte: agora em abril gravaremos o primeiro DVD de Áurea Martins, “Depontacabeça, até sangrar”. Participações especialíssimas de Fernanda Montenegro, Chico Buarque e Francis Hime.

E abram alas para Áurea Martins, portentosa, passar com seus exuberantes 70 anos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

depontacabeça (IV)

Por Hermínio Bello de Carvalho

Este DEPONTACABEÇA é uma celebração pelos 70 anos que Aurea Martins está festejando neste 2010, e uma extensão do disco anterior, que deu a ela o prêmio de Melhor cantora de 2009. 

Lembro quando seu nome foi anunciado no “Canecão” por Fernanda Montenegro, que por um momento achou que Áurea estivesse ausente. Até refazer-se do susto e alcançar o palco, ela foi ovacionada pela plateia e pelos colegas de profissão, já que o prêmio significava o reconhecimento de uma nobre carreira de quase meio século. A “crooner de voz rouca”, reconhecida por Nei Lopes como uma das três maiores
cantoras do Brasil, continuava atuando sob um espantoso manto de invisibilidade que a sua profissão – “Cantora da noite? Eu também canto de dia!”, ela costuma brincar – reserva para um tipo raro de artista. Ele você verá raríssimas vezes na televisão e ouvirá, possivelmente, ainda menos nas emissoras de rádio.


Causa espanto saber que em quase 50 anos de estrada, este seja apenas o quarto disco de Áurea Martins - o que sublinha e reforça a tese do ostracismo defendida por Aldir Blanc, mas  que prefiro chamar de invisibilidde. 

O disco anterior foi co-produzido com o pianista Zé-Maria Camilotto Rocha, autor do perfil biográfico que consta deste release.  Desta vez,  o  violonista Lucas Porto, que atua como professor na Escola Portátil de Música, dividiu comigo os trabalhos de produção artistica do DEPONTACABEÇA. 

Comentava com Lucas, olhando a meninada folheando as partituras dentro do estúdio, que maravilhoso arco do tempo havia em nosso disco.  Entre os instrumentistas, o mais jovem tinha 21 anos – nosso Luizinho Barcellos. E, no repertório, a presença de jovens parceiros como Vidal Assis e Fernando Penello, ambos na faixa dos 25 anos, indo às culminâncias de minha parceria com Alfredo da Rocha Viana Junior, o Pixinguinha (que hoje teria 113 anos).  

depontacabeça (III)

Por Aldir Blanc

Em qualquer país que preze sua cultura, Áurea Martins seria incensada. No Brasil, terra de indigência e cascatas culturais, Áurea Martins não aparece nas rádios nem na televisão. É como se privássemos o povo brasileiro de beber em fonte límpida. Cantar é, já disse e repito, o Maior Espetáculo da Alma. E nossa própria alma nunca se redimirá sem a voz sagrada de Áurea. Ela faz parte, e talvez seja a última representante, de uma tradição inesgotavelmente rica, e é também pedagógica, porque uma porção de gente que se acha cantora tem muito que aprender com a Áurea Martins.


É incrível que uma artista assim diamantífera, única, jóia da Coroa de Ouro formada por cantoras como Ângela Maria, as Irmãs Baptistas, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Aracy de Almeida, Clementina de Jesus  permaneça em ostracismo cruel.

Áurea Martins é o elo vivo de uma história, de uma Legenda Cultural nossa – uma Legenda Áurea!

depontacabeça (II)

Por Zé-Maria Camiloto Rocha

ÁUREA MARTINS brotou e floresceu duma cepa de músicos (sua avó tocava banjo) radicada em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Suas primeiras apresentações em público dão-se como integrante do coral do Ginásio Estadual “Raja Gabaglia”. No final da adolescência, passa a freqüentar os clubes da jazz do subúrbio e a atuar como lady crooner do conjunto dos tios em bailes da periferia. Na primeira metade dos anos 60, começa a ser atraída para o centro da cidade. Numa renovação do cast da Rádio Nacional, é incluída entre os novos integrantes do elenco da emissora, ao lado de Alaíde Costa, Peri Ribeiro e Elis Regina (1945-1982), sob o incentivo de Paulo Gracindo (1911-1995). Registra-se então sua voz em disco pela primeira vez,  numa faixa do LP Alvorada dos Novos, produzido por Altamiro Carrilho para a Copacabana.

Em 1969, vence a quarta edição do programa anual A Grande Chance, criado e apresentado por Flávio Cavalcanti (1923-1986) para a Rede Tupi de Televisão. O certame, com final realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, teve entre os membros do júri os maestros Erlon Chaves (1933-1974), Guerra Peixe (1914-1993) e Linfolfo Gaia (1021-1987); o pianista Bené Nunes (1920-1997); a cantora e compositora Maysa (1936-1977); a atriz, cantora e diretora Bibi Ferreira; e o jornalista e escritor Austragésilo de Ataíde (1898-1993). Pelo primeiro lugar, conquistado com a nota máxima de todos os jurados, Áurea  recebe como prêmio uma viagem a Portugal e um contrato para gravação de discos na RCA Victor. Na esteira do sucesso pela vitória do concurso, foi contratada para se apresentar na boate “Drink”, da cantora e empresária Helena de Lima, em Copacabana. Em 1970, faz sua estréia em São Paulo, num show no Teatro Gazeta com o pianista e compositor Ribamar (1919-1987), parceiro de Dolores Duran (1930-1959) na canção Pela Rua, interpretada por ela na final de A Grande Chance. Após registrar dois compactos, produzidos por Rildo Hora e com arranjos de Guerra Peixe, lança em 1972 seu primeiro LP. No disco –  também produzido por Rildo, com arranjos do pianista Luís Eça (1936-1992) e a participação do poeta Paulo Mendes Campos (1922-1991) –, Áurea é acompanhada pelo Tamba Trio mais o violonista Luís Cláudio Ramos.  

(Seu talento sempre foi muito bem reconhecido, sim. Mas, para complementar os incertos cachês de cantora da noite, Áurea achou melhor arranjar um trabalho diurno que lhe garantisse um salário fixo –  e nisto teve sorte como quê! De carteira assinada, entrou para o serviço público como inspetora de classe no Colégio Estadual “André Maurois”, no Leblon, então sob a direção de D. Henriette Amado. [Dentre os jovens sob a sua inspeção, ela se lembra especialmente de Evandro Mesquita.] Quando os alunos se organizaram para promover um festival escolar da canção, um deles falou: “A inspetora canta.” E assim, Áurea voltou a cantar num colégio. Agora, porém, não mais como integrante de coral; mas como solista. A partir daí, várias foram as vezes em que D. Henriette a convocou à sala da diretoria [que, aliás, não tinha porta] para que cantasse para ela, em pleno expediente [People, de Jule Styne & Bob Merril, era uma das preferidas da valente educadora experimental]. Mas o sonho da brava senhora foi drasticamente interrompido numa manhã de agosto de 1971. Ao ver D. Henriette ser retirada do estabelecimento pelos militares, Áurea saiu junto e não voltou sequer para dar baixa na carteira.)

No Dancing Brasil, na Avenida Rio Branco, Áurea Martins tem a oportunidade de trabalhar em 1972 com o cultuado “Fats” Elpídio, que ela, já de menina, conhecera através de suas gravações como pianista da legendária boate “Vogue”. O saxofonista Paulo Moura, que presenciara seu êxito na noite do Municipal, e o pianista Wagner Tiso levam-na dali até Atenas, para com eles se apresentar sob os auspícios embaixada brasileira na Grécia. Ao voltar, é contratada pela boate “Number One”, em Ipanema. Ali, ao lado de Djavan, faz revezamento com Alcione, tendo no acompanhamento o pianista Édson Frederico. A amizade com Emílio Santiago começa na boate “706”, no Leblon, ainda na primeira metade dos anos 70, onde Áurea estréia acompanhada pelo pianista Cristóvão Bastos. No final daquela década, quando a música fina da noite boêmia da Zona Sul começa a migrar para as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, Áurea vai junto: “O Teclado”, onde atua pela primeira vez ao lado do pianista Zé-Maria Rocha, revezando com Johnny Alf; “Chiko’s Bar”, com Luís Carlos Vinhas (1940-2001); “Antonino” e, já nos anos 90, os shows do “Au Bar”, divididos com Marisa Gata Mansa (1938-2003) e Zezé Gonzaga. Seu destino seguinte é a nova Lapa, onde inaugura o “Carioca da Gema” (de cujo elenco participou por sete anos) e faz diversas atuações no “Rio Scenarium”. 

Foi num salão de beleza, entretanto, que conheceu Elizeth Cardoso. Áurea e a Enluarada tornaram-se amigas. A partir de então, tornou-se freqüente o fato de a Divina deixar o recesso do Olimpo à noite para, metamorfoseada em simples cliente de boate, ir ouvir Áurea cantar. Conta Hermínio Bello de Carvalho que, certa vez, enquanto Áurea dava seu recado numa festa particular na qual se sucediam diversas canjas, Jamelão confidenciou ao seu ouvido: “Essa aí sabe das coisas...”) 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

depontacabeça (I)


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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um matulão de notícias (4) - Livro & disco

Já está na praça o “Depontacabeça”, gravado por Áurea Martins na Biscoito Fino, todo ele com obras – a maioria inédita – de minha lavra, com parceiros de grosso calibre como Pixinguinha, Moacyr Luz, Vidal Assis, Fernando Temporão – e o disco, infelizmente, não deu para caber outros novos companheiros de música como Marcelo Caldi, Luisinho Barcellos e tantos outros que ficam escavucando meus guardados. Os arranjos são de Lucas Porto.


Pedi à Cecília Scharlach que deixasse para março do ano que vem o lançamento do “Áporo Itabirano, uma epistolografia à margem do acaso”. É, como já expliquei lá em cima, a correspondência trocada com Carlos Drummond de Andrade. Prepondera, naquele lote de cartas, a discussão de projetos culturais.

Bons dias para todos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Sempre revolucionária

Vamos virar a ampulheta, retroceder uns 30 anos, e perceber que, na cozinha, existe uma certa algaravia. Um destampar de panelas misturado a exclamações de todos os tipos – e a pergunta habitual: hoje tem bolinho de jiló? Quem chega é a Divina Elizeth, sempre entrando pela cozinha para, gulosa, inspecionar as panelas. Para quem não conheceu a Divina e Enluarada pessoalmente, devo esclarecer que ela não é de ir a lugares enfumaçados e recendentes a bebida. Já trabalhou tanto ganhando a vida com sua voz privilegiada, que hoje é seletiva. Por exemplo, só sai de casa para ouvir uma Áurea Martins. E aí não economiza elogios, como se comprova em sua biografia escrita por Sergio Cabral, que inclui Áurea entre suas intérpretes preferidas.

Se estou falando de Elizeth é porque minha relação pessoal com a Divina era meio de irmão um pouco mais novo, dela chegar em casa e, perguntada como andava de amores, dizia em alto e bom som: “Não tenho nem quem me mande à merda!”. Mentira pura, engodo inútil que a figura linda, pernas e braços roliços, a elegância natural – fica difícil pensar na Divina encerrada num claustro.

Bia Paes Leme me pede um texto sobre Elizeth, para as comemorações do noventenário da Divina. Como negar alguma coisa à minha Divina Cléo (Cleonice Berardinelli) da música, que aos cinco anos, com outra sobrinha minha, Sheilla, foi assistir ao “Rosa de Ouro” no Teatro Jovem, levadas por mim. Talvez, quem sabe, tenha sentado ao lado de Elizeth, que não saía de lá.

Há pouco tempo o (Luiz Fernando) Veríssimo escreveu uma belíssima crônica intitulada “Revolucionários”, centrada nas figuras de Miles Davis e Elizeth. Miles era um revolucionário, que transitava por todas as vertentes modernas do jazz, surfando no bebop, inventando o cool jazz e trocando-o em seguida por outra invenção presumivelmente sua, o hard bop. Isso não o impediu de gravar um disco inesquecível, o “Porgy and Bess”, que teria uma outra versão maravilhosa com Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, e uma outra, se não me engano, com Ray Charles e Betty Carter. Mas, insatisfeito, ei-lo agora lançando o “Kind of Blue”, numa experiência que chamou de jazz modal. E aí, conclui Veríssimo, eis que Miles surge de túnicas coloridas, fundindo jazz com o rock. Mais radical, impossível.

Veríssimo, enfim, encontra similaridade entre Miles Davis e Elizeth Cardoso no quesito “Revolucionários”. Cita o célebre “Canção do amor demais” (1958), ela juntando Tom e Vinicius, e fazendo-se acompanhar pelo violão de João Gilberto, mas negando-se a se entrelaçar no modelo de canto minimalista com que ele tentara seduzi-la, sem sucesso. A bossa-nova, como a conhecemos, não começaria ali na interpretação de Elizeth – mas um tempo depois, quando João, enfim, conseguiu impor sua estética.

Elizeth Cardoso e Turíbio Santos, em 1960

Veríssimo cita não só esse disco mas também o “Elizeth sobe o morro”, que tive o privilégio de produzir para a Divina. A fantástica intérprete de Tom e Vinicius aparece agora com outro violão, cujas estranhezas logo fariam celebrizar seu executante: Nelson Cavaquinho. Colocá-lo acompanhando Elizeth, e cantando com ela, foi sim uma atitude que afrontava as regras ditadas pelo mercado. Porque tudo ali se contrapunha à estética joãogilbertiana: a voz rascante de Nelson, seu violão quase primitivo, de uma rudeza transcendental, tudo ali transpirava beleza. Lembraria ao Veríssimo outras atitudes revolucionárias de Elizeth: cantar a “Bachianas nº 5”, de Villa-Lobos, sob a regência de Diogo Pacheco (isso em 1964); deixar-se flutuar na “Melodia sentimental”, do mesmo Villa, num “Concertos para a Juventude”, acompanhada pelo violão erudito de Turíbio Santos; e se enredando também nas cordas de Baden Powell, ou interpretando um Cláudio Santoro para, em seguida, fazer dupla com quem?, Ciro Monteiro.

E como não citar o concerto no Teatro João Caetano, em 1968, ela ao lado de Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e Época de Ouro? E, igual a Miles Davis, também vestia por vezes as túnicas coloridas para ir gravar seus dois discos terminais, o “Ari amoroso” e o “Todo sentimento”, neste último acompanhada pelo 7 cordas de Rafael Rabello. No estúdio, algumas vezes, pedia um tempo para deitar-se e contorcer-se de dor com o câncer que a levaria logo depois, sem poder alcançar o lançamento daqueles dois trabalhos.

Se conto essas coisas, 20 anos após o desaparecimento de Elizeth e nos 90 anos que faria em julho de 2010, é para ampliar o conceito do grande Veríssimo, que se pergunta, ao final da crônica, “se Elizeth subiu o morro no mesmo espírito com que o Miles voltou ao hard bop”. Num programa de televisão, armei uma cilada para ela: “Tom Jobim ou Pixinguinha”. E a Divina, sem pestanejar: “ora, fico com os dois”. Subir ou não o morro, pisar o palco do Theatro Municipal, deixar-se levar pelo Brasil afora com o piano de Radamés e com a moderníssima Camerata Carioca, cantar “a capella” o “Serenata de adeus”, fazendo o público debulhar-se em lágrimas inestancáveis e ovacioná-la de pé – nada fazia diferença para Elizeth, desde que a qualidade, e os riscos a ela inerentes, estivesse presente.

Revolucionária sempre.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Confessando (também) meus fracassos

Quero confessar, o mais descaradamente possível, que vou plagiar o antropólogo Darcy Ribeiro. É que ele, ao receber o titulo de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, em 1978, resolveu escancarar suas desilusões políticas e culturais, num caudaloso discurso – magnífico! – que, infelizmente, não dá como reproduzir aqui. E justifica: “em lugar de louvações me pus a lamentar, modesto, os fracassos de minha vida inteira”. E explica: “falsos fracassos, logo se vê. Modéstia mais falsa ainda. Num golpe de mágica assumi, imperialmente, os fracassos do Brasil na luta para apossar-se de si mesmo, fazendo deles fracassos meus. Meus e dos brasileiros todos, disse eu lá no heráldico salão das grandes escadarias”.


Na impossibilidade de transcrever o discurso, esclareço que o Educador não deixou barato. Expôs sua trajetória, mas ressaltando que quase todas suas iniciativas nas áreas de educação e antropologia foram acompanhadas de enormes desilusões. Lembremos que Darcy criou a Universidade de Brasília, ao lado de Oscar Niemayer e Lucio Costa, colaborou com os Irmãos Villas-Boas na criação do Parque Indígena do Xingu, foi viver suas experiências entre os índios, foi Secretário de Estado, depois Ministro da Educação. Anisio Teixeira o aproximou da temática pedagógico-educacional, semente dos futuros Cieps em sua concepção original: a criançada entrando nas escolas, estudando, fazendo esportes, se alimentando e voltando para casa no final da tarde. Depois o Golpe Militar de 64 cassou seus direitos, e foi fazer política e pregar cultura e educação pela América Latina. Seus “fracassos” se localizam em áreas que sofreram regressão ou abandono ou interesses políticos – como é o caso específico dos Cieps.

Admirável a personalidade do educador, de palavrório solto – e é lá. No admirável “Testemunho”, recém editado pela EUB, que vou catar um trecho delicioso: “Falar de mim mesmo é a tarefa que mais me agrada e gratifica. Todo entrevistador de rádio, jornal ou televisão sabe que nem é preciso me fazer pergunta; basta ligar o gravador e me deixar falar, que falo. Incansavelmente. Para mim, pelo menos”. Grande Darcy!

Finjo que estou na Sorbonne, me reduzo à condição de um simples ativista cultural brasileiro, e aqui venho lamentar alguns dos fracassos colhidos ao longo de quase 75 anos de vida, 2/3 dela no ofício espinhoso de jardineiro de sonhos e utopias.

CLEMENTINA DE JESUS

Há quem viva navegando na tênue nuvem do sucesso, com memória superseletiva que abomina lembrar uma outra escadaria, maior do que a de Sorbonne de Darcy, aquela que passo a passo, igual aos romeiros da Igreja da Penha, esfolamos nossos joelhos em busca de uma graça prometida. Às vezes, cura de uma doença ou moléstia tão grave que é falta de dinheiro. Mas há quem galgue as escadas para implorar um espaço qualquer num pódio que a indústria cultural reserva para pouquíssimos. “Sucesso, quero fazer sucesso!” – gritam, desesperados (e esfolados).

Vamos, pois, desafiar o rosário. E começando por Mãe Quelé, aproveitando o mote do antropólogo. Dele recolho uma frase admirável: “Clementina (de Jesus) é a voz dos milhões de negros desfeitos no fazimento do Brasil. Poderosa voz anunciadora do brasileiro que, amanhã, se assumirá como povo mulato, mais africano que lusitano”. Fez mais: abriu as portas do Municipal para homenageá-la, embora eu continue achando um equívoco. A imaterialidade do canto de Clementina transcende o patrimônio físico representado por aquele teatro. Se houve alguma simbologia no ato de homenageá-la naquela casa, faltou-me explicação.

Lembro quando o município de Valença resolveu homenagear a memória de Clementina, erigindo um busto em praça pública. Cá estou diante da doce professora Dilma Dantas, então Assessora de Cultura, que veio sem explicar como se daria a inauguração. Expus o seguinte: busto em praça pública só serve pra pombo cagar em cima. Por que não um livro sobre Clementina, para que os jovens pudessem entender a trajetória daquela iluminada personagem valenciana? “Seria caro!” – e expliquei que não, e nos juntamos a Lena Frias, a Nei Lopes e Paulo César de Andrade – e entregamos nossos textos totalmente de graça. E, enfim, o livro foi editado com baixíssimo custo industrial.

Clementina, enfim, foi um dos meus fracassos. A voracidade de alguns herdeiros é bastante conhecida, e os de Clementina não fogem à regra. O livro nunca pôde ser reeditado, assim como os discos de Clementina sofreram uma só reedição, patrocinada pela Petrobras. “Ninguém vai querer comprar”, explicou a gravadora. Há pouco tempo, retribuindo gentileza de Eduardo Escorel que me mandou uma cópia do documentário que fez sobre Chico Antonio, mandei-lhe a penúltima caixa que ainda possuía com dez CDs de Mãe Quelé. Sua memória ficou restrita a poucos.

ANTONIO CANDIDO E SEUS PERSONAGENS SECUNDÁRIOS

Há pouco tempo, e acho que já contei isso aqui, fui assistir a uma palestra do professor Antonio Candido. Era o lançamento da epistolografia de Mário de Andrade com o fazendeiro Pio Correia. O professor foi logo esclarecendo: não gostava de falar dos chamados protagonistas, de resto quase sempre muito conhecidos e incensados. Preferia os “personagens secundários”. No caso, o fazendeiro Pio e o pai de Mário. Deu-se o clarão: minha vida inteira a dediquei a esses personagens marginalizados pelo sistema, e reduzo a lista a Clementina de Jesus e Valzinho para não me tornar (mais) cansativo.

Outro dos meus fracassos eu o relembro em função do esclarecimento prestado por Antonio Candido, e se relaciona à ex-TVE, hoje TV Brasil. Nela produzi centenas de programas, sempre colocando meus personagens secundários em destaque, já que estavam compulsoriamente afastados pelas emissoras de TV, que os desejava mais glamurosos e não necessariamente portadores de conteúdo – pois até hoje a grande maioria das emissoras de rádio e televisão age com esse critério seletivo. Uma das poucas exceções é Cartola, que foi catapultado da obscuridade através de sua genialidade, assim como Pixinguinha. Inquestionáveis, não havia como barrá-los.

Expliquemos o fracasso: mandei carta para Tereza Cruvinel, atual presidente da TV Brasil, denunciando um fato que me prece no mínimo escandaloso. Boa parte do acervo de programas que estava se deteriorando nos arquivos da então TVE foi recuperado graças ao apoio financeiro recebido da Petrobras. Finalizado o trabalho (tenho em mãos a relação do acervo recuperado) todo o material foi devolvido aos depósitos onde haviam mofado. Ou seja: devolvidos ao anonimato.

PROJETO PIXINGUINHA: RELEMBRANDO UMA CAFAJESTICE CULTURAL

Outro fracasso se deu há quase dois anos, quando fui chamado para fazer a curadoria dos 30 anos do Projeto Pixinguinha. Apresentei contraproposta para aceitação ao convite: a reedição de alguns projetos, inclusive o Lucio Rangel de Monografias, e, sobretudo, o Radamés Gnattali – um projeto na época gerenciado por Roberto Gnattali e Luiz Otávio Braga, com edição de discos paradidáticos. Como já foi declarado abertamente na época pela imprensa, fui torpemente enganado. Já havia um projeto de sepultamento do Projeto Pixinguinha, e eu, sem querer, fui chamado solertemente para celebrar suas exéquias. Mais um fracasso.

EVENTO PARA MIM É VENTO, UM ATO EVENTUAL QUE NÃO DEIXA RESIDUOS

Não mudando de assunto, que ele ainda não acabou, quero falar sobre o mercado da música, e de uma multidão de jovens artistas que tentam um espaço nas megavitrines representados pelos teatros municipais e estaduais, que antes abrigaram projetos como o Pixinguinha e o Seis-e-Meia, do Albino Pinheiro. Bom, a prefeitura inaugurou o “Sete em ponto”, semanal, no Teatro Carlos Gomes. O fechamento temporário do Municipal para obras fez com que as agendas dos demais teatros municipais ficassem congestionadas, recebendo a programação destinada àquele templo da música. Tudo bem. Ele vai reabrir, reequipadíssimo. O João Caetano já passou por uma parcial reforma (até com cadeiras para obesos e elevador para deficientes, como ordena a lei). A Sala Cecilia Meirelles vai, enfim, entrar em obras – e tomara que os dois prédios a ela vizinhos sejam igualmente recuperados, com suas fachadas deslumbrantes.

Mas o que anda me incomodando, e muito, é a falta de registro de projetos, programas e eventos da maior importância, que simplesmente caem no esquecimento por falta de um resíduo cultural que ele poderia provocar, se interesse houvesse das telemissoras ditas culturais ou educativas. São espetáculos importantes que, ensaiados durante meses, acabam se perdendo na memória. Dou como exemplo o tributo prestado a Luis Carlos da Vila na Praça Mauro Duarte, no bairro de Botafogo (RJ). Se você perdeu, como perdi, aquele evento, entenderá minha insatisfação. Tudo que não se registra se perde, há anos venho repisando o que tantos já se cansaram de advertir. O lógico é que um dos teatros municipais ou estaduais acolhessem essas propostas e, conveniados com uma rede televisiva federal, municipal ou estadual, fizessem o registro do é-vento, permitindo sua futura acessibilidade por parte do público. Bem, vamos ampliar a queixa: já repararam nos horários tardios em que esses registros (poucos) entram nas grades de programação?

ATÉ SANGRAR

Já havia me aposentado como produtor de discos quando Olívia Hime sugeriu que se produzisse um disco de Áurea Martins. Chamei Zé-Maria Camiloto Rocha para co-produzir o “Até sangrar”, que resultou no prêmio (ex-Tim, ex-Sharp) de melhor cantora de 2009 para Áurea. Desde então, venho tentando abrir um espaço para celebrar essa premiação. Afinal, Áurea só havia recebido um prêmio na vida, quando venceu o concurso “A grande chance”, há 45 anos. Promessas aqui e ali, e nada de concreto. Não, não computo esse desapontamento como um fracasso. Áurea foi consagrada com inúmeras críticas nos jornais, menos, é claro, nas revistas semanais tipo “Veja”, “Istoé’, “CartaCapital” – e façamos justiça à essa última publicação: o Pedro Alexandre Sanches escreveu uma longa matéria sobre o livro que escancara os preconceitos em torno das cantoras negras, mas com um lapso de amnésia indesculpável esqueceu-se, apenas, de comentar que nem ele publicou nenhuma resenha crítica sobre o “Até sangrar” naquela revista.

EM CONTRAPARTIDA...

Não vamos trabalhar com a regra (um mercado musical multifacetado, com os olhos voltados para a cultura descartável), mas lançar também um olhar despreconceituoso e mais atento às exceções dessa regra. Pedi a uma querida ex-aluna da Oficina de Coisas da Escola Portátil de Música, Gabriela Buarque, que me enviasse um texto falando de sua luta para abrir espaço para ela e também para outros novos valores. Vamos lá:

“Semana passada me fizeram uma pergunta sobre os espaços do Rio de Janeiro para novos compositores. Na tentativa de fugir do padrão de resposta “só reclama e não faz nada para mudar” – que vem se multiplicando nos depoimentos de meus colegas de trabalho – comecei a enumerar alguns locais que nos são mais acessíveis. Sem qualquer espanto do entrevistador, depois de três referências, não me recordava de mais nenhum. Raras e preciosas iniciativas como a da ARPUB (Associação das Rádios Públicas do Brasil) devem ser louvadas. A promoção de seu I Festival de Música levou às Rádios MEC e Nacional composições inéditas da nova geração na tentativa de revigorar a canção brasileira que, a esta altura, até ameaça de extinção sofrera. Fico pensando o que seria dos consagrados nomes da nossa música não fossem os veículos de massa da época para divulgar seus trabalhos e incentivá-los através de grandes festivais, das rádios e outras mídias. Interesses políticos à parte, tais manifestações alavancaram fulanos como Chico, Caetano, Gil, Elis, Nara e tantos desconhecidos até então. Sobreviveriam os mesmos nos dias de hoje? O cenário atual, cuja a quantidade de informação ultrapassa a capacidade mínima de absorção e entendimento, vem transformando artistas e suas mais admiráveis peculiaridades em produtos descartáveis e obsoletos a cada segundo que passa. O artista que, há alguns anos, lotava um teatro, por exemplo, atualmente busca soluções de marketing para atrair o público. Nunca foi tão importante a presença de convidados ‘especiais’ e depoimentos de terceiros para agregar valor à sua imagem e, por conseguinte, ao seu CD. É, no mínimo, paradoxal que, diante de tamanha riqueza, não haja interesse público em divulgar e preservar esse material. As salas de concerto do Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil são as choperias cariocas, aonde, eu lhes asseguro, a última coisa que se deseja é ouvir música. É lamentável que parta de nós a defesa e propagação da música popular brasileira."
Gabriela Buarque (16/11/2009)
Claro, o assunto não se encerra aqui. Por uma questão de justiça, temos que louvar instituições que mantém programas culturais em seus calendários. O Centro Cultural do Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o BNDES, a Petrobras, o Sesc e secretarias municipais e estaduais de cultura que administram generosos espaços culturais.

Voltaremos ao assunto.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Áurea Martins e Hermínio no programa "Sr. Brasil", de Rolando Boldrin


Na próxima terça-feira, 1º de setembro, às 22h10, a cantora Áurea Martins e o compositor Hermínio Bello de Carvalho são os convidados especiais do programa "Sr. Brasil", comandado por Rolando Boldrin, na TV Cultura de São Paulo.

No repertório do programa, "Doce de coco" (Jacob do Bandolim/Hermínio Bello de Carvalho), "Estrada do sertão" (João Pernambuco/Hermínio Bello de Carvalho) e "Mas quem disse que eu te esqueço" (Dona Ivone Lara/Hermínio Bello de Carvalho).

Haverá uma reprise no domingo, 06 de setembro, às 10h.


Hermínio acompanhado dos músicos Edmilson Capelupi, Léo Rodrigues e Edson Alves

Fotos de Pierre Yves Refalo

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Áldima


Áurea Martins fotografada por Walter Firmo

Ex-Áldima: o grande ator Paulo Gracindo achou pouco sonoro o nome, e a batizou artisticamente como Áurea Martins quando, há 45 anos, ganhou o primeiro lugar na “Grande Chance”, programa famosíssimo na época, e que depois revelaria também Emilio Santiago.

Áurea Martins tem 69 anos de idade e acaba de receber o prêmio de melhor cantora do ano no Festival de Música Brasileira (ex-Tim) que agora é bancado (R$) pelo idealizador do projeto, José Mauricio Machline (ex-Prêmio Sharp).

Gostaria de dar mais detalhes da vida artística da cantora: procuro “Martins, Áurea” na Enciclopédia da Música Brasileira. Nenhum verbete.

Áurea Martins, entretanto, não é uma ex-cantora e nem está fora do mercado: graças à Olívia Hime, produzimos (Zé Maria Camiloto Rocha e eu) o disco “Até sangrar”, que lhe rendeu essa premiação.

Estranho, não? 45 anos de carreira e apenas 3 discos gravados.

A ex-Áldima batalhou durante anos e anos na noite, ao lado de Alcione, Djavan, Dafé e Emilio Santiago – num tempo em que, à saída do trabalho, a polícia interpelava Alcione, implicando com aquela caixa esquisita que, afinal, guardava o trompete com que também se defendia na batalha pelo chamado pão nosso de cada dia.

Quando o mercado de trabalho afunilou, pegou seu matulão e foi cantar numa ilha, contratada por um gringo que entendeu sua voz rouca e extensão generosa. E lá trabalhou durante alguns anos, e de quando em vez levando algum amigo. Johnny Alf, por exemplo – que chegou, nos tempos difíceis ¬– e que tempos difíceis aqueles! – a dividir apartamento com ela.

A ex-Áldima trabalha à frente da Orquestra Lunar, só de mulheres; também com o Terra Trio ou apenas o esplendido violão de Billinho. Aqui e ali podemos ouvi-la cantar aquele repertório que fazia a Divina Elizeth Cardoso sair de casa para aplaudi-la. Durante um bom tempo, dividiu com Zezé Gonzaga o repertório de Lupicinio Rodrigues num show maravilhoso que tinha apenas o piano de Zé-Maria Camiloto Rocha, também roteirista – e excelente – do espetáculo.

“Não veio?” – perguntou Fernanda Montenegro quando anunciou a ganhadora do Premio, lá no “Canecão”. “Veio sim!”, “não, não veio”, – e lá estava Áurea, num cantinho, bem Áldima. E ao levantar-se e até chegar-se ao palco, foi aplaudida freneticamente.

Lembro que, uma vez, estava na casa do mangueirense Zé Maria Monteiro, e lá estavam Jamelão e, num cantinho do apartamentão, a ex-Áldima. Uma moça tão expressiva quanto uma folha de alface desfilou duas ou três bossa-novas, e em seguida o Luis Carlos Vinhas chamou Áurea pra cantar. Jamelão me sussurrou: “Essa sabe das coisas”.

Há coisa de um mês fui ao lançamento de um livro organizado pela Prof. Gilda Mello e Souza, no Instituto Moreira Salles. A apresentação do livro foi feita pelo Prof. Antonio Candido, seu viúvo, que fez uma pequena palestra sobre o livro “Diálogo da vida inteira”, que reúne a correspondência trocada por Mário de Andrade e o fazendeiro Pio Lourenço Correia (Editora Ouro sobre Azul), tio-avô de Gilda, prima de Mário.

Levei comigo um ex-aluno da Oficina de Coisas, apresentei-o a Antonio Candido como meu mais recente parceiro. À saída, Vidal Assis comentou: “Reparou?”. Sim, eu havia reparado: ele era o espectador mais jovem na platéia e, também, o único negro.

Antonio Cândido explicou sua preferência sobre os personagens secundários, daí não centrar sua palestra em Mário de Andrade, mas em seu pai e no fazendeiro Pio, um excêntrico lingüista que falava quatro idiomas – e que foi o missivista mais presente na vida de Mário: trocaram cartas de 1917 a 1945, quando o autor de “Macunaíma” morreu. “Personagens secundários?” Logo pensei em Aldima, Clementina, tanta gente.

Quando fui assistir ao Recital Bibi Ferreira/Piaf levei comigo a ex-Áldima. Teatro lotado, apenas duas negras na platéia. Telefonei para a Prof. Lélia Coelho Frota, antropóloga e amiga querida, e contei o ocorrido. “O que isso quer dizer?”.

Ainda não sei dizer o que isso significa, mas a questão não deixa de ficar rondando meus pensamentos.

Lembro de alguns preconceitos vigentes na época em que trabalhei na ex-TVE (o ex está sempre presente em minha vida), hoje TV Brasil – que não disse ainda ao que veio. Um deles era sobre a faixa etária. Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina, Zé Kéti – que negaiada ... e véia, hein? parecia ouvir nos olhos censores, que além da cor também contabilizavam as rugas.

Nada ficava muito explícito naquela censura velada. Quando levei Áurea Martins para cantar no programa em homenagem ao Alcir Pires Vermelho (que faleceria pouco tempo depois), esse olhar preconceituoso não havia no andar de baixo, onde os câmeras e os operadores de som e luz eram, alguns deles, também negros. A estranheza vinha sempre do andar de cima. Talvez, quem sabe?, “sua imagem não seja muito televisiva”.

Não quero me alongar muito sobre isso, atento às observações repassadas por meu guru Alexandre Pavan: seja conciso. Mas não consigo me expressar em apenas 140 caracteres, como ordenam as regras do Twitter.

Compro um monte de revistas e jornais, semanalmente. Vejo bastante televisão, e as imbecilidades que são colocadas no ar.

“É uma das 3 maiores cantoras do Brasil!”, escreve Nei Lopes. Faltou informar isso aos editores dos segundos cadernos, a alguns críticos musicais e aos produtores de rádio e TV.

Se o Faustão (ex-Fausto Silva), se dispusesse ouvir ex-Áldima, talvez até se dispusesse a homenageá-la num daqueles quadros onde só entram protagonistas, raramente os personagens secundários de que fala Mestre Antonio Candido. Tenho a certeza que, num telão, ouviríamos o Emilio, a Alcione, o Francis Hime reverberando aquilo que sempre ouvimos de Elizeth Cardoso, Jamelão e Zezé Gonzaga.

E a ex-Áldima entraria em cena com aquela boina torta na cabeça, meio Betty Carter, meio que vindo da feira, sem lantejoulas ou badulaques coruscantes – a bordo apenas de seu talento, de sua voz poderosa, espargindo a magia própria das deusas, deusa ebanácea que às vezes chega cuspindo marimbondos e sacudindo as argolas até nos jogar em sua arena, onde se deixa arder entre canções.