Acho importante que a Ministra Ana de Hollanda tenha mexido nesse vespeiro. Espero que essa atitude estimule uma outra, a de discutir o mercado de trabalho. Feito o pessoal do cinema, também a gente da música se depara com um mercado atrofiado, cada vez mais cerrando suas portas.
Sei lá, acho que essa discussão sobre os Creative Commons tem a ver com essa outra, que me inquieta bastante: a de estar infringindo as leis dos direitos autorais.
Explico. Este AcervoHBC tem como objetivo ser um prestador de serviços, colocando em circulação um arquivo que acumulei desde os 15 anos. Ou seja, há 60 anos passados. Lembro quando estendi um caderno pro Luis Carlos Prestes autografá-lo para mim, e ele me deu um bônus de um jornal que o Partido Comunista editava. Lembro também de quando enviei uma maçaroca de livros e discos (muitos de Villa-Lobos) para Igor Stravinsky, que veio ao Brasil para reger o “Baisée de la feu”. Devolveu a encomenda, com um bilhete manuscrito meio malcriado. Será que a família do Strava (obrigado, Luiz Ribeiro) irá me processar se eu colocar isso no meu saite? Ou os possíveis descendentes de Valzinho, um dos mais criativos e modernos compositores surgidos na década de 1930, ao lado de Custódio Mesquita e Garoto – para ficarmos apenas em dois exemplos? Detesto infringir as leis. Mas confesso que leis injustas tem que ser debatidas à exaustão.
Tenho propagado por aí um bordão: “Cultura tem que circular”. O nosso saite tem esse objetivo, escarafunchar meus arquivos e colocar em circulação todo e qualquer tipo de informação.
Levei essa questão para alguns amigos meus, inclusive Antonio Adolfo, que me sugere obter autorizações dos personagens que compõem meu acervo. Mas esqueci de dizer que são por enquanto 10.000 itens, que tendem duplicar ou triplicar num futuro próximo.
Não há meio termo para essa discussão. Ou bato nos túmulo de Radamés, Valzinho, Elizeth, Luzinho Eça, Caymmi, Tom Jobim e centenas de outros quase contemporâneos meus para solicitar a seus herdeiros autorização para divulgar o que esses artistas nos legaram e que as rádios e televisões deixaram fora de circulação?
Uma atitude mais drástica seria encerrar meu saite, até que uma lei – ou um conjunto de leis – ponha ordem nesse galinheiro.
Quanto à Ana de Hollanda, hoje Ministra, dou meu apoio total por ter metido a mão nesse vespeiro. Para mudar as regras do jogo, há que enfiar as mãos no lodaçal. Águas turvas nunca foram boas conselheiras.
Que essa discussão envolva toda a sociedade de músicos e autores que fazem a nossa música, que produzem a nossa cultura. Num inevitável e sadio confronto de posições e idéias, há de surgir uma solução que contemple não apenas Creative Commons ou as atividades na Internet – porque o mundo virtual nos reserva outras surpresas, outras mídias que já estão em desenvolvimento – e para elas devemos estar preparados.
Com o universo virado de pontacabeça com essas novas tecnologias, nada mais natural que essa discussão ganhe novos olhares, sem que se perca de vista que todas essas celeumas envolvem um bem imaterial inestimável, que é a nossa cultura. Somos parte dela.
O foro para essas discussões é um Ministério próprio que é sustentado por todos nós, contribuintes, e por uma legião incalculável de artistas que geram lucros culturais e também pecuniários. E quem fornece essa matéria-prima não pode ser ignorado.
Mas sem deixar de lado uma questão fundamental: a informação tem que circular, a cultura tem que circular, e o artista precisa circular não apenas virtualmente.
É hora, pois, de discutir o mercado de trabalho.
SEM MUDAR DE CONVERSA
Claro que dou o braço a torcer. Às vezes fico olhando a vida pelo retrovisor e não reparo nas buraqueiras que o tempo vai inaugurando nas estradas que percorro. Também me vejo reprisando velhos conceitos, ignorando a ampulheta que, na minha frente, me alerta: “os tempos mudaram”; “os tempos são outros”.
Mas é bom que, pelo menos, sejamos nós mesmos diante da mudança dos ventos. Caso contrário, corremos o perigo de sermos meros passageiros, e não os condutores desse bonde que de quando em vez ameaça escapar dos seus/nossos trilhos.
Tampouco menospezo aqueles que tecem, bordam, cerzem, chuleiam e ainda fazem remendos ou pregam botões enquanto se equilibram nos trapézios e tocam flautas e harpas ao mesmo tempo. Invejo, com o mais torpe sentimento de inveja, aqueles que opinam sobre tudo e sobre todas as coisas, mesmo sem sabê-las, mas cuidando de expelir inebriantes nuvens de fumaças multicoloridas que desviam nossos olhares para a fantasia esfrangalhada, cheia de remendos que, à distancia, não percebemos. Essa tal versatilidade me encanta durante algum tempo, sim, mas evito falar de coisas que não conheço, que não me deram intimidade para tratá-las.
Todo esse preâmbulo (ou prolegômanos, se preferirem) é porque o assunto da moda, os Creative Commons, é algo que não domino. E sobre eles falei prum jornal de São Paulo, e vi que se armou uma arena – e, igual a Joyce e ao contrário de Caetano, estou fora de certas polêmicas.
Aí pego o fio da história que desejo contar.
Durante algum tempo exerci a função de oficineiro na Escola Portátil de Música. Não, não havia o caráter formal de uma aula. Oficina de Coisas foi a designação menos pretensiosa que encontrei, e sintetizava a idéia básica: informar e retrabalhar informações diversas junto aos oficinandos. Coisa simples. Levava um dos vídeos de meus programas na ex-TVE (atualmente a sucateada TV Brasil, tal e qual a TV Cultura, em processo de desmanche) e os exibia, provocando comentários.
Devo a Aracy de Almeida e Radamés Gnattali ter aprendido a dar um rumo àquelas “aulas”. Nelas, trabalhava com “estranhezas” (não confundir com exquisitices), que me serviam para conexões as mais audaciosas. Exemplo: Aracy, minha doce Araca. A voz anasalada, timbre raríssimo, dicção perfeita, voz louvada por seu companheiro de mesa na Taberna da Glória, Mário de Andrade. “Era um matusquela. Bebia pra cacete”. O depoimento está lá, empoeirado e engavetado nos arquivos da TVE, num de meus programas. E ela declamando Augusto dos Anjos, falando de sua turma no Vilarino (Antonio Maria, Vinicius, Di Cavalcanti, Fernando Lobo, Rubem Braga), e contando um episódio ocorrido entre Goethe e Schopenhauer, diante de uma vitrine cheia de badulaques numa fria madrugada de Viena. Estranhezas, para muitos que não a conheciam. E, de alguma forma, foram buscar conhecê-la.
Em primeiro lugar, por que Aracy de Almeida? O mito sobrevivia na memória coletiva graças à sua atuação como jurada no programa do Flávio Cavalcanti. Ela era escrachada e carregava no azedume em seus comentários críticos. Ficou, de Aracy, essa imagem turrona – que a Internet não pára de circular. Da cantora, ouso dizer: nada ou pouco se sabe.
De Radamés, o que posso dizer é que vivia quase de forma sedentária, aguardando que a TV Globo, que o mantinha na folha de pagamento, o escalasse para um programa. Lembro de um “Fantástico”, se não me falha a memória: ele embecado numa casaca branca acetinada, regendo uma orquestra. Nenhuma informação relevante, que eu me lembre, na legenda do “clip”. Quando, em 1979, se juntou à garotada da Camerata Carioca, graças a Joel Nascimento, houve uma espécie de ressurgimento do Maestro. Aquele senhor de cabelos brancos, à frente da meninada super talentosa, mexeu com os esquemas da época. Havia, provaram, um espaço para a música de qualidade. E o resto é história.
Radamés saindo pelo Brasil afora através do Projeto Pixinguinha, lotando os teatros, e logo repartindo a gravação de um CD com o violão poderoso de Raphael Rabello, e fazendo o que mais gostava: ir ao “Lucas” tomar um chopinho com seus mais recentes e jovens amigos e admiradores. Lembro que estava em sua casa, ele ensaiando com Raphael, quando apareceu Tom Jobim. Sentamo-nos no chão, mas fora da salinha de ensaio – onde havia um piano de armário. (Não se espantem: o piano do Maestrão não era de cauda). Dali, saímos os quatros, capitaneados por Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim para devorar umas deliciosas moelinhas num pé-sujo que ficava nas imediações da casa do Maestrão. Isso eu vi, disso participei. Não minto.Tom venerava Radamés.
AONDE QUERO CHEGAR?
À Internet, onde estamos navegando agora. Eu, você e não sei quantas pessoas mais. Há umas três décadas a discussão que nos interessava era a moralização do sistema que arrecadava e distribuía os chamados direitos autorais – assunto atualíssimo, que está em pauta. O sistema antigo era pontuado na ponta do lápis, de há muito já existia o chamado “jabá” nas rádios (a televisão já chegara, ditando novas regras), e vivíamos à sorrelfa em termos de grana.
Eram muitas as sociedades arrecadadoras, e a uma delas fui levado por meu parceiro Pixinguinha. Iniciante na música (estávamos na década de 1960), desconhecia completamente os mecanismos que regiam a arrecadação e distribuição de tais direitos. E quase nessa mesma época, estimulados por Tom Jobim, entregamos nossas obras para serem administradas por uma editora considerada, até então, idônea. Fomos posteriormente lesados, Tom inclusive.
Podemos, dentro do nosso fértil imaginário, voltar ao bairro do Estácio nas décadas de 1920/1930, quando Chico Alves e Mário Reis iam “comprar” sambas de Noel e Ismael Silva e outros bambas. Nelson Cavaquinho também vendia suas composições. Era uma prática na época. As editoras que iam surgindo acabaram por diminuir essa prática, substituindo-a por outros, nem sempre lícitas. E nós, autores, sempre nos ferrando.
Éramos, então, um bando de ingênuos. Conforme a ótica de cada um, uns utopistas e sonhadores que usavam pensar uma mudança e moralização de metodologia do sistema então vigente.
Não levávamos em conta, todos nós, que estávamos cedendo a terceiros uma parte, 1/3 da nossa criação, através de um instrumento chamado “cessão de direitos”. Descomplicando: se Mauricio Tapajós e eu entregássemos à editora uma determinada obra, ela ficava proprietária eterna de 33,33% (ou 33,34%) de nossas composições. E só poderíamos gravá-las se fossem editadas pelos grupos editoriais ligados à sociedade a que pertencíamos. No nosso caso específico, a SBACEM.
Complicado? Era, e muito.
E AÍ VEIO O ECAD
Descomplicou bastante, quando da fundação do ECAD (Escritório Central Arrecadação e Distribuição). Informatizado, o sistema tornou-se mais transparente – e nem por isso menos vulnerável. Assim como no futebol, no carnaval e outras atividades de entretenimento, ainda existem focos que persistem em nublar uma visão que parecia ganhar contornos mais nítidos.
Chiquinha Gonzaga, há uns 100 anos, liderou um movimento em defesa dos direitos autorais. Já era uma velhinha quando acendeu a fogueira da discussão. A partir daí, seu estandarte foi parar um outras mãos, chegando até nossos companheiros da Amar-Sombrás, que em 1976 resolveram enfrentar o monstro.
Contextualizemos. Quem não viveu aquela época estranharia um bando de jovens (e também jovens senhores) enfrentando, em pleno regime militar, as máfias que dominavam as áreas do direito autoral. Sempre o Aldir (Blanc) lembra nosso Mauricio Tapajós, mas não posso deixar de também citar Gonzaguinha, Vitor Martins, Gutemberg Guarabyra e, vamos ser sinceros, quase toda a classe artística que, coesa, entrou na briga.
Quando pensávamos navegar em mares menos tumultuados, vem a novidade: a Internet. Aí tudo recomplicou bastante.
INTERNET
A Internet, hoje, é um espaço de ninguém. Ou um espaço para todos. Um macro e imaginário antigo bairro do Estácio, mas online. Basta não ser uma anta cibernética como eu para você encontrar coisas inimagináveis – e tudo isso “de grátis”, como diz o bordão popular.
Por outro lado, defendem alguns amigos, ela, a Internet, tornou-se um espaço democrático – onde você pode divulgar o que quiser, desde uma composição inédita (pergunte antes ao seu parceiro se ele concorda...) até uma orgia que uma câmera indiscreta flagrou entre quatro paredes.
Confesso a vocês que, pondo meus temores (os tenho!) de lado, me compraz (que horror!) encontrar um take da Isaurinha Garcia sendo entrevistada por mim em 1977, na TVE. Chamo a isso democratizar a informação, fazendo-a circular. Direitos à parte, somos um país desmemoriado culturalmente. Já disse isso de forma um pouco mais inteligente, mas não faz diferença. Sim, sim: dizia que a tal memória nacional era tratada pelos agentes culturais como uma velhinha debilóide e esclerosada, carente de ser asilada – e falo de asilo, de exílio compulsório, de jogá-la ao lixo, como se lixo fosse.
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Ataulfo Alves e Sérgio Cabral
Ataulfo Alves
Meu querido Sergio Cabral tem agora seus dias ocupados com a biografia que está traçando de uma figura cheia de nobreza que atende pelo nome de Ataulfo Alves. Vamos ao e-mail que me mandou:
From: Sergio Cabral
To: Herminio Bello de Carvalho
Sent: Sunday, December 14, 2008 10:05 PM
Subject: Ataulfo
No seu acervo, constam três músicas da parceria com Ataulfo: “Armadilha”, “Desvivendo” e “É lixo só”. São graváveis? É claro que são. Beijos. Sérgio.
Tinha por hábito, quase uma regra, a de colocar em cadernos espiralados (e eram quatro) os rascunhos das músicas que compunha com meus parceiros. Isso não aconteceu, por exemplo, com a letra do choro “Noites Cariocas”, que compus após a morte de Jacob do Bandolim, autor da melodia. Não tirei cópia, entreguei o original pra você, e aí a Gal (Costa) manifestou a vontade de gravar um choro. Me procurou, a seu pedido, e fui obrigado a confessar que havia perdido a letra. Você, cuidadoso, a guardou e salvou a situação. Gal foi lá em casa, aprendeu o choro com o Luiz Otávio Braga – e o resto da história já se sabe.
Como se vê, esse arquivamento não era obedecido com regularidade. Tenho aqui diversas versões de duas letras para Ataulfo: uma chamada “Desapetece viver”, que numa das cópias aparece com o nome de “Armadilhas”, datada de 1966, e uma outra, “Desvivendo”, escrita em 06/dezembro/67. “É lixo só” não foi arquivado naqueles velhos cadernos, mas apenas no item “letras a retrabalhar”, que confusamente vou acumulando em meu computador. Era, originalmente, uma paródia que, sem querer, foi arrolada indevidamente (mea culpa, mea máxima culpa) como de parceria com Ataulfo. Na primeira versão, eu falava do meu cachorrinho Francisco Lano Bello de Carvalho, um Lhasa Apso que só mostrava simpatia por uma visitante de quem sempre buscava o colo: Aracy de Almeida.
Constato que ao fazer uma nova paródia, dessa vez abordando os problemas dos canteiros da rua onde moro, acabei apagando a primeira versão. “Armadilhas” foi gravado por Dona Inah no CD “Divino Samba Meu” (CPC-Umes, 2004). Cotejando os versos antigos com os que foram gravados (e que aliás não constam do saite), veremos que a letra definitiva ganhou novos rumos.
Quanto ao “Desvivendo’, acho que Ataulfo não se interessou pela versalhada ou não teve tempo de musicá-la. Pode ser que aconteça com esses versos o mesmo episódio ocorrido com o samba-canção “Camarim”, e que a Marilia T. Barbosa veio encontrar, musicada, após a morte de Cartola. A fita estava lá guardadinha. Ele não teve tempo de entregá-la a mim. Pode-se deduzir daí que não sou um guardião confiável de meus próprios trabalhos. Vamos ao outro e-mail (ainda tem hífen?)
From: Sergio Cabral
To: Herminio Bello de Carvalho
Sent: Sunday, December 14, 2008 12:27 AM
Subject: Consulta
Meu Hermínio,
procurei no seu acervo alguma referência sobre a troca de Ataulfo Alves pelos Cinco Crioulos no show Mudando de Conversa, e não achei. Você poderia me contar como foi isso? Se tiver mais alguma coisa para dizer sobre Ataulfo, pode dizer que eu agradeço. Beijos. Sérgio.
Vou direto ao “Timoneiro” (Ed. Casa da Palavra, 2006), meu perfil biográfico traçado por Alexandre Pavan. Tento fazer uma colagem dos estilhaços de lembranças que não tivessem chegado àquele livro – e elas se fragmentam. Quando e como conheci Ataulfo? Lembro-o em seu Cadillac (era conversível? Não me lembro. Seria espaventosamente amarelo como aquele, primeiro, que Bethânia possuía? Não posso afirmar). Como o meu acervo está em São Paulo e este saite continua em construção, é provável que muita coisa ainda venha a ser descoberta.
Lembro que ele tinha um apartamentinho (os maldosos diziam que era seu abatedouro), onde degustava alguma de suas “Pastilhas”. Ficava na esquina de Augusto Severo com a rua da Lapa, quase limítrofe ao bairro da Glória. Isso é fácil de não esquecer: o projeto do edifício, a parte que dava pra Lapa, tinha a assinatura do Oscar Niemeyer e umas persianas desaprumadas que criavam uma sinuosidade esquisita. Naquele mesmo prédio o casal Andrés Segóvia-Olga Praguer Coelho possuía igualmente um apartamento. Ali também adquiri um quarto-e-sala meio duplex, pequeníssimo. Mas aí já estamos em 1990, o prédio já em decadência.
Ah, sim! Lembro muitíssimo vagamente de um roteiro datilografado do “Leva meu samba”, que seria o nome do espetáculo que levaríamos pro Teatro Santa Rosa, do Leo Jusi. (Meus Deus, como é que esse nome veio parar aqui? Confira aí, meu Sergio, por favor!). Que Ataulfo esteve em meu apartamento na rua Benjamim Constant isso posso assegurar. Mas... e a foto comprobatória de sua presença? Posso estar confundindo com uma outra em que estão o Ciro Monteiro, a Nora Ney, Clementina e Dino 7 Cordas.
Que Ataulfo gravou a melodia do “Desapetece viver” (posterior e definitivamente intitulada “Armadilhas”) num gravador caseiro, isso é meio óbvio. Que essa fita foi pras cucuias não tenho dúvidas, mas posso também aventar a hipótese de que tenha parado nos arquivos de Jacob do Bandolim, usuário de minhas fitas. Ou não. O tempo dirá. Como já expliquei, este saite está em construção. Chegamos a ensaiar alguma coisa? Acho que não. Que Ataulfo me comunicou sua desistência por motivos de saúde, lembro bem. Que faleceria em 10 de abril de 1969 isso está no livro. Poderia falsear diálogos, até aspeá-los (que memória prodigiosa possuem certas pessoas!) ou inventar dados que jamais seriam refutados – não é o que se vê por aí? Assim como Elizeth, Ataulfo faz parte da trilha sonora de minha vida.
Mas quando e como fui apresentado a Ataulfo pessoalmente, esqueça. Você foi o primeiro a proclamar essa minha disritmia cronológica. E, e além do mais, por falta de vocação ou de noções de arquivologia, fui jogando tudo naquele cestão onde misturamos lascas de nossas memórias, apontamentos sobre um fato que para nós foi importante (e que pros outros não terá o menor significado), fotos com personagens desfocados de nossa lembrança – ah, meu Sérgio! que traiçoeiro é esse ato de catalogar aleatoriamente os fatos abagunçados de nossas (e outras) vidas.
Agora mesmo, meu Sergio, fui me socorrer de teus livros para sapecar outro exemplo de minha falta de memória: meu primeiro encontro com a Divina, que você foi descobrir e conta onde, quando e como se deu na biografia que procuro agora nas minhas estantes e não encontro. Devo tê-la emprestado para alguém não muito adepto a devoluções.
Quando a gente envelhece, é essa merda que se vê. Um beijo de teu admirador
Hermínio Bello de Carvalho
P.S. – Segue a letra definitiva do “Armadilhas”, com uma coda que agreguei recentemente. Cotejando com as que foram arquivadas nos tais cadernos, alguns poderão até perguntar: qual a relevância de colocar no saite aqueles esboços? Perguntem ao Chico Buarque, quando pedi que autografasse o original do “Chão de esmeraldas” que letrei e ele musicou. Deve ter achado uma sandice minha, e mudou de assunto. Em compensação, tenho na parede o original do “Piano na Mangueira”, autografado por ele e Tom Jobim – numa versão diferente daquela que foi gravada pelos dois. Podem procurar aí no saite.
ARMADILHAS
Ataulfo Alves/Hermínio Bello de Carvalho
Eu abri toda a casa pra te esperar
enfeitei as janelas do coração
quem mandou eu me arder nesse fogo assim?
Não valeu: quase nada sobrou de mim
iludir
é uma coisa que fazes bem
humilhar e trair fazes bem melhor
Há um porém: armadilhas não são fiéis
podem até te trair e engatar teus pés
Deixa estar
que das cinzas vou renascer
te ofuscar mais que o brilho do próprio sol
o amanhã quem dispõe ao seu modo é Deus
e só Deus sabe atar, desatar seus nós
Vai te impor um castigo atroz
(quem trair vai ficar a sós)
vais gritar de perder a voz
(e virar o seu próprio algoz)
flutuar numa dor feroz
feito a casca de uma noz
e se desenrolar, após,
fio a fio que nem retrós
pelo abismo de uma foz
sem ninguém segurar-lhe o cós
vai voar, vai sumir, veloz
pelos céus como um albatroz
To: Herminio Bello de Carvalho
Sent: Sunday, December 14, 2008 12:27 AM
Subject: Consulta
Meu Hermínio,
procurei no seu acervo alguma referência sobre a troca de Ataulfo Alves pelos Cinco Crioulos no show Mudando de Conversa, e não achei. Você poderia me contar como foi isso? Se tiver mais alguma coisa para dizer sobre Ataulfo, pode dizer que eu agradeço. Beijos. Sérgio.
Vou direto ao “Timoneiro” (Ed. Casa da Palavra, 2006), meu perfil biográfico traçado por Alexandre Pavan. Tento fazer uma colagem dos estilhaços de lembranças que não tivessem chegado àquele livro – e elas se fragmentam. Quando e como conheci Ataulfo? Lembro-o em seu Cadillac (era conversível? Não me lembro. Seria espaventosamente amarelo como aquele, primeiro, que Bethânia possuía? Não posso afirmar). Como o meu acervo está em São Paulo e este saite continua em construção, é provável que muita coisa ainda venha a ser descoberta.
Lembro que ele tinha um apartamentinho (os maldosos diziam que era seu abatedouro), onde degustava alguma de suas “Pastilhas”. Ficava na esquina de Augusto Severo com a rua da Lapa, quase limítrofe ao bairro da Glória. Isso é fácil de não esquecer: o projeto do edifício, a parte que dava pra Lapa, tinha a assinatura do Oscar Niemeyer e umas persianas desaprumadas que criavam uma sinuosidade esquisita. Naquele mesmo prédio o casal Andrés Segóvia-Olga Praguer Coelho possuía igualmente um apartamento. Ali também adquiri um quarto-e-sala meio duplex, pequeníssimo. Mas aí já estamos em 1990, o prédio já em decadência.
Ah, sim! Lembro muitíssimo vagamente de um roteiro datilografado do “Leva meu samba”, que seria o nome do espetáculo que levaríamos pro Teatro Santa Rosa, do Leo Jusi. (Meus Deus, como é que esse nome veio parar aqui? Confira aí, meu Sergio, por favor!). Que Ataulfo esteve em meu apartamento na rua Benjamim Constant isso posso assegurar. Mas... e a foto comprobatória de sua presença? Posso estar confundindo com uma outra em que estão o Ciro Monteiro, a Nora Ney, Clementina e Dino 7 Cordas.
Que Ataulfo gravou a melodia do “Desapetece viver” (posterior e definitivamente intitulada “Armadilhas”) num gravador caseiro, isso é meio óbvio. Que essa fita foi pras cucuias não tenho dúvidas, mas posso também aventar a hipótese de que tenha parado nos arquivos de Jacob do Bandolim, usuário de minhas fitas. Ou não. O tempo dirá. Como já expliquei, este saite está em construção. Chegamos a ensaiar alguma coisa? Acho que não. Que Ataulfo me comunicou sua desistência por motivos de saúde, lembro bem. Que faleceria em 10 de abril de 1969 isso está no livro. Poderia falsear diálogos, até aspeá-los (que memória prodigiosa possuem certas pessoas!) ou inventar dados que jamais seriam refutados – não é o que se vê por aí? Assim como Elizeth, Ataulfo faz parte da trilha sonora de minha vida.
Mas quando e como fui apresentado a Ataulfo pessoalmente, esqueça. Você foi o primeiro a proclamar essa minha disritmia cronológica. E, e além do mais, por falta de vocação ou de noções de arquivologia, fui jogando tudo naquele cestão onde misturamos lascas de nossas memórias, apontamentos sobre um fato que para nós foi importante (e que pros outros não terá o menor significado), fotos com personagens desfocados de nossa lembrança – ah, meu Sérgio! que traiçoeiro é esse ato de catalogar aleatoriamente os fatos abagunçados de nossas (e outras) vidas.
Agora mesmo, meu Sergio, fui me socorrer de teus livros para sapecar outro exemplo de minha falta de memória: meu primeiro encontro com a Divina, que você foi descobrir e conta onde, quando e como se deu na biografia que procuro agora nas minhas estantes e não encontro. Devo tê-la emprestado para alguém não muito adepto a devoluções.
Quando a gente envelhece, é essa merda que se vê. Um beijo de teu admirador
Hermínio Bello de Carvalho
P.S. – Segue a letra definitiva do “Armadilhas”, com uma coda que agreguei recentemente. Cotejando com as que foram arquivadas nos tais cadernos, alguns poderão até perguntar: qual a relevância de colocar no saite aqueles esboços? Perguntem ao Chico Buarque, quando pedi que autografasse o original do “Chão de esmeraldas” que letrei e ele musicou. Deve ter achado uma sandice minha, e mudou de assunto. Em compensação, tenho na parede o original do “Piano na Mangueira”, autografado por ele e Tom Jobim – numa versão diferente daquela que foi gravada pelos dois. Podem procurar aí no saite.
ARMADILHAS
Ataulfo Alves/Hermínio Bello de Carvalho
Eu abri toda a casa pra te esperar
enfeitei as janelas do coração
quem mandou eu me arder nesse fogo assim?
Não valeu: quase nada sobrou de mim
iludir
é uma coisa que fazes bem
humilhar e trair fazes bem melhor
Há um porém: armadilhas não são fiéis
podem até te trair e engatar teus pés
Deixa estar
que das cinzas vou renascer
te ofuscar mais que o brilho do próprio sol
o amanhã quem dispõe ao seu modo é Deus
e só Deus sabe atar, desatar seus nós
Vai te impor um castigo atroz
(quem trair vai ficar a sós)
vais gritar de perder a voz
(e virar o seu próprio algoz)
flutuar numa dor feroz
feito a casca de uma noz
e se desenrolar, após,
fio a fio que nem retrós
pelo abismo de uma foz
sem ninguém segurar-lhe o cós
vai voar, vai sumir, veloz
pelos céus como um albatroz
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