quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A meninada de Acari

Ainda estou sob o impacto do meu encontro com a meninada do Centro de Ópera Popular de Acari. Foi no Centro Cultural Banco do Brasil, onde foi apresentado o "Onomatopéia Não é Palavrão". Lendo as avaliações que a garotada fez do espetáculo, ampliei a certeza de que é necessário fixar uma política permanente de formação de novas e jovens platéias.

Hermínio e Pedro Amorim com a turma de Acari

O CENTRO DE ÓPERA POPULAR DE ACARI oferece aos moradores do Parque Colúmbia, Acari e adjacências oficinas de balé clássico, música, fotografia e a Casa de Leitura  – uma biblioteca comunitária que oferece oficinas de incentivo a leitura, passeios a bienais, salão do livro e outras atividades).
O Centro atende mais de 2.200 crianças, jovens e adultos que, de segunda a sábado, despertam e desenvolvem gratuitamente seus dons e suas potencialidades.

domingo, 26 de setembro de 2010

Meu voto vai para o Buraco Quente

Era um hábito: pegar o carro e levar meus amigos ao Buraco Quente, na Mangueira. Antes, passava pelas casas de Cartola e Zica, de Neuma e também na de Carlos Cachaça e Menininha, arregimentava aqueles amigos e íamos nos fartar de alegria na Birosca da Efigência do Balbino, no Buraco Quente.

Há uns anos (mais de 10 e menos de 15) um amigo meu me fez cumprir a promessa de levá-lo a um lugar que, por minha causa, povoava seu imaginário. Passei pela casa de Neuma e tentei convencê-la a nos acompanhar naquela visita. Ela relutou, melhor seria pedir umas cervejas e ficar por ali mesmo, e achei estranho. Mas, enfim, sou tinhoso quando boto uma idéia na cabeça, e acabei enlaçando minha amiga e lá estamos nós três bebendo uma geladinha. Eis que olho para meu amigo e o vejo com os olhos esbugalhados. Foi quando me dei conta da meninada que passava com armas ensarilhadas, uma juventude dominada pelo tráfico, e aí entendi a relutância de Neuma em nos acompanhar. Ela apenas sussurrou para meu amigo Alecir: “meu filho, finja que não está vendo”.

O mesmo hábito eu guardava para amigos de fora: levá-los para conhecer a casinha de vila que habitei na infância. Subia pela Hermenegildo de Barros, ia direto pra rua Aarão Reis e embicava o carro pro Beco Ocidental. Era o menino que voltava ao seu parque de diversões. Em frente, numa imponência cheia de estranhezas, ficava um então sossegado Morro da Coroa. Há pouco tempo, naquelas imediações, meu amigo, o teatrólogo Vicente Maiolino, foi brutalmente assassinado. 

Fui envelhecendo, perdendo meus amigos queridos, e nunca mais voltei à minha Escola de coração: aquela que, vista do alto, mais parecia um céu no chão, ele coberto de esmeraldas.  Alvorada lá no morro, que beleza!? Nunca mais.

Meus 75 anos de vida eu os passei no Rio de Janeiro, e nunca sonhei em sair daqui. Tenho uma amiga querida que foi obrigada a sair de sua casa, nas imediações da Mangueira, porque sua rua foi tomada pelo tráfico. Ela, com filho pequeno, não quis se arriscar.

Moro num bairro relativamente  tranqüilo, onde me dedico a plantar lírios-da-paz nos canteiros mal tratados pela prefeitura e a advertir aqueles que insistem em não recolher as fezes de seus cachorros, indiferentes aos deficientes físicos que transitam por ali. Algumas pessoas ainda estranham em ver aquele idoso catando lixo nos canteiros. Mas  acabam aderindo à iniciativa.
 Integrantes da Escola Portátil de Música

Ontem fui me encontrar com o pessoal da Escola Portátil de Música na Taberna da Glória, que foi meu refúgio nas décadas de 50 a 70. Naquela época morava na Beco do Rio, hoje extinta, que ficava a poucos metros da antiga Taberna onde bebi com Araci de Almeida e Ismael Silva, e onde Mário de Andrade se encontrava com a fina flor da inteligência carioca – inclusive a própria Araca.  

A Escola Portátil e o Instituto Jacob do Bandolim estão comemorando dez anos de existência! De alguma forma, muitíssimo modesta, estimulei meus amigos a concretizarem seus sonhos. Tive o cargo de conselheiro naquelas duas casas e me afastei quando fui nomeado para o Conselho Estadual de Cultura – então presidido por minha querida amiga Ana Arruda Callado. Me demiti do Conselho quando vi que um manifesto que assináramos não tivera a menor ressonância na imprensa do país. Protestávamos contra a ausência de uma política cultural por parte de um ministério que desde a ascenção do Fernando Collor perdera sua expressividade. 

Tenho acompanhado as ações das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), voltadas  para algumas comunidades dominadas pelo tráfico. Os resultados são claros na maioria delas: não ver aquela multidão de trabalhadores afrontada por armamentos bélicos,  saber que equipamentos culturais e sociais estão sendo montados com o objetivo de resgatar o direito de cidadania conspurcado pelas milícias – a tudo isso some-se a alegria de ver que nossa Escola Portátil de Música (800 jovens que estudam, discutem e tocam Pixinguinha, Anacleto, Tom Jobim) ganhou enfim uma sede. Ela fica na rua da Carioca, perto da Praça Tiradentes.

Num voto de confiança ao Governo do Estado que busca um segundo mandato, estou doando todo meu acervo ao novo Museu da Imagem e do Som (MIS). Espero que, no próximo mandato, seja dada mais atenção aos bordões que vivo apregoando por aí – a cultura tem que circular. Há que reabrir as portas do Teatro João Caetano para um projeto similar ao Seis e Meia, criado por Albino Pinheiro. Que o futuro Ministério da Cultura saia de sua letargia e abra o mercado de trabalho para os músicos brasileiros, recolocando na estrada o (criminosa e covardemente) extinto Projeto Pixinguinha. Há que levar para essas UPPs as tantas jovens orquestras (Furiosa Portátil, Leviana, Imperial) que estão soltas por aí. Aliás, um passo já foi dado pela Secretaria de Cultura: jovens professores da Escola Portátil estão atuando em Manguinhos. Meu voto para governador vai para Sérgio Cabral.
 
 Senadora Marina Silva

Meu voto para presidente vai para Marina Silva, embora saiba que o cargo será ocupado por outra mulher, de quem espero um olhar mais incisivo para a educação e a cultura, tão maltratados nesses últimos anos. Concordemos que com estomago vazio ninguém consegue ir à escola. Estratificada uma política que não seja meramente assistencial, que se dê ao povo o direito de exercer sua cidadania, a de ser um brasileiro sem medo de ir aos lugares que povoaram sua infância e juventude, e que muitas escolas portáteis ( que são verdadeiras UPPs culturais) proliferem pelo país afora.

Antes de terminar, uma denúncia: querem acabar com a TV Cultura, ou reduzi-la à mesma desimportância da ex-TVE, hoje TV Brasil. 

Em tempo: não exerço nenhum cargo público, vivo da minha aposentadoria e de meus parcos direitos autorais.

Sim, há que lembrar: a heróica Amar-Sombrás está fazendo 30 anos de existência. Que saudades de Mauricio Tapajós!

E que São Pixinguinha nos inspire e proteja na hora de votar.

Hermínio Bello de Carvalho 

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade e Hermínio Bello de Carvalho na TV Cultura


Neste domingo (05/09), às 21h30, o programa "Entrelinhas" (TV Cultura) exibe uma entrevista que o jornalista Manuel da Costa Pinto fez com Hermínio Bello de Carvalho sobre o novo livro do poeta e compositor. O volume "Àporo", que será lançado neste mês pela editora Imprensa Oficial, reúne as cartas, bilhetes e poemas trocados entre Hermínio e Carlos Drummond de Andrade ao longo de 30 anos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A nova sede da Escola Portátil de Música


Que se noticie: a Escola Portátil de Música ganhou uma sede, na Rua da Carioca, Rio de Janeiro. Quase em frente ao centenário Bar Luiz, próximo do lindo cinema Ritz. Será  vizinha de um ex-cinema que ainda ostenta o esqueleto de uma engrenagem que movia o teto retrátil da esplendorosa sala, teto que era bastante utilizado na época do verão.

A Escola Portátil hoje abriga mais de 800 alunos que sabem tudo sobre Pixinguinha, Tom Jobim, Anacleto, Radamés Gnattali, Chiquinha Gonzaga, Guinga. Sabem e tocam. E depois de alunos, viram monitores – e aí então, passam a ser oficineiros. Uma parte deles está agora em Manguinhos, atuando num projeto social. Acho que fariam bonito ensinando música às comunidades carentes que já foram ocupadas pelas UPPs (Unidades Policiais Pacificadoras), com um novo conceito de erradicação do tráfico armado e das milícias que tomaram conta de nossas favelas, cuja ocupação maciça é feita pela massa operária.

Aprendi com uma querida amiga a ter um olhar que contemple os dois lados das criaturas bem como das situações que elas criam. “Há sempre um lado bom em qualquer história”, tenta me seduzir. Falo de Heloisa Lustosa, filha de Pedro Aleixo, único dos ministros a não colocar sua assinatura no maldito AI-5. Católica fervorosa, era presidente do Museu de Arte Moderna em pleno regime militar, e sabe o quanto penou ao nos ceder uma salinha para a instalação da Sombrás. Tachados de subversivos (e tentávamos sim subverter a situação imoral que assolava os direitos autorais no Brasil), sempre tivemos sua amiga mão amiga sobre nossos ombros. 

De uma certa forma, fez-me tornar menos vesgo e radical para uma figura particularmente polêmica da política brasileira: Carlos Lacerda. Atenuo meu horror àquele homem público sempre que atravesso o aterro do Flamengo, e me vejo diante da esplendorosa Baía de Guanabara, e diviso dois símbolos de minha cidade: o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Lacerda era um visionário que amava sua cidade.
Infelizmente, ainda não consigo ser complacente e generoso com esse Ministério da Cultura que aí está aí. Faço coro aos meus ex-colegas do Conselho Estadual de Cultura: não existe uma política cultural emanada por aquele Ministério. Se a Escola Portátil tornou-se um Ponto de Cultura (um dos programas do MinC), também o Jongo da Serrinha ganhou o mesmo beneficio – mesmo tendo encerrado suas atividades sociais.

E a nossa classe, agora, é convocada para uma reunião com o referido Ministro. O convite é explícito: apenas para compositores, intérpretes. Nada de representantes das entidades que administram nossas vidas. Isso exclui Paulinho César Pinheiro (que é diretor da Amar-Sombrás), e inúmeros compositores que fazem parte da diretoria de outras associações, como é o caso de Fernando Brant e Ronaldo Passos, para ficarmos apenas em dois exemplos. 

Ao lixo as TVs culturais e educativas. Ou: Cultura virou palavrão


O lado ruim de se sobreviver tanto tempo do lado de cá onde me sinto tecnicamente vivo, é que, fora as novas tecnologias (e sobretudo a Internet) tudo parece repeteco. Reprise de filme ruim, a que fomos obrigados a assistir outras vezes.

Lembro, e aos 75 anos há muito que recordar, alguns episódios que marcaram minha vida. O golpe militar de 64 havia colocado suas botas, bordunas e carabinas dentro da Rádio Nacional, promovendo uma degola sem precedentes na história daquela emissora. Lembro de um querido amigo, o modinheiro Paulo Tapajós, que era um dos diretores da rádio. Ele, irônico, desmentia que o animador César de Alencar (um talento fabuloso na área de comunicação) fosse um dedo-duro. Segundo Paulo, César apontava com o beiço, para a junta militar instaurada, os chamados elementos subversivos. E eles eram imediatamente ceifados. César não era, portanto, um dedo-duro na acepção completa do termo, mas um beiço duro.  

Quando Fernando Collor surgiu no panorama político brasileiro como candidato à Presidência da República na década de 90, sua plataforma de governo era uma luta acirrada contra a corrupção e uma caça aos chamados “marajás”, uma casta que nunca deixou de proliferar, tal e qual as gigóias que volta e meia provocam a mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas (vivo no Rio de Janeiro), causando um mau cheiro indescritível. Ora meu Deus, que ninguém se esqueça: ao vencer as eleições, uma das primeiras medidas de Collor foi vingar-se da classe artista que o rejeitou nas urnas. Desmontou o Ministério da Cultura. Naquela época, 1990, vaticinei: essa merda vai demorar uns 20 anos para ser consertada.

Errei no prognóstico: quatro anos de Sarney, oito de Fernando Henrique Cardoso e mais oito de Lula só fizeram confirmar que cultura era lixo, palavrão, matéria-prima abjeta e de pouca serventia. No máximo, moeda de barganhas políticas. O Ministério de Cultura, como bem proclama o Ziraldo, não apresentou nenhuma política cultural nesses últimos 16 anos. A não ser, como é notório, acabar com o Projeto Pixinguinha e outros programas culturais desenvolvidos a partir da gestão Aloysio Magalhães.  

Lembro, e continuo lembrando, dos tempos da Rádio MEC quando lá a ditadura se instalou. A discoteca foi toda desmontada, o pessoal que ostentava idéias contrárias era sumariamente colocado no olho da rua. Inclusive eu, que movi ação contra emissora em plena ditadura militar, ação que tramitou durante 25 anos, findo os quais venci a questão.

Mesma situação viveria quando chegou Fernando Collor, e fui colocado em disponibilidade, mesmo estando em pleno exercício de minhas funções de produtor na TVE.

Quando leio a nota que vai abaixo, é natural que me sobrevenha uma onde de arrepios. É a reprise de um filme que já conheço.  Quando a TVE foi sucateada, para dar lugar à anódina TV Brasil, havia também a promessa de manutenção de seus recursos humanos.

Vamos lá, abrindo parênteses:

Novo presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, o economista João Sayad se reuniu ontem com cerca de 50 funcionários das produções da emissora. Sua intenção era acalmar ânimos, depois das notícias sobre as mudanças em curso na casa, com a extinção de programas e demissões de profissionais.
Sayad ouviu o que não queria. Dos produtores de Login, tomou uma lição. Eles reclamaram que ficaram sabendo que o programa será extinto por meio do jornal O Estado de S.Paulo, o que acharam uma falta de respeito. "Nunca vi uma coisa dessas", protestou um dos profissionais. Sayad teve de admitir que "falhou na comunicação".
Os produtores de Login também questionaram o fato de o programa ter sido extinto com apenas quatro meses de existência e sem nenhuma tentativa de mudança.
No encontro, o presidente da Cultura confirmou que vai "descontinuar alguns programas", aumentar a importação de conteúdo e reduzir o espaço da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo).
Uma educadora reagiu. Lembrou Sayad do passado glorioso das produções infantis da emissora. "Você pretende acabar com todos os prêmios que a TV Cultura já ganhou", disse ela.
Um momento foi especialmente constrangedor. "Você é um homem de planilha, um homem de máquina de calcular. Nós construímos sonhos. Entre o seu plano e as realizações desse senhor, nos ficamos com esse senhor", disse um funcionário, apontando para Fernando Faro, criador do prestigiado Ensaio. O funcionário foi aplaudido.” (FONTE: Blog do Daniel Castro)

Fico imaginando a dor e a tristeza de Mestre Fernando Faro, um dos ícones da televisão cultural-educativa, que com seu programa “Ensaio”, praticamente reconstituiu parte da memória musical brasileiro na área televisiva. Volto a 1964, e compareço a uma assembléia no auditório da Rádio Nacional, o cantor Black-Out aos prantos, se insurgindo contra aquela ignomínia.
Continuemos:

A Fundação Padre Anchieta divulgou nota oficial no início da tarde desta quarta-feira (4), posicionando-se em relação à notícia deste blog de que a TV Cultura irá passar nos próximos meses por um processo de reestruturação em que poderão ser extintos vários programas e demitidos até 1.400 dos cerca de 1.800 funcionários da emissora.
A nota oficial não nega as informações publicadas pelo blog. Não fala em demissões ou enxugamento da produção própria. Mas anuncia um processo renovação da TV Cultura, porque a emissora "perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente".
Leia a íntegra da nota:
"Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:
A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.
Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas". (FONTE: Blog do Daniel Castro)

A conferir. E abrindo novo parênteses :

Ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad assumiu a presidência da TV Cultura em junho com a missão de reduzir a TV pública paulista a uma simples TV estatal. Com o aval do ex-governador José Serra e do atual governador, Alberto Goldman, Sayad pretende reduzir ao máximo a produção de programas e cortar o número de funcionários em quase 80%, dos atuais 1.800 para 400.
Sayad pensa até em vender o patrimônio da TV Cultura. Já encomendou aos advogados da emissora um estudo sobre a viabilidade de a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV, se desfazer de seus estúdios e edifícios na Água Branca, em São Paulo.
Em reuniões com diretores da emissora, Sayad tem dito que a Cultura não precisa ter mais do que 400 funcionários, que ficariam, segundo ele, muito bem instalados em um andar de um prédio comercial. A postura evidencia que a TV Cultura deixou de ser uma questão de política pública. Passou a ser um "pepino", um problema a ser eliminado pelo governo do Estado.
Fontes ouvidas pelo blog informam que Sayad vive dizendo que irá transformar a Cultura, hoje produtora de programas, em uma coprodutora. Ou seja, ela deixará de produzir programas de entretenimento. Passará a encomendá-los a produtoras independentes e a comprá-los no mercado internacional. Atrações como o Metrópolis podem estar em seus últimos dias.
O jornalismo da Cultura deixará de investir no noticiário do dia a dia, caro e mais bem produzido pelas redes comerciais. A partir de setembro, o Jornal da Cultura, com Maria Cristina Poli, passará a ser um jornal mais de debates, de discussão sobre o noticiário, do que de notícias.

Corte de receitas

A TV Cultura tem hoje um orçamento de cerca R$ 230 milhões. Desse total, R$ 50 milhões vêm da venda de espaço nos intervalos dos programas para anunciantes privados. Outros R$ 60 milhões são oriundos da prestação de serviços, como é chamada na emissora a produção de programas e vídeos para instituições como o Tribunal Superior Eleitoral, a Procuradoria da República, a TV Assembleia (do Estado de S.Paulo) e a TV Justiça.
Pois a gestão de Sayad já iniciou o desmonte dessas duas fontes de recursos. Até o ano que vem, a TV Cultura não terá mais nenhuma publicidade comercial em seus intervalos nem produzirá mais programação para órgãos públicos (a publicidade institucional, irrisória, será mantida). Dessa forma, reduzirá uma boa parte do seu número de funcionários.
Se o plano for executado, a TV Cultura sobreviverá apenas dos R$ 70 milhões que o governo do Estado aporta diretamente todos os anos, além de outros R$ 50 milhões que ela recebe pela produção de conteúdo para as secretarias estadual e municipal de Educação.
O plano de demissões de Sayad é mais complexo. Por causa das eleições de outubro, ele não pode demitir funcionários contratados em regime de CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) até dezembro. A Cultura tem entre 1.000 e 1.200 funcionários celetistas. Esses trabalhadores têm emprego garantido até janeiro. Depois, dependem da postura do novo governador do Estado. Para demitir funcionários celetistas, Sayad precisará do apoio do futuro governador, porque terá de contar com verbas extras para pagar as indenizações.
Já os profissionais contratados como pessoas jurídicas (os PJs, pessoas que têm microempresas) podem ser "demitidos" a qualquer momento. Eles seriam de 600 a 800. Os cortes devem ser feitos à medida que contratos de prestação de serviços, como o da TV Assembleia, forem vencendo e não renovados.
O blog tentou ouvir o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, sobre as mudanças que ele pretende implantar na TV Cultura. Na última segunda-feira, por meio da assessoria de imprensa da emissora, pediu uma entrevista. Ontem à tarde, a TV Cultura informou que Sayad não falaria com o R7.
As informações aqui publicadas foram relatadas previamente à assessoria de imprensa da TV Cultura. Nada foi negado. (FONTE: Blog do Daniel Castro)

Concluindo: a cultura vive um de seus piores momentos. O Ministério que deveria propor políticas culturais, na verdade utiliza subterfúgios como, por exemplo, discutir uma nova Lei dos Direitos Autorais, justamente nos minutos finais do segundo tempo do jogo, ou seja, no final de um mandato ministerial que exatamente não primou por ações exemplares. Vide a crise na Funarte. A TVE, que recebeu polpudas verbas da Petrobras para recuperar seu acervo de fitas, recolocou nas prateleiras o material digitalizado, devolvendo-o ao anonimato.
A Cultura não circula. O mercado de trabalho não oferece muitas alternativas nem para os artistas e nem para o público. Não vemos nenhum candidato à Presidência pronunciar-se sobre matéria que, presumo, é para eles muito indigesta.
Cultura, nos últimos tempos, virou palavrão.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aldir Blanc e Jota Efegê: o milagre

No belo “Conversa sobre o tempo” (Ed. Agir), num bate-papo conduzido por Arthur Dapieve, os Mestres Luis Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura conversam sobre a morte, no capítulo final do livro. Sendo um neurótico compulsivo, claro que o assunto me conduziu a vôos delirantes, a mil devaneios, quase todos mórbidos. Mas costumo driblar esse assunto com algum bom humor. Explicito sempre aos meus interlocutores que sou uma lápide ambulante, e que estou apenas tecnicamente vivo. E mais: ao ler meus laudos médicos, nas entrelinhas descubro atestados de óbito, antevejo obituários, ouço a marcha fúnebre de Chopin, nunca sei se o médico falou em diagnóstico ou prognóstico e se realmente me perguntou, sem sutilezas, se já consultei as cartas do tarô para saber as novas mazelas que estão a caminho.

Faço esse prolegômeno em função de um longo telefonema de meu poeta Aldir Blanc, tão hipocondríaco quanto eu. Desfilei, para afrontá-lo, uma listagem de minhas enfermices (4 stents, câncer na mama, redução acelerada de meus poucos neurônios) e, finalmente, a doença chave: labirintite. Na disputa pelos piores resultados, desfilamos vertigens, surtos psicóticos, ameaças de desmaio – e confesso que perdi a parada quando Aldir me anunciou que, além do mais, alcançou um pique de 500 pontos (ou que nome técnico isso possa ter) em sua taxa de açúcar. Ou seja: sentiu-se também personagem do capítulo derradeiro do “Conversa sobre o tempo”, pois a foice da morte o Poeta a viu de perto, zunindo aos ouvidos. E que, por conta dessa altíssisma taxa de açúcar, viu-se ameaçado de quase cegueira. Ler? Nem pensar!, avisou o esculápio. Assistir aos jogos da Copa, vendo 44 jogadores disputando as 4 bolas, que tentasse. Tentou, e deu-se mal.

O desespero tomou conta do Poeta, ex psicanalista. E como o papo era entre dois amigos, sugeri que o assunto daria uma boa crônica – e ele me autorizou a relatar a experiência que narro agora. Há alguns anos, num texto muito bonito, o Aldir comentava um dos aspectos da minha personalidade um tanto mórbida, o de colecionar lembranças de meus amigos mortos: um vestido de Dalva de Oliveira (depois doado à Alaíde Costa), louças e faqueiro de Elizeth Cardoso adquiridos em leilão, e que hoje estão à mesa de Elenice e Helton Altman, além de uma gravata do Tom Jobim, diversas trapizongas herdadas de Jacob do Bandolim, um latifúndio de quinquilharias que, para não mais me alongar, acolhia também as famosas gravatinhas brabuletas de nosso amado cronista Jota Efegê, e um par de óculos do Mestre, que destinei, por direito, ao meu querido Aldir. Isso há muitos e muitos anos.

O cronista Jota Efegê, de óculos e gravata 'brabuleta',
bebendo no Zicartola, em 1963

Se houver mistifório, balela, landuá, aldrabife, pulha, relambóia no que em seguida vos conto, não me pespeguem o rótulo de loroteiro. E Aldir, ressalvo, seria incapaz de pregar mentirolas, contar vantagens, prestar falso testemunho.

– Cadê os óculos do Jota Efegê? – E Aldir, quando se destempera, sai de perto.

O brado ecoou pela casa, pelas vizinhanças, adentrou no bar de Dona Maria, rebimbou no gramado do Maracanã, alcançou todas as cercanias do bairro tijucano habitado pelo nosso poeta, colocando a família Blanc (aí incluído, presumo, seus netos) num alvoroço invulgar. Desconheço se o Mello Menezes foi convocado para a procura que se fez pelos gavetórios, escrivaninhas, estantes – porque tudo foi escarafunchado depois daquele brado de guerra.

O desfecho será breve. Encontrados os óculos (antigão, hastes pesadas, lentes poderosíssimas), deu-se o milagre: o que era breu, carvão, negrume total, fez-se alumiamento. E cá temos o Poeta de volta às leituras proibidas pelo médico, que até hoje não sabe explicar o que aconteceu.

Coisas de São Jota Efegê, revelando-se milagreiro em benefício de um de seus acólitos favoritos – que aliás, com Sivuca, compôs o “Rancho das Abelhas” em homenagem ao nosso santo velhinho, padroeiro da crônica carnavalesca do Rio de Janeiro, amigo e Mestre querido, que não me canso de louvar.

Sempre revolucionária

Vamos virar a ampulheta, retroceder uns 30 anos, e perceber que, na cozinha, existe uma certa algaravia. Um destampar de panelas misturado a exclamações de todos os tipos – e a pergunta habitual: hoje tem bolinho de jiló? Quem chega é a Divina Elizeth, sempre entrando pela cozinha para, gulosa, inspecionar as panelas. Para quem não conheceu a Divina e Enluarada pessoalmente, devo esclarecer que ela não é de ir a lugares enfumaçados e recendentes a bebida. Já trabalhou tanto ganhando a vida com sua voz privilegiada, que hoje é seletiva. Por exemplo, só sai de casa para ouvir uma Áurea Martins. E aí não economiza elogios, como se comprova em sua biografia escrita por Sergio Cabral, que inclui Áurea entre suas intérpretes preferidas.

Se estou falando de Elizeth é porque minha relação pessoal com a Divina era meio de irmão um pouco mais novo, dela chegar em casa e, perguntada como andava de amores, dizia em alto e bom som: “Não tenho nem quem me mande à merda!”. Mentira pura, engodo inútil que a figura linda, pernas e braços roliços, a elegância natural – fica difícil pensar na Divina encerrada num claustro.

Bia Paes Leme me pede um texto sobre Elizeth, para as comemorações do noventenário da Divina. Como negar alguma coisa à minha Divina Cléo (Cleonice Berardinelli) da música, que aos cinco anos, com outra sobrinha minha, Sheilla, foi assistir ao “Rosa de Ouro” no Teatro Jovem, levadas por mim. Talvez, quem sabe, tenha sentado ao lado de Elizeth, que não saía de lá.

Há pouco tempo o (Luiz Fernando) Veríssimo escreveu uma belíssima crônica intitulada “Revolucionários”, centrada nas figuras de Miles Davis e Elizeth. Miles era um revolucionário, que transitava por todas as vertentes modernas do jazz, surfando no bebop, inventando o cool jazz e trocando-o em seguida por outra invenção presumivelmente sua, o hard bop. Isso não o impediu de gravar um disco inesquecível, o “Porgy and Bess”, que teria uma outra versão maravilhosa com Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, e uma outra, se não me engano, com Ray Charles e Betty Carter. Mas, insatisfeito, ei-lo agora lançando o “Kind of Blue”, numa experiência que chamou de jazz modal. E aí, conclui Veríssimo, eis que Miles surge de túnicas coloridas, fundindo jazz com o rock. Mais radical, impossível.

Veríssimo, enfim, encontra similaridade entre Miles Davis e Elizeth Cardoso no quesito “Revolucionários”. Cita o célebre “Canção do amor demais” (1958), ela juntando Tom e Vinicius, e fazendo-se acompanhar pelo violão de João Gilberto, mas negando-se a se entrelaçar no modelo de canto minimalista com que ele tentara seduzi-la, sem sucesso. A bossa-nova, como a conhecemos, não começaria ali na interpretação de Elizeth – mas um tempo depois, quando João, enfim, conseguiu impor sua estética.

Elizeth Cardoso e Turíbio Santos, em 1960

Veríssimo cita não só esse disco mas também o “Elizeth sobe o morro”, que tive o privilégio de produzir para a Divina. A fantástica intérprete de Tom e Vinicius aparece agora com outro violão, cujas estranhezas logo fariam celebrizar seu executante: Nelson Cavaquinho. Colocá-lo acompanhando Elizeth, e cantando com ela, foi sim uma atitude que afrontava as regras ditadas pelo mercado. Porque tudo ali se contrapunha à estética joãogilbertiana: a voz rascante de Nelson, seu violão quase primitivo, de uma rudeza transcendental, tudo ali transpirava beleza. Lembraria ao Veríssimo outras atitudes revolucionárias de Elizeth: cantar a “Bachianas nº 5”, de Villa-Lobos, sob a regência de Diogo Pacheco (isso em 1964); deixar-se flutuar na “Melodia sentimental”, do mesmo Villa, num “Concertos para a Juventude”, acompanhada pelo violão erudito de Turíbio Santos; e se enredando também nas cordas de Baden Powell, ou interpretando um Cláudio Santoro para, em seguida, fazer dupla com quem?, Ciro Monteiro.

E como não citar o concerto no Teatro João Caetano, em 1968, ela ao lado de Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e Época de Ouro? E, igual a Miles Davis, também vestia por vezes as túnicas coloridas para ir gravar seus dois discos terminais, o “Ari amoroso” e o “Todo sentimento”, neste último acompanhada pelo 7 cordas de Rafael Rabello. No estúdio, algumas vezes, pedia um tempo para deitar-se e contorcer-se de dor com o câncer que a levaria logo depois, sem poder alcançar o lançamento daqueles dois trabalhos.

Se conto essas coisas, 20 anos após o desaparecimento de Elizeth e nos 90 anos que faria em julho de 2010, é para ampliar o conceito do grande Veríssimo, que se pergunta, ao final da crônica, “se Elizeth subiu o morro no mesmo espírito com que o Miles voltou ao hard bop”. Num programa de televisão, armei uma cilada para ela: “Tom Jobim ou Pixinguinha”. E a Divina, sem pestanejar: “ora, fico com os dois”. Subir ou não o morro, pisar o palco do Theatro Municipal, deixar-se levar pelo Brasil afora com o piano de Radamés e com a moderníssima Camerata Carioca, cantar “a capella” o “Serenata de adeus”, fazendo o público debulhar-se em lágrimas inestancáveis e ovacioná-la de pé – nada fazia diferença para Elizeth, desde que a qualidade, e os riscos a ela inerentes, estivesse presente.

Revolucionária sempre.