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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

depontacabeça (III)

Por Aldir Blanc

Em qualquer país que preze sua cultura, Áurea Martins seria incensada. No Brasil, terra de indigência e cascatas culturais, Áurea Martins não aparece nas rádios nem na televisão. É como se privássemos o povo brasileiro de beber em fonte límpida. Cantar é, já disse e repito, o Maior Espetáculo da Alma. E nossa própria alma nunca se redimirá sem a voz sagrada de Áurea. Ela faz parte, e talvez seja a última representante, de uma tradição inesgotavelmente rica, e é também pedagógica, porque uma porção de gente que se acha cantora tem muito que aprender com a Áurea Martins.


É incrível que uma artista assim diamantífera, única, jóia da Coroa de Ouro formada por cantoras como Ângela Maria, as Irmãs Baptistas, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Aracy de Almeida, Clementina de Jesus  permaneça em ostracismo cruel.

Áurea Martins é o elo vivo de uma história, de uma Legenda Cultural nossa – uma Legenda Áurea!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Meu voto em Dilma

Aldir Blanc me telefona, advertindo para os rumos de satanização da campanha presidencial. Confesso que, na hora, não me dei conta da gravidade da advertência. Eis o texto que ele divulgou na internet.

Comprei o “Dicionário analógico” prefaciado por Chico Buarque, que agora divide prateleira com o de “Idéias Afins”, do xará Hermínio Sargentim. (Aliás, preciso recomprar o “Mèrde, Dictionaire des Injures” – um presente de meu querido Turíbio Santos e que redestinei a outro amigo querido, o poeta Carlos Drummond de Andrade). Fui também ao “Dicionário Etimológico”, do Antonio Geraldo Cunha.

Essa procura se deve à capa da “Veja” desta semana. Nela, a figura da candidata Dilma Rousseff surge diagramada de forma não muito original: a mesma foto aparece duplicada, mas em sentido oposto. Na parte de cima, em fundo vermelho, uma declaração da candidata sobre aborto. Na inferior, a mesma foto, inversa, sobre fundo branco, com outra opinião da mesma candidata a respeito do tema polêmico.

Senti ali, na hora: eis a mão peluda da direita mais conservadora expondo suas garras, suas unhas sujas.  O fundo vermelho da parte superior me remete ao satanismo – sempre foi assim, desde a infância. A analogia se faz óbvia, pelo menos para mim. Deixei de investigar nos dicionários a clarificação exata do que seria satanismo. Mas a intenção da revista está ali, tão às claras, que dispensa qualquer dicionarização.

Não preciso esperar de Marina Silva a declaração de voto que fará para os dois candidatos à presidência, ou à possível abstenção de voto, liberando seus vinte milhões de eleitores para seguirem suas consciências.

Mais uma vez, é a voz da hipocrisia que fala mais alto. A palavra aborto é maldita, e assim também se evita falar sobre drogas, sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo, temas que em outros paises menos subdesenvolvidos são abertamente discutidos – embora, sei lá, deva encontrar alguma resistência das elites conservadoras, das igrejas, ou das pessoas que simplesmente não desejam participar da questão. E respeite-se, pois, esses abstinentes. Faz parte do discurso democrático respeitar as opiniões ou a falta delas.

O que me fez votar em Marina Silva no primeiro turno foi exatamente a postura arrogante de parte dos seguidores de Dilma Rousseff, e dela mesmo, que pareciam ungidos pela vitória nas urnas, antes mesmo que elas abrissem suas bocarras. Foi um pito, um “preste atenção em seu nariz empinado”, foi uma forma democrática de dizer que votaríamos nela sim, desde que descesse de seu salto alto – e que o voto em Marina, candidata de postura fascinante, era nossa forma de dizer que existem outras maneiras de se disputar uma eleição.

Uma delas, agora, está expressa na nojenta capa da “Veja”. É uma forma de se desviar de discussões mais objetivas como saúde, educação, cultura, saneamento, planejamento familiar, etc. e tal.

Não preciso aguardar a decisão de Marina Silva para declarar meu voto em Dilma Rousseff. A mão peluda que diagramou a capa da revista “Veja” é claro que me assusta.

Mas foi uma forma clara de nos deixar atentos às manobras da direita. 

Hermínio Bello de Carvalho

PS. Hugo Carvana e outros artistas nos convocam para encontro no Teatro Casa Grande, dia 18/10. Estarei lá.


"Nós, que no primeiro turno votamos em distintos candidatos e em diferentes partidos, nos unimos agora para apoiar Dilma Rousseff.
Fazemos isso por sentir que é nosso dever somar forças para garantir os avanços alcançados. Para prosseguirmos juntos na construção de um país capaz de um crescimento econômico que signifique desenvolvimento para todos, que preserve os bens e serviços da natureza, um país socialmente justo, que continue acelerando a inclusão social, que consolide, soberano, sua nova posição no cenário internacional.
Um país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a erradicação da miséria. Um país que preserve sua dignidade reconquistada.
Entendemos que essas são condições essenciais para que seja possível atender às necessidades básicas do povo, fortalecer a cidadania, assegurar a cada brasileiro seus direitos fundamentais.
Entendemos que é essencial seguir reconstruindo o Estado, para garantir o desenvolvimento sustentável, com justiça social e projeção de uma política externa soberana e solidária.
Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi conquistado.
Por tudo isso, declaramos, em conjunto, o apoio a Dilma Rousseff. É hora de unir nossas forças no segundo turno para garantir as conquistas e continuarmos na direção de uma sociedade justa, solidária e soberana. "
O texto será entregue no Casa Grande, dia 18, às 20 hs.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aldir Blanc e Jota Efegê: o milagre

No belo “Conversa sobre o tempo” (Ed. Agir), num bate-papo conduzido por Arthur Dapieve, os Mestres Luis Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura conversam sobre a morte, no capítulo final do livro. Sendo um neurótico compulsivo, claro que o assunto me conduziu a vôos delirantes, a mil devaneios, quase todos mórbidos. Mas costumo driblar esse assunto com algum bom humor. Explicito sempre aos meus interlocutores que sou uma lápide ambulante, e que estou apenas tecnicamente vivo. E mais: ao ler meus laudos médicos, nas entrelinhas descubro atestados de óbito, antevejo obituários, ouço a marcha fúnebre de Chopin, nunca sei se o médico falou em diagnóstico ou prognóstico e se realmente me perguntou, sem sutilezas, se já consultei as cartas do tarô para saber as novas mazelas que estão a caminho.

Faço esse prolegômeno em função de um longo telefonema de meu poeta Aldir Blanc, tão hipocondríaco quanto eu. Desfilei, para afrontá-lo, uma listagem de minhas enfermices (4 stents, câncer na mama, redução acelerada de meus poucos neurônios) e, finalmente, a doença chave: labirintite. Na disputa pelos piores resultados, desfilamos vertigens, surtos psicóticos, ameaças de desmaio – e confesso que perdi a parada quando Aldir me anunciou que, além do mais, alcançou um pique de 500 pontos (ou que nome técnico isso possa ter) em sua taxa de açúcar. Ou seja: sentiu-se também personagem do capítulo derradeiro do “Conversa sobre o tempo”, pois a foice da morte o Poeta a viu de perto, zunindo aos ouvidos. E que, por conta dessa altíssisma taxa de açúcar, viu-se ameaçado de quase cegueira. Ler? Nem pensar!, avisou o esculápio. Assistir aos jogos da Copa, vendo 44 jogadores disputando as 4 bolas, que tentasse. Tentou, e deu-se mal.

O desespero tomou conta do Poeta, ex psicanalista. E como o papo era entre dois amigos, sugeri que o assunto daria uma boa crônica – e ele me autorizou a relatar a experiência que narro agora. Há alguns anos, num texto muito bonito, o Aldir comentava um dos aspectos da minha personalidade um tanto mórbida, o de colecionar lembranças de meus amigos mortos: um vestido de Dalva de Oliveira (depois doado à Alaíde Costa), louças e faqueiro de Elizeth Cardoso adquiridos em leilão, e que hoje estão à mesa de Elenice e Helton Altman, além de uma gravata do Tom Jobim, diversas trapizongas herdadas de Jacob do Bandolim, um latifúndio de quinquilharias que, para não mais me alongar, acolhia também as famosas gravatinhas brabuletas de nosso amado cronista Jota Efegê, e um par de óculos do Mestre, que destinei, por direito, ao meu querido Aldir. Isso há muitos e muitos anos.

O cronista Jota Efegê, de óculos e gravata 'brabuleta',
bebendo no Zicartola, em 1963

Se houver mistifório, balela, landuá, aldrabife, pulha, relambóia no que em seguida vos conto, não me pespeguem o rótulo de loroteiro. E Aldir, ressalvo, seria incapaz de pregar mentirolas, contar vantagens, prestar falso testemunho.

– Cadê os óculos do Jota Efegê? – E Aldir, quando se destempera, sai de perto.

O brado ecoou pela casa, pelas vizinhanças, adentrou no bar de Dona Maria, rebimbou no gramado do Maracanã, alcançou todas as cercanias do bairro tijucano habitado pelo nosso poeta, colocando a família Blanc (aí incluído, presumo, seus netos) num alvoroço invulgar. Desconheço se o Mello Menezes foi convocado para a procura que se fez pelos gavetórios, escrivaninhas, estantes – porque tudo foi escarafunchado depois daquele brado de guerra.

O desfecho será breve. Encontrados os óculos (antigão, hastes pesadas, lentes poderosíssimas), deu-se o milagre: o que era breu, carvão, negrume total, fez-se alumiamento. E cá temos o Poeta de volta às leituras proibidas pelo médico, que até hoje não sabe explicar o que aconteceu.

Coisas de São Jota Efegê, revelando-se milagreiro em benefício de um de seus acólitos favoritos – que aliás, com Sivuca, compôs o “Rancho das Abelhas” em homenagem ao nosso santo velhinho, padroeiro da crônica carnavalesca do Rio de Janeiro, amigo e Mestre querido, que não me canso de louvar.